quarta-feira, 10/08/2022
Overland Amaral, coordenador do Centro de Pesquisas Especiais de Sergipe

“2022 será um ano chuvoso”, diz o meteorologista Overland Amaral

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Há 41 anos, é ele quem avisa à população sergipana se e quando vai chover no Estado. E tem boas notícias para os agricultores, pois suas previsões indicam que 2022 será um ano chuvoso, porém informa que é necessário ficar atento para o plantio no tempo certo. Esses alertas e previsões são do meteorologista Overland Amaral, 69 (mas que se sente com a jovialidade de um rapaz de 25 anos), nascido em Nossa Senhora da Glória, que queria entender o êxodo dos sertanejos para São Paulo, inclusive de seus irmãos. Ele não seguiu para a Paulicéia e ficou aqui para estudar.

Em 1984, conquistou o título de geógrafo, na Universidade Federal de Sergipe (UFS), com o trabalho “Interação das massas atmosféricas e a gênesis das chuvas no Estado de Sergipe”. E, literalmente, entrou no clima. Fez pós na UFS  e no Instituto de Ciências Espaciais (Inpe), e hoje é quem dá as cartas climáticas no Estado, dirigindo o Centro de Pesquisas Especiais de Sergipe, desde 1990. O Centro é mantido pela Sedurbs (Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Sustentabilidade).

“É importante que as pessoas entendam como trabalhar essa chegada da água: preparar o solo, para que a água se infiltre”, diz Overland, que também faz um alerta para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel): “Já é o momento de se avaliar as bandeiras amarelas e vermelhas que a Aneel impõe à população. Essa é uma coisa à parte, mas que tem tudo a ver. Por que a bandeira vermelha com esse custo todo?”, critica.

Overland também está em alerta com o aquecimento global e lamenta que se não forem tomadas medidas urgentes, o futuro será um desastre. “Os eventos climáticos extremos, tanto chuvoso, como seco, são consequências do aquecimento global. Hoje, acompanhando a curva de Kelling, que mede a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera, vemos o crescimento”, explica.

As queimadas na Amazônia também contribuem para piorar a situação no mundo. “E tem outra coisa: a mudança climática e redução da cobertura vegetal da Amazônia prejudica os rios voadores. Vou explicar: toda umidade que circula na Amazônia, dentro das correntes aéreas, elas vêm pelo Equador e encontra a barreira dos Andes e diverge para o Sul. E leva toda a umidade para as regiões Sudeste e Sul. Os rios voadores diminuindo essa circulação, a região Sudeste será um deserto, porque é uma questão natural.”

Neste primeiro domingo de 2022, comece lendo esta entrevista com Overland Amaral, que, além de animar o sertanejo pelas chuvas que virão, alerta sobre a necessidade de se preservar o meio ambiente, o mundo em que vivemos. “O homem é o lobo do homem que esquece que ele só tem essa mãe terra”, destaca.

Overland: chuvas continuarão em Sergipe  Foto: ASN

SÓ SERGIPE – Em dezembro vivemos um período de fortes chuvas, tanto aqui em Sergipe, que provocou a perda da safra de arroz, como no sul da Bahia que foi totalmente assolado. Qual a explicação para esse fenômeno? Ele vai continuar?

OVERLAND AMARAL – Sim. É estranho muita chuva num período quente e de estiagem, que é o verão. De certa forma tem uma causa. Estamos num período de La Niña, com o esfriamento das águas do Pacífico, na costa oeste da América do Sul. E, por outro lado, temos o Atlântico Sul muito aquecido, desde o sul da Bahia até o Rio Grande do Norte. O que tem a ver os oceanos com a circulação? Tem muito a ver, pois transforma a circulação atmosférica. Quando a La Niña está instalada em águas frias, ela diverge as frentes: suga as frentes para as regiões tropicais e chega rápido por toda a América do Sul até parte de São Paulo. E essa é uma das causas da seca no Rio Grande do Sul, onde ocorreu perda de safra.  A frente chega até a Bahia e encontra o apogeu, a umidade do Atlântico, o transporte da umidade do oceano para o continente, e ali as temperaturas mais elevadas se transformam numa zona de convergência de umidade, que se associa a do oceano como a descida da linha de umidade da Amazônia.  Consequentemente, isso é que favorece as quantidades de instabilidade convectivas, em forma de trovoadas. É o que está acontecendo agora mais intensamente.

