segunda-feira, 30/11/2020
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Quando a criatividade se torna negócio: um ensaio sobre reinvenção

Thiago Noronha (*)

Com o avanço da pandemia provocada pela COVID-19, conforme pesquisa do IBGE que apontou uma afetação negativa em 62,4% das empresas no Brasil, muitas pessoas começaram a buscar alternativas. Não à toa, numa pesquisa feita pela plataforma Google Trends que mede a busca por termos específicos ao longo do tempo, demonstra que entre a semana 26 de abril e 02 de maio o termo “Como se reinventar na quarentena” saltou de zero para 99 (num máximo de 100) no índice de buscas do Google.

As mudanças e as incertezas provocadas pelo tempo atual têm feito muitas pessoas ressignificarem suas carreiras e suas relações com o trabalho. Outras, estão dando vazão a sonhos que estiveram represados durante muito tempo. É o exemplo da história da administradora Luana de Jesus, de 33 anos, que abriu seu Frigorífico Conveniência na cidade de Itabaianinha/SE e ganhou repercussão nacional.

A impossibilidade de atuar na área de formação ou no emprego formal impõe desafios de reinvenção para muitas pessoas que começam a revisitar suas potencialidades. Outros, que já tinham essas atividades como suplementares ou bicos, diante do tempo disponível ou da necessidade, estão escolhendo dar vez à criatividade no processo de reinvenção.

Segundo o conceito do inglês John Howkins existe um nicho de negócios que transforma criatividade em resultado: a economia criativa. Esta, por sua vez, é estabelecida em oito pilares: arquitetura, design, artes, moda, cinema, audiovisual, literatura e artes cênicas.

Trata-se, também, de um novo olhar sobre as relações em comunidade e que tem a economia colaborativa como seu carro-chefe. A produção de conteúdo e as redes sociais, marketing de relacionamento, dentre outros novos segmentos possuem total conexão na hora de aliar potencialidades das pessoas e a entrega de novos produtos e serviços à sociedade.

Segundo Isabella Prata, fundadora da Escola São Paulo em entrevista para a Endeavor, o próprio mercado cria a necessidade de capacitação para quem quer mergulhar nele. “No setor criativo, se você não tiver três ferramentas de gestão – de pessoas, financeira e de marcas – seu negócio não vai durar muito tempo. Um dos segredos é acreditar que sua ideia pode ser interessante para outras pessoas. É pular da cama todos os dias, no primeiro momento em que você abre os olhos, com a faca nos dentes, brilho nos olhos, e botar pra fazer. O objetivo não é mais quantas horas estamos trabalhando, mas o quanto estamos produzindo nas horas que trabalhamos”, informou Isabella.

Em um momento como o atual, de profundas mudanças sociais, há novas necessidades surgindo o tempo todo. A produção de conteúdo digital, a forma de entrega de produtos e serviços, novas formas de interação e conexão com os outros (ou consigo mesmo) tudo isso são oportunidades que a economia criativa pode apresentar possibilidades de negócios. Abraçar essas possibilidades, talvez, seja o início de um grande ciclo positivo.

ENTREVISTA – MARCOLINO JOE

 Marcolino Joe (@instadomarcolino) é um sergipano arretado, contemporâneo da Universidade Federal de Sergipe (UFS), que utiliza a economia criativa como modo de vida. Em 2011, criou   o tr3s.minutos – festival sergipano de micrometragens. A execução do evento e as oficinas de produção de vídeo com celular que fez ao longo dos anos deram a Joe uma boa ideia de como a criatividade gerava lucro. Em 2013, ele abriu a Café com Guaraná (produtora de vídeos especializada em conteúdo para internet) e em 2016 criou o Cinema de Bolso, onde atua até hoje.

A proposta de valor do Joe é entregar aos seus alunos e seguidores várias dicas (ou, como ele chama, “adianto de vida”) para soluções na geração de conteúdo digital em imagem e audiovisual. Além disso, ele dá cursos e oficinas sobre produção de conteúdo 100% com o celular. Abaixo, ele concede uma entrevista apresentando sua visão sobre este mercado a partir de sua vivência na prática. Confira!

Empreendedorismo & Inovação (E&I) – Recentemente eu vi uma publicação sua no seu instagram onde falava “economia criativa também paga boletos”. Na sua visão, existe um preconceito no Brasil sobre viver exclusivamente de trabalhos intangíveis?

