quinta-feira, 14/01/2021
O nascimento de Jesus Cristo Foto: Pixabay

Natal, o revolucionário e o estelionato doutrinário

Valtênio Paes (*)

Não pretendemos aqui tratar do teológico ante nossa pobreza neste saber.  Especularemos apenas alguns fatos através de um olhar 2020 anos depois do nascimento de Jesus Cristo. Portanto, os juízos de valor no século XXI estão exageradamente inadequados para se aceitar como parâmetros finais no presente. Por ser um tema universal, no qual milhões de pessoas professam e com inúmeras interpretações, é impossível o consenso. Traremos apenas reflexões provocativas e intencionalmente apresentadas após o 25 de dezembro.

Numa sociedade em que o poder era arbitrário e ferramenta da nobreza, única classe social dominadora sobre a maioria de escravos ou pessoas livres, eis que aparece um homem pregando pacificamente a divisão do pão, a não violência, falando para sábios, nobres e humildes. Pregava o monoteísmo, a igualdade, “amar a Deus sobre todas as coisas, amar ao próximo como a ti mesmo” e que pessoas são mais importantes que coisas.

Os poderosos de Jerusalém e Roma se assustaram. Quem é esta pessoa? Está incomodando, é um revolucionário. Prendam-no! Hoje seria um “esquerdista”.  A popularidade de suas ideias gerava ciúmes e temor entre líderes religiosos locais que o acusavam de blasfêmia, profanação do sábado, subversão e de intitular-se falsamente como profeta.

Sem provas para prendê-lo, usaram 30 moedas através de Judas Iscariotes. Jesus Cristo foi levado ao Sinédrio, chefiado por Caifás, assembléia  com funções administrativas e poder de julgar. A pena de morte não cabia do que era acusado. Queriam eliminá-lo, daí ser levado a Pôncio Pilatos, governador romano que não se convencera da gravidade e o enviou a Herodes Antipas para que o julgasse. Sem provas, foi mandado de volta a Pilatos que recusou-se a condenar Cristo. Ante a pressão da população, pediu que lhe trouxessem água, lavou as mãos e a sentença de morte foi executada.

 Após sua morte, seus ideais se espalharam pelo mundo até que o imperador romano Constantino, temendo perder poder, converteu-se ao cristianismo. Em 313 concedera liberdade de culto aos cristãos. Já Teodósio, em 390, adotou o cristianismo como religião oficial no poderoso império. As divergências cresceram resultando na divisão entre católicos, gregos, católicos romanos, protestantismo de Lutero, dentre outras.

Séculos depois, já no sistema feudal, a sociedade literalmente dividida, desde o nascimento, entre nobres (que mandavam) e vassalos (que trabalhavam para alimentação de todos) ir pro céu  se livrando dos pecados era promover práticas de caridade. Tais doações deveriam ser destinadas aos mais pobres ou para a Igreja. A prática da caridade pelos ricos tornou a igreja de Roma grande propriedade de feudos.

Santo Agostinho: bispo e doutor da Igreja Foto: Wikipedia
São Tomás: filósofo e doutor

A caridade, em detrimento do combate à desigualdade social, foi institucionalizada na Europa. Liderados pelo pensamento de Santo Agostinho e   São Tomás de Aquino, os ideais originais foram sendo desconsiderados e a prática da caridade passou a ser “instrumento de salvação” em detrimento das preocupações cristãs.

A caridade como “conforto espiritual” dos ricos, para justificarem a dominação sobre os pobres, se estabeleceu secularmente. Assim, “nasceu pobre foi Deus que quis…”   “… quem dá aos pobres empresta a Deus”…. Conforte-se!  Enquanto isso, a miséria e a desigualdade aumentaram e o pensamento original de Cristo milenarmente foi sendo esquecido.

O catolicismo, seguido depois pelo protestantismo, liderou no mundo ocidental a cultura e a educação, mas esqueceu os originais mandamentos defendidos por Cristo até sua morte. A Igreja Católica, hoje com mais de 1,2 bilhão de fiéis, chegou a possuir um terço das terras cultiváveis da Europa Ocidental na Idade Média. Era a grande responsável pelo pensamento social e cultural na época. Seu poder era tão grande que influenciava as monarquias, cultura, educação com as universidades, escolástica e artes, ressalvando a proibição de experimentos.

Jesus era sim revolucionário para o seu tempo, pois as pessoas estavam preocupadas consigo mesmas e Jesus trouxe a ideia de que devemos ter uma preocupação coletiva e sobretudo com Deus. Isto significava mudanças profundas para as pessoas. Se voltasse hoje defendendo as mesmas ideias seria considerado, por alguns, “um esquerdista”.

Pensar, propor e morrer por estas causas hoje seria atacado nas redes sociais como um ultrarrevolucionário de “esquerda”, se pudéssemos retroagir na história. Que não se evoque… “o santo nome em vão” e, ao pregar a violência ao mesmo tempo, se diga cristão. Se assim proceder, pratica estelionato doutrinário.

Pessoas no século XXI se escondem na religião cristã para incitar a desigualdade e violência. Não querem perceber que Jesus Cristo se opôs há 2020 anos passados a esse tipo de conduta humana. Quem prega a violência, a desigualdade é cristão ou se esconde nesta doutrina para práticas equivocadas? Mesmo passado o 25 de dezembro ainda é tempo de refazer caminhos!

Com certeza, pessoas fizeram banquetes para comemorar o nascimento de Cristo. Oxalá tenham refletido sobre suas ideias. Oxalá que o pensamento cristão verdadeiro prevaleça na prática, por todo  o ano de 2021, para todas as pessoas.

(*) Valtênio Paes de Oliveira é professor, advogado, especialista em educação, doutor em Ciências Jurídicas, autor de A LDBEN Comentada -Redes Editora, Derecho Educacional en el Mercosur- Editorial Dunken e Diálogos em 1970- J Andrade.

** Esse texto é de responsabilidade exclusiva do autor.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe.

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