quarta-feira, 18/05/2022
Muito dinheiro envolvido para prender a atenção dos telespectadores Imagem: Pixabay

Zoológico High Tech

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Luiz Thadeu (*)

Desde a noite  de segunda feira, 17/01, que está aberta mais uma edição do BBB, programa de entretenimento que a Rede Globo exibe no começo do ano, há 22 anos. Sucesso garantido, a fórmula criada pela Endemol, da Holanda, cresce a cada ano por aqui.

São selecionados vinte participantes entre os milhares que enviam vídeos, ávidos para participar do maior reality show da TV brasileira, atrás de dinheiro e visibilidade. Nos primeiros BBBs apenas anônimos, como a fórmula estava se exaurindo, colocaram sub celebridades para causar e atrair mídia e falação.

Os competidores ficam confinados em uma casa cenográfica, sendo vigiados por câmeras 24 horas por dia, não podendo se comunicar com seus parentes e amigos, ler jornais ou usar de qualquer outro meio para obter informações externas.

Primeiro BBB foi ao ar em 29 de janeiro de 2002.

No Brasil, além das transmissões diárias na TV Globo e de flashes esporádicos no canal por assinatura Multishow, é exibido em pay-per-view (PPV), com câmeras filmando integralmente a rotina dos participantes, em várias operadoras de televisão por assinatura. Na internet, é exibido pelos canais Globo para os assinantes do PPV e no Globoplay para os assinantes do Globo.com.

No décimo paredão do Big Brother Brasil 20, foi constatada a maior votação do programa e de reality shows no mundo, com exatos 1.532.944.337 votos na disputa entre os participantes Felipe Prior, Manu Gavassi e Mari Gonzalez. Tal feito entrou para o Guinness World Records como “a maior quantidade de votos do público conseguidos por um programa de televisão”.

“Big Brother”, é um fenômeno que é apresentado anualmente no Brasil e em sessenta países mundo afora.

Uma curiosidade: na Holanda, berço da criação do formato criado por John de Mol (fundador da produtora Endemol, que depois se associou à Shine), até um parto foi feito dentro da casa e visto pela TV, na mais impressionante cena já gravada em um programa de confinamento.

Para se ter uma ideia de quanto dinheiro arrecada a Rede Globo com o BBB, em 2021, foram 530 milhões de reais negociados em cotas publicitárias — uma exposição vista como vantajosa para os anunciantes, que decidiram repetir a dose em 2022 após a alta de audiência no programa gerada por personagens como Gil do Vigor e Juliette. As previsões para o BBB 22 são de mais dinheiro.

A Globo obteve um recorde no desempenho comercial da atração. Das 12 cotas de patrocínio oferecidas para o reality (o maior plano comercial já oferecido em toda a história do BBB), todas foram comercializadas, de acordo com a Consultoria “Meio & Mensagem”. Além disso, outros dois anunciantes também estão garantidos na realização de provas e ações especiais da atração.

Muito dinheiro envolvido para prender a atenção dos telespectadores que gostam e têm tempo para “espiar” seres humanos confinados em uma jaula high tech, multicolorida, a dizer bobagem, se digladiando por dinheiro (R$ 1,5 milhão) e fama. O prêmio de R$ 1,5 milhão chega a ser ninharia diante do que os vencedores ganham após deixarem a casa. Segundo cálculos do mercado, a vencedora do BBB 21, a paraibana Juliette já arrecadou R$ 25 milhões, sendo uma das garotas-propaganda mais disputadas da mídia. Sem falar nos outros que se projetaram e têm fama e dinheiro.

Talvez sirva para estudos sociológicos e antropológicos o assistir da poltrona de casa, com um balde de pipocas nas mãos, como funcionam as relações humanas, quando terráqueos são privados de suas liberdades, ou simplesmente passatempo para tempos tão difíceis.

Com todos os problemas que assolam esse imenso Brasil: Covid-19, Influenza, enchentes, desabrigados, desemprego, violência, corrupção, feminicídio, ano eleitoral…, como num passe de mágica, os problemas reais darão lugar às discussões inócuas sobre brigas e disputas entre os participantes exóticos da “casa mais vigiada do Brasil”.

Mas para que servem mesmo os problemas reais, se você, caro leitor, amiga leitora, tem a oportunidade de espiar uma fauna enjaulada, em um Zoológico high tech, se exibindo para o mundo,  com comida e bebida à vontade, disputando ‘barracos’, egos, prêmios e dinheiro?

 

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Luiz Thadeu Nunes e Silva é engenheiro agrônomo, palestrante, cronista e viajante: o sul-americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 143 países em todos os continentes.

** Esse texto é de responsabilidade exclusiva do autor.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe.

 

 

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