SÓ SERGIPE – Qual a situação na região de Sergipe?

OVERLAND AMARAL – Do Recôncavo Baiano até Sergipe e Alagoas na parte norte, o tempo recuou. Mas há nova zona de convergência se formando no sul da Bahia. Então é essa relação oceano/atmosfera que condiciona que essa situação vai continuar. Frequentemente, em intervalos de 10 a 12 dias, há zonas se formando, inclusive com alertas.

SÓ SERGIPE – Existe a possibilidade de as chuvas que caíram na Bahia chegarem com intensidade em Sergipe?

OVERLAND AMARAL – Claro que sim. Toda chuva que chega à Bahia, sob todos os sistemas, em forma de zcas ou em frentes, vem para Sergipe. É essa condição que alimenta a região Sealba (Sergipe, Alagoas e Bahia), todo o Nordeste da Bahia, o agreste de Sergipe, com toda a parte sertão e agreste de Alagoas.  A chuva que chega à Bahia beneficia essa região. E as chuvas vão continuar no intervalo de 10 a 14 dias, porque as condições oceânicas de La Niña vão perdurar até abril e maio. E o Atlântico vai continuar sempre quente a normal, seguindo pela estação. Podemos até cantar a música “Águas de março”, que diz “são as águas de março fechando o verão”.

Toda chuva que chega à Bahia, sob todos os sistemas, em forma de zcas ou em frentes, vem para Sergipe Foto: ASN

SÓ SERGIPE – Dessa forma, 2022 será um ano chuvoso?

OVERLAND AMARAL – É bem provável, nestas condições, e favorável  para a agricultura na região Sealba.

SÓ SERGIPE – Mas será que haverá um equilíbrio das chuvas?

OVERLAND AMARAL – O importante é que tenha uma frequência, bem balanceada. É necessário que as pessoas entendam como trabalhar essa chegada de água: preparar o solo, para que a água se infiltre. Precisam conhecer e proteger o solo para guardar. E reabastecimento dos recursos hídricos, geração de energia.

‘Hora de rever as bandeiras amarelas e vermelhas’
Foto: Arquivo/Agência Brasil

SÓ SERGIPE – Como será um ano chuvoso, é hora de rever as bandeiras tarifárias de energia elétrica?

OVERLAND AMARAL – Já é o momento de se avaliar as bandeiras amarelas e vermelhas que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) impõe à população. Essa é uma coisa à parte, mas que tem tudo a ver. Por que a bandeira vermelha com esse custo todo?

SÓ SERGIPE –  O El Niño e La Niña são dois irmãos que não se entendem e a população sofre com isso.

OVERLAND AMARAL – (risos) É verdade. Um pernicioso e outra muito calma. A La Niña favorece as condições para o Nordeste do Brasil, mas não é a mesma coisa para o sul do Brasil, que passa por grande estiagem, com perda de safra.

SÓ SERGIPE – Temos dois pólos: um período é seco e outro, chuvoso.

OVERLAND AMARAL – Sim. Temos que entender: aproveitar a agua quando é seco e drenar a água quando chuvoso. Tem que saber fazer isso.

SÓ SERGIPE – Quando o senhor fala da agricultura, lembro que foi a primeira revolução do homem, em tempos remotos. Com a agricultura e  sempre olhando para o céu o homem deixou de ser nômade. Hoje, com a tecnologia, o homem continua olhando para o céu, vendo o sol e a chuva.