Marcolino Joe (Joe) – Existe. Porque o cerne de todo preconceito é a ignorância sobre o assunto. Como a maioria das pessoas não tem acesso ao modus operandi da coisa fica parecendo que nosso trabalho se resume ao que está sob os holofotes. Além disso, existe uma questão geracional: o conceito de trabalho onde é necessário cumprir determinada carga horária ou produzir algo palpável está em declínio há décadas. Mas ainda é muito forte. Por fim, tem aquela galerinha que só quer encher o saco.

E&I – Quais são os maiores desafios de empreender com economia criativa?

Joe – Sazonalidade interna, externa e precificação. Explico: a sazonalidade interna tem a ver com nós mesmos. Como nosso negócio depende de nossa criatividade é fundamental que estejamos bem emocionalmente para isso. É uma das coisas mais difíceis conseguir se manter equilibrado. A externa são as mudanças bruscas do mercado. Quando se fala de tecnologia então, aí lasca tudo. Diariamente surgem novas formas de fazer ou distribuir um conteúdo e você precisa estar por dentro. Por fim, quanto custa o que você cria? Depois de colocar os impostos, custos fixos, variáveis, investimento… quanto custa dedicar aquele tempo da sua vida? Esse é o maior desafio.

E&I – Como surgiu o Cine de Bolso? Ele é hoje o seu “carro-chefe”?

Joe – Surgiu quando finalmente as condições objetivas e subjetivas se impuseram. Penso nele desde 2011, mas não era possível, afinal, a tecnologia e o uso das mídias sociais não haviam avançado como hoje. Foi mais uma tendência que consegui antecipar (além do 3 minutos e da Café). Hoje ele paga meus boletos e me realiza como profissional.

E&I – Quais são as pessoas, instituições e/ou eventos mais importantes para a economia criativa em Sergipe?

Joe – Isabele Ribeiro com sua inquietude transformadora, o Sebrae Sergipe por conta dos cursos e, mais recentemente, por começar a entender a diferença entre economia criativa e artesanato e a Feirinha da Gambiarra (que agora lançou uma rede e um fundo pra ajudar empreendedores da economia criativa) e que estou orgulhoso de fazer parte esse ano.

E&I – Cite cinco referências na área da economia criativa e seus perfis que as pessoas podem se inspirar:

Joe – Isabele Ribeiro (@isabeleribeiro); Ronaldo Lemos (@lemos_ronaldo); Agência Gorilla (@gorilla.agencia); Bits to Brands (@bitstobrands) & Caio Braz (@caio).

 

Até breve! 🙋‍♂️

 

INDICAÇÃO DE LIVRO

Toda coluna vamos ter um livro como indicação. A ideia é estimular a leitura de conteúdos transformadores e que alicerçam o conhecimento empreendedor. O livro desta coluna é Economia Criativa – Como Ganhar Dinheiro com Ideias Criativas do inglês John Howkins que foi citado mais em cima em nossa coluna.

Como transformar criatividade em dinheiro, capital e lucro? Simplesmente ter uma ideia brilhante não interessa, o que interessa é o que você faz com ela. John Howkins, destacado especialista em economia criativa, nos mostra nesta edição atualizada o que realmente é criatividade, fornecendo dados concretos sobre sua representatividade na economia mundial (US$2,7 trilhões por ano) e descrevendo as principais regras para o sucesso. Este livro trata da relação entre a criatividade e a economia. A criatividade não é algo novo, tampouco a economia, mas a novidade está na natureza e na extensão da relação entre elas e como elas se combinam para criar valor e riqueza extraordinários.

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Thiago Noronha Vieira | E-mail: thiagonoronha@acnlaw.com.br

Advogado. Sócio do Álvares Carvalho & Noronha – Advocacia Especializada (ACNLaw). Pós-Graduado em Direito Empresarial pela PUC/MG. Presidente da Comissão de Direito Privado e Empreendedorismo Jurídico da OAB/SE 2019/2021. Ex-Diretor Jurídico do Conselho de Jovens Empreendedores de Sergipe (CJE/SE).

Siga-me no instagram @thiago.nvieira

**Esse texto é de responsabilidade exclusiva do autor.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe.

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