quinta-feira, 17/10/2019
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O perigo das redes sociais

Ostentação nas redes sociais, existe?

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Valtênio Paes (*)

Francisco de Assis disse que “ninguém é suficientemente perfeito, que não possa aprender com o outro e, ninguém é totalmente destituído de valores que não possa ensinar algo ao seu irmão“.

Nesta seara, busca-se refletir sobre ostentação. Segundo a enciclopédia Wikipédia, ostentação (do latim “ostentare” que significa “mostrar”) é o ato de, com muito excesso e orgulho, exibir realizações, posses ou habilidades de si próprio com vaidade e pompa, bens, direitos ou outra propriedade, normalmente fazendo referência à necessidade de mostrar luxo ou riqueza. “A ostentação também está ligada ao apego aos bens materiais, o poder. O objetivo normalmente é que o alvo sinta uma sensação de satisfação, admiração ou inveja”.

Merece reflexão a postura como pessoas se comportam em grupos de fins específicos nas redes sociais, em especial aqueles criados com objetivos de integração, tomadas de decisões, família onde se congregam pessoas de várias características. Por vezes, luxo, riqueza, desgraças, glórias materiais, em frações de segundos são despejados sem qualquer cautela para com os componentes, desfigurando a pretensão maior. Uns replicam, outros sofrem ou lamentam.

Nas últimas décadas publicar nas redes sociais, ideias, áudios, imagens, etc. é uma constância que cresce mais do que exponencialmente, sem qualquer cautela. O corpo esfacelado decorrente do crime, intimidade do corpo e da sexualidade, objetos de uso e consumo, a alegria, a tristeza, tragédia, fortuna, graça, mercê, prosperidade, peraltices, ações inusitadas de crianças, crítica política, sátiras, enfim, tudo é passível de divulgação. Quase tudo se publiciza no mundo ocidental.

Alguém posta notícia de falecimento de conhecido no grupo seguido por outro que, desavisadamente, posta foto de um suculento prato ou viagem dos sonhos. Quais são os desejos? Que valores estamos praticando no citado grupo? Na comunidade on line existe sentimentos? Sentimentos e vaidades devem conviver no mesmo momento ou o autor da postagem perdeu o norte do bom senso? Quais os efeitos para quem recebe? Por que posta? Para que posta? Espera-se que um dia o usuário-emitente possa responder em beneficio do destinatário, jamais para seu deleite ostentativo. Exemplo de deseducação pela ostentação consumista relatado por estudante em sala de aula: “meu aluno de 13 anos disse que estava triste porque postou foto de seu tênis novo e no outro dia quando acordou somente tinham duas curtidas”. Vale também reflexão.

Será que quando posta-se ostentação de luxo e riqueza estamos respeitando os humildes existentes no respectivo grupo? Rebater com argumentos individualistas não satisfaz porque, pertencendo a um grupo, deve prevalecer o sentimento coletivo do fim específico para que fora criado.

Tantas perguntas fáceis de serem respondidas, mas carentes de serem praticadas. Será que a ostentação existe para a “felicidade” do autor da postagem? E quando a vida lhe negar possibilidade de ostentar? E quando os “seguidores” desistirem? E quando o corpo não responder à velocidade da máquina?

Voltaremos à perguntar como Drummond de Andrade perguntara em 1942, em seu poema José conforme está transcrita: “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E agora, José?”…

Ostentar é opção de cada um, mas em grupos criados com fins específicos, contrariando os respectivos componentes, pode desagregar, maltratar, humilhar destinatários adeptos que esperam ponderação, modéstia e simplicidade, virtudes necessárias à convivência coletiva das pessoas. Ao que parece, a prática da ostentação nos grupos específicos existe e poderia ser repensada.

Já que começamos com Francisco de Assis, assim terminaremos: “Todos somos candidatos à tranquilidade imperturbável, mas, para tanto, temos de lutar e vencer a mais dura das batalhas, na guerra com nós mesmos, que carece de vigilância permanente para eliminar os inimigos que muito conhecemos: o ódio, a inveja, o ciúme, a discórdia, a maledicência, a vingança, o orgulho, o egoísmo… São frentes de lutas que devemos travar para vencer a nós mesmos e conhecer o terreno sagrado do nosso coração”.

Senão teremos dificuldades da prática da convivência fraterna, uma das razões da humanidade.

(*) Valtênio Paes de Oliveira colabora quinzenalmente, às segundas-feirasEle é professor, advogado, especialista em educação, doutor em Ciências Jurídicas, autor de A LDBEN Comentada -Redes Editora, Derecho Educacional en el Mercosur- Editorial Dunken e Diálogos em 1970- J Andrade.

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