OVERLAND AMARAL – Isso é fundamental. A importância do ciclo climático, das condições meteorológicas. E hoje, com a expansão agrícola com a implantação do trigo, brevemente, vai ser produzido em nossa região. São grandes áreas e é preciso ter o olho no tempo e no clima. Hoje é tudo automatizado, você pode prever se vai ter chuva, quanto vai chover. Tudo isso é fundamental.  E cada empreendedor agrícola tem que estar de olho,  e ter isso como instrumento de trabalho.

SÓ SERGIPE – Algo que chama a atenção com chuvas intensas é saber como se mede isso. Por exemplo: no sul da Bahia choveu em três dias o que era previsto para 30 dias. Como se mede?

OVERLAND AMARAL – Se mede com os pluviômetros específicos. Hoje, esses aparelhos são automáticos, muito sensíveis, é quase um radar. Com eles, você sabe quanto caiu de chuva em determinada região. E compara com o histórico da região. A chuva foi tão volumosa que em três dias choveu o que era previsto para um mês.

Em Propriá, um pluviômetro. Na imagem, a igreja matriz da cidade Foto: Wikipedia

SÓ SERGIPE – Os pluviômetros estão instalados em quais pontos do Estado?

OVERLAND AMARAL – Estão em pontos estratégicos do Estado. Aqui são em torno de 48 pluviômetros do Governo do Estado e mais sete estações do Inemet.  Quando comecei a trabalhar com meteorologia eram somente três e depois instalamos mais quatro. Eles estão em Aracaju, Propriá, Itabaianinha, Itabaiana, Poço Verde, Carira, Nossa Senhora da Glória. Mas caberiam mais: em Porto da Folha, Gararu, do Inemet.

SÓ SERGIPE – Pelo número de pluviômetros, Sergipe está bem servido?

OVERLAND AMARAL – Está com boa distribuição. Precisamos renovar algumas do Estado. Com essa cobertura, você tem a representação da distribuição de chuvas em Sergipe.

SÓ SERGIPE – Vamos conhecer um pouco sobre o senhor, que hoje é uma referência quando o assunto é meteorologia no Estado. Quando tudo começou?

OVERLAND AMARAL – Sou sertanejo de Nossa Senhora da Glória, sinto-me um garotão de 25 anos. No período seco, assisti à partida da população indo de pau de arara para São Paulo. Ficava me perguntando por que isso. Meus irmãos foram para São Paulo, mas eu quis ficar e estudar por aqui. Fui para a universidade e me formei em Geografia. Um tempo depois, fui ser responsável por uma estação meteorológica que foi instalada em Nossa Senhora das Dores pela extinta Petromisa, para observar os sais da salmoura. Fui fazer uma pesquisa no núcleo de Geografia do antigo Codese e fui convidado a ficar lá. Comecei a trabalhar o clima com muita vontade e depois de já formado, participei do Projeto Nordeste, porque o então presidente Fernando Collor quis saber como combater a seca. Foi criado um núcleo de estudos do Nordeste de Meteorologia Tropical. Cada Estado encaminhou representantes para o Inpe, onde foi criado o núcleo. Eu fui representando Sergipe e depois criei aqui o Centro de Pesquisa Especiais, na Codise.  De lá iniciei todos os estudos de meteorologia no Estado.

SÓ SERGIPE -São quantos anos de trabalho?

OVERLAND AMARAL – Isso começou em 1980, portanto são 41 anos atuando como meteorologista. Hoje estão na Sedurbs.

SÓ SERGIPE – O senhor, inclusive, fez em Aracaju diversas conferências sobre o clima, trazendo estudiosos, não foi?

OVERLAND AMARAL – Sim. Trouxe vários estudiosos e mantenho contato com estudiosos do Brasil inteiro e do exterior.  Hoje estamos todos integrados aos núcleos de meteorologia do Nordeste e mensalmente nos reunimos para fazer as previsões climáticas para três meses.  E a cada mês reavaliamos essas previsões.

