sexta-feira, 29/05/2020
O pronto-socorro e seus dramas diários

Sobre Moraes Moreira e a existência de outras doenças além da Covid-19

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Médica sanitarista Ana Débora Santana

Acordei ontem com a notícia triste, partiu Moraes Moreira. Causa desconhecida. Em sua casa.

Minha cabeça de ex-plantonista de emergência põe-se a confabular. Teria ele sentido algo previamente, algum mal estar, e adiou a ida ao hospital por medo da Covid-19? Imediatamente penso nas milhares de pessoas em nosso planeta. E lembro, sobretudo, que a mortalidade por doenças cardiovasculares é a principal causa de morte em boa parte do mundo. Vem à memória a sábia frase muito repetida pelos bravos profissionais de saúde “Estamos aqui por você. Fique em casa por nós”. É perfeito, mas… é preciso lembrar : as outras doenças não deixaram de existir.

Como plantonista recebi os mais diversos tipos de pacientes e queixas. A maior parte das visitas ao Pronto Socorro eram desnecessárias. Algo que poderia ser resolvido em casa, com breve descanso, um analgésico e observação. Na minha coleção de queixas inusitadas, um paciente que puxou a pele ressecada de seu lábio e fez uma pequena laceração. Pequena mesmo. Ele foi ao meu plantão, alta noite, no Hospital Italiano, Rio de Janeiro.

Os meus colegas também colecionam histórias semelhantes. Obviamente, muitas destas pessoas procuram os serviços de saúde com outras buscas, não necessariamente do corpo biológico. Mas esta é uma outra longa conversa.

O fato é que um plantão médico costuma ser composto de uma multidão de situações simples. Mas, entre estas, diariamente, existem os casos potencialmente graves e os realmente graves.

O isolamento social é uma medida mundialmente adotada nestes tempos de pandemia. Pressupõe a diminuição de contatos e a saída de casa apenas para situações essenciais.

Nada mais essencial que cuidar da própria saúde. Portanto, é necessário ter cautela. Alguns sintomas pedem ida a um serviço médico para avaliação e esclarecimento.

Um adulto, sobretudo acima dos 40 anos, e principalmente se tem doenças de base, não pode ignorar uma dor no peito, não associada à trauma, por exemplo.

Não deve ignorar uma dor de cabeça forte, que apareceu subitamente, é diferente de todas que você sentiu antes e não responde a um analgésico costumeiro.

Não deve aceitar alterações do equilíbrio, alterações motoras (diminuição da força, paralisia, dificuldade para executar movimentos) ou da fala.

São apenas alguns exemplos de condições que merecem avaliação médica.

O Brasil não está em fechamento absoluto (lockdown) e mesmo que estivesse, cuidados de saúde são uma medida essencial e permitida.

Não podemos permitir que a epidemia mascare outras causas de adoecimento e gere aumento da mortalidade por doenças que podem ser devidamente tratadas.

Procure falar com seu médico particular, médico de família ou orientar-se, mesmo que por telefone, junto aos serviços de saúde.

Não estou dando diagnóstico ao que aconteceu com o talentosíssimo Moraes Moreira. Apenas uma reflexão sobre a minimização de potenciais resultados adversos deste momento histórico que vivemos.

Cabe a todos nós a difícil busca de permanecermos bem para aproveitarmos da vida quando tudo isso passar.

(*) Médica sanitarista sergipana e consultora em Atenção Primária à Saúde para a Organização PanAmericana de Saúde (OPAS), nos EUA.

 

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