domingo, 22/09/2019
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Augusto Lyra: nem notívago e nem workalohic, mas apaixonado pela medicina

O médico das madrugadas

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Ele tem um ritmo de trabalho pouco comum para quem atua em consultório: de segunda à sábado, o clínico geral Augusto César Lyra Machado atravessa as madrugadas atendendo dezenas e dezenas de pacientes. Dono de uma paciência incomparável, ele ouve todos tranquilamente, prescreve os medicamentos, requisita os exames necessários e, quando o problema de saúde requer um especialista, ele faz o encaminhamento.

Mesmo com essa rotina, Augusto César, que atende no prédio da Diagnose na rua Campos, não se considera um notívago, aquela pessoa que tem hábitos ou costumes noturnos. Na verdade, Augusto até se surpreendeu com essa adjetivação e foi buscar no dicionário o significado da palavra. “Eu trabalho manhã, tarde e noite. Não faço inversão do dia pela noite. Mas quando chega o excesso, eu descanso”, avisa.

Apesar de não se considerar um notívago, atender pacientes na madrugada é algo normal para ele. Augusto chega por volta do meio-dia ao consultório para uma maratona que só vai terminar, na melhor das previsões, entre cinco a seis da manhã do dia seguinte. Um detalhe: quando ele termina o expediente, já tem pacientes esperando as secretárias dele para marcar um lugar, desde que tenham feito a reserva antecipadamente. Essa entrevista foi feita, neste mês de maio, às cinco da manhã, sete horas depois que o repórter chegou ao consultório.

Como na canção homônima de Edson Gomes, “na sombra da noite” acontecem coisas e quem madruga é quem pode ver.  Nesta madrugada, acordadíssimo, um grupo de pacientes se zangou com uma mulher que “furou” a fila. Foram muitos e muitos protestos e, felizmente, mesmo com os ânimos exaltados, a revolta não saiu do campo verbal. A mulher que teria “furado” a fila não disse uma palavra e desapareceu cabisbaixa pelas escadarias do prédio onde fica o consultório. Quando a calmaria voltou a reinar, os pacientes conversaram sobre diversos assuntos do dia a dia para ajudar passar o tempo.

Enquanto isso, na sua sala, Augusto César atendia aos pacientes. Esse ritmo de trabalho, segundo ele, foi para dar vencimento à demanda. Atender tanta gente nos três turnos, para ele, é sinônimo de felicidade. “Sou feliz e alegre no que faço. Isso [o trabalho] me traz prazer. Não consigo pensar no tempo que passou. Se é manhã, tarde ou noite”, comenta. Ele alerta que não quer ser rotulado como workaholic, gíria em inglês que significa alguém viciado em trabalho ou um trabalhador compulsivo, dependente.

“O cara” – Em média, Augusto César atende a 18 a 20 pacientes por dia. Alguns deles moram em outro Estado.  A empresária Márcia Pinheiro, residente em Salvador, o considera um excelente médico. “Ele é o cara”, diz Márcia que não se incomoda em passar a madrugada toda aguardando atendimento. “Mesmo que você fique aqui esperando, apesar de ser muito cansativo, você sai daqui contente porque sai curado. Primeiro com a ajuda de Deus, depois com a ajuda do doutor”, afirmou. Há 17 anos que a família de Márcia é atendida por Augusto.

Márcia e a mãe Damiana: "ele é o cara", referindo-se a Augusto César
Márcia e a mãe Damiana: “ele é o cara”, referindo-se a Augusto César

Na madrugada que aconteceu essa entrevista, Márcia foi com a mãe, Damiana dos Santos, 76 anos, ao consultório. “Doutor Augusto é um profissional fora do comum. Um dia, minha mãe chegou praticamente morta aqui. Ela está viva por conta dos cuidados dele”, acredita. Além de toda a família ser paciente de Augusto César, outros 10 amigos  soteropolitanos de Márcia também optaram pelos cuidados dele.

Tem paciente que pela primeira vez enfrentava a madrugada para ter atendimento.  Foi o caso de Maria Gabriela Prado, 18 anos, que estava acompanhada da mãe, Clívia Prado. Elas chegaram às 19h30 e só foram atendidas por volta das sete da manhã do dia seguinte. “Doutor Augusto faz o que gosta e tenho certeza que ele trata o paciente com muita cautela, paciência e dedicação. Vou sempre cuidar da minha saúde com ele”, garantiu Maria Gabriela, que já fraturou o braço após uma queda de bicicleta e no dia 21 de fevereiro foi submetida a uma cirurgia de apendicite.

Até aquele dia, ela nunca havia feito um check-up, mas estava disposta a se submeter a todos os exames que fossem prescritos por Augusto César. Retornar para análise dos exames, significa enfrentar uma nova maratona, com chances reais de passar a madrugada esperando. A não ser, claro, que o paciente chegue as 4 da manhã, aguarde a chegada das secretãrias às 8 e se prepare para ser atendido por volta do meio-dia, em média.

Dentro da sua sala  atrás de uma mesa cheia de papéis, cercada de caixas com medicamentos, diplomas na parede, um dinossáurico aparelho de fax que deixa mensagem em inglês, Augusto César segue sua rotina notívaga e, com isso, aumenta sua agenda de clientes.  Trabalhar nesse ritmo é felicidade para o clínico generalista. “Não consigo entender como as pessoas são corredoras de rua e se desafiam para correr 20 ou 42 quilômetros. Isso não me dá prazer, pois desgasta o organismo, as articulações. Moro no Mosqueiro e quando vou para casa, vejo nos bares seis homens bebendo cerveja, um olhando para outro. Não tem nem uma mulher para olhar. Que felicidade há nisso?”, questiona. Definir o que é felicidade é algo difícil.

“Prefiro estar lendo, estudando. Prefiro estar aqui no consultório. Assim eu sou feliz”, disse.

Que assim seja!!

 

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