SÓ SERGIPE – Assistimos à Conferência do Clima e lembro que a sueca  Greta Thunber disse que os presidentes ficaram somente no “blá blá blá”.  Se  não houver ação dos governantes, teremos problemas climáticos mais sérios?

Charles David Kelling Foto: Wikipedia

OVERLAND AMARAL – Basicamente todos estes eventos climáticos extremos considero como efeito do aquecimento global. Nós já estamos sentindo.  A grande quantidade de chuva em curto tempo tem como causa uma atmosfera aquecida. Estamos vivendo isso agora. Os eventos climáticos extremos – tanto chuvoso como seco – são consequências do aquecimento global. Hoje, acompanhando a curva de Kelling, que mede a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera, vemos o aumento.  Kelling foi um grande cientista, estudioso da atmosfera, que instalou, em 1952 em Mauna Loa, Havaí, um grande observatório do dióxido de carbono, que continua ativo atualmente. Ele era engenheiro químico e percebeu que a atmosfera era carregada de dióxido de carbono. Desde que ele começou, na década de 50, o dióxido, medido em partes por milhões, era de 320. Hoje está em 420 partes por milhões. Cresceu a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera. Se cresceu, temos um mundo de dióxido envolvendo a reflexão do calor que incide na esfera. Um cobertor forte no mundo de dióxido, consequentemente, nossa atmosfera está se aquecendo. As mudanças climáticas estão acontecendo, com muita chuva ou extremo de seca.

SÓ SERGIPE – No início da pandemia, quando as pessoas foram trabalhar em casa, houve  um pouco de diminuição do efeito estufa?

OVERLAND AMARAL – Houve uma pausa e nesse aspecto acontece a redução da aviação que joga muito dióxido de carbono na atmosfera. De fato, essa fase eu acompanhei, houve uma pausa no crescimento da Curva de Kelling, mas muito pouco. Voltando, já vimos o crescimento acumulado. A retirada do dióxido seria pela vegetação, mas reduziram, também, a cobertura vegetal no globo, essa curva se mantém em crescimento, pois a queima dos combustíveis fósseis e outros elementos está aumentando.

SÓ SERGIPE – Se não tiver uma providência para diminuir o efeito estufa, onde chegaremos?

OVERLAND AMARAL – As consequências são extremas. Por isso que a conferência do clima está fazendo com que haja redução de emissão de dióxido de carbono na atmosfera. Daí a tecnologia de carros elétricos, híbridos, a redução de queima de carvão. Os países devem reduzir a emissão, pois se não o fizerem será muito grave. E que tenhamos meio ambiente favorável.

Queimadas na Amazônia: prejuízo para o mundo Foto: Agência Brasil

SÓ SERGIPE –  E a Amazônia – considerada o pulmão do mundo – queimando, contribuiu negativamente para esse problema?

OVERLAND AMARAL – Sim. E tem mais outra coisa:  a mudança climática e a redução da cobertura vegetal da Amazônia prejudicam os rios voadores. Vou explicar: toda umidade que circula na Amazônia, dentro das correntes aéreas, vem pelo Equador e encontra a barreira dos Andes e diverge para o Sul. E leva toda umidade para as regiões Sudeste e Sul. Os rios voadores diminuindo essa circulação, a região Sudeste será um deserto, porque é uma questão natural. Ela transporta e faz a chuva regimental, e diminuindo o rio voador fatalmente virará um deserto. Uma condição ambiental totalmente mudada. Tem que ter cuidado nesses aspectos, e já se detecta essas consequências que afetam a sobrevivência humana sob todos os aspectos.

SÓ SERGIPE – Quando o homem não cuida do meio ambiente, ele caminha para a destruição da própria espécie?

OVERLAND AMARAL – Isso. Numa visão universal e até cósmica, pergunto-me: onde tem vida inteligente, a não ser na Terra?, e o que assegura a vida na terra? O clima,  os elementos básicos para manutenção da vida. A matéria pensante. E não preservamos essas condições. O homem é o lobo do homem que esquece que ele só tem essa mãe terra.

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