segunda-feira, 28/09/2020
Estátua de João Cabral de Melo Neto, no Recife Foto: Blog Pulga na