quarta-feira, 14/02/2024
Ilustração: Federação dos Bancários de Santa Catarina

Por que Economia Herética?

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Por Emerson Sousa (*)

 

Talvez algum dia, por uma simples curiosidade, você já deva ter feito essa pergunta.

E a resposta para ela é bastante simples: este irresignado digitante, enquanto um economista formado, se recusa firmemente a interpretar a economia do ponto de vista dos Ricos.

E isso, para a ampla maioria dos economistas, é uma heresia.

Para o pensamento dominante das ciências econômicas no mundo ocidental, as soluções para os problemas e mazelas sociais têm por pressuposto primeiro e principal a garantia da lucratividade das grandes corporações.

Lembra quando sempre aparece alguém perguntando: de onde vão sair os recursos? De onde vem o dinheiro?

Pois bem, essas questões estão imbuídas no contexto ideológico de que toda solução para os problemas sociais só é viável se, de modo primordial, forem atendidas as exigências de lucratividade dos Ricos.

Essa percepção tem, por premissa latente, a crença de que os Ricos são fundamentais para o desenvolvimento socioeconômico.

Só que eles não são.

Em verdade, são até supérfluos e redundantes.

Não fazem a menor falta.

Repare que, se por graça e obra do Divino Espírito Santo, apenas os Ricos fossem arrebatados aos céus, afora o choque causado pelo evento, o mundo continuaria funcionando normalmente?

É óbvio que sim!

Agora, imagine um mundo sem os pobres, sem essas pessoas que precisam vender suas habilidades, suas competências e suas aptidões para sobreviverem, o que aconteceria com a produção?

Sacastes o drama?

Ah, fazendo um parêntese: você não está entre os Ricos!

Então, continuando, na lógica hegemônica do pensamento econômico atual, uma deficiência coletiva que se apresente não pode, para ser solucionada, afrontar os ganhos dos Ricos.

Por isso que vemos no debate político e econômico do país e do mundo uma série de propostas que, em verdade, apenas inviabilizam a promoção dessas soluções.

Por exemplo, coisas como a Lei de Responsabilidade Fiscal (LCP 101/2000) e o Teto de Gastos (EC 95/2016) mais dificultam do que facilitam a expansão dos níveis de bem-estar do povo brasileiro.

Suspeito que, agora, você tenha tomado um susto.

Só que esse estranhamento decorre da doutrinação ideológica que sofremos todos os dias.

Diuturnamente, o pensamento hegemônico das ciências econômicas nos faz ver a realidade sob a óptica dos Ricos e não sobre o nosso ponto de vista.

Isso quer dizer que nós devemos tratar a economia de forma açodada e imprevidente?

Não, de forma alguma!

Nós apenas temos que inverter a ordem lógica dos pressupostos e, claro, dos objetivos.

Nosso conforto, nossa segurança e o nosso bem-estar é que devem vir em primeiro lugar, não os ganhos dos Ricos.

Aí, ao invés de colocarmos a lucratividade dos Ricos como premissa basilar para se garantir o bem-estar social, nós devemos, em primeiro lugar, pensar em soluções que resolvam nossas carências e, em seguida, se houver espaço, procurar garantir alguma lucratividade para essas figuras.

Para que isso aconteça, nós devemos cultivar em nós a percepção e o espírito de que o circuito produtivo – ou seja, o modo de organização do nosso trabalho – deve ser orientado para resolver os problemas da Sociedade e não para garantir a lucratividade das grandes corporações.

A esta altura você deve estar se perguntando: mas isso não pode criar alguns problemas?

Pode não, vai!

Mas é para isso que existem a Política e a Ciência.

Se, por um acaso, nesse processo de reconversão lógica do circuito produtivo, os Ricos respeitarem tanto a Política quanto a Ciência, de forma democrática, as soluções ótimas para os problemas sociais tendem a vir até com certa facilidade.

Claro que este irresignado digitante já estudou História e sabe que, quando seus lucros são negativamente afetados, os Ricos não têm o mínimo respeito pela Ciência, pela Política e nem, muito menos, pela Democracia.

Tocam o terror, mesmo!

Mas esse é um desafio que nós, enquanto seres do gênero humano, temos que enfrentar.

O que não se pode mais é submetermos a qualidade de vida das pessoas, sua segurança e seu conforto, bem como a sustentabilidade ambiental do planeta e, por decorrência, a nossa própria existência como espécie, aos desígnios dos Ricos.

Logo, para este velho economista, nós não devemos mais encarar a economia tendo o interesse dos Ricos como parâmetro de validade das soluções encontradas.

E saiba que isso, para ampla maioria dos economistas é um anátema, motivo suficiente para se mandar alguém para a “fogueira”.

E o mais curioso é que, para muitos deles, esse estado de coisas é algo tão natural que eles nem percebem as contradições expostas neste texto.

Dizem eles que: “isso é a realidade e tentar mudá-la é utopia!”.

Não sabem eles que a evolução das formas de produção é um processo dialético, materialista e historicamente determinado.

Bom, na verdade, eles sabem.

Só não admitem!

Dessa forma, esta é uma Economia Herética, porque este irresignado digitante sabe que, no contexto da busca por soluções dos problemas sociais, o interesse dos Ricos é uma peça de um quebra-cabeça de oito partes para preencher outro dividido em 5.000 fragmentos.

Ou seja, é impossível se completar adequadamente esse mosaico enquanto levarmos em conta os interesses dos Ricos.

Não há solução ótima para os problemas sociais quando temos que considerar os interesses dos Ricos, isso porque a perspectiva deles é diametralmente oposta à da Sociedade.

Um exemplo disso: o 1% mais rico da população mundial é responsável pela mesma quantidade de emissões de carbono que os dois terços mais pobres do planeta.

Isso quer dizer que apenas 77 milhões de pessoas – soma das populações de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul – exaurem o mesmo volume de recursos naturais do total de habitantes de países tais como China, Índia, Estados Unidos, Indonésia, Paquistão, Brasil, Nigéria, Bangladesh e Rússia.

Sacou o quanto os Ricos prejudicam o planeta?

O problema é que os Ricos possuem muito poder e muitos recursos para impedir o processo de evolução e emancipação humana.

Assim, qual a solução?

Nos valermos da Política e da Ciência para, democraticamente, retirarmos esses recursos e esse poder das mãos deles.

Então, nesta pouco visitada coluna, você nunca vai ouvir falar de tolices ideológicas como “Custo Brasil” ou “Reformas Estruturantes”.

Porque isso só interessa aos Ricos.

E, na Economia Herética, Rico não entra nem para limpar a prataria.

Aqui você vai ouvir falar do poder de compra dos salários, combate ao desemprego, de aumento da distribuição de renda, de empreendedorismo, do fim da fome, da erradicação das iniquidades sociais, em suma, aqui só se vai falar da promoção da Cidadania.

E se tem uma coisa que o mundo sabe desde, ao menos, os Irmãos Graco, é que Rico tem ódio e temor da Cidadania, porque esta reduz as suas possibilidades de ganhos.

Mas não se engane, esse velho economista também sabe que não existe almoço grátis.

E já que é assim, que os Ricos paguem por nossa cerveja e por nossa picanha.

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Sobre Emerson de Sousa

Economista Emerson Sousa
Doutor em Administração pelo NPGA/UFBA e mestre em Economia pelo NUPEC/UFS

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2 comentários

  1. Luiz Marcos de Oliveira Silva

    Muito lúcido e contundente. Parabéns pelo texto e posicionamento.

  2. BRUNO SETTON GONÇALVES

    Mais um.excelente texto, recomendo fortemente a leitura desta coluna.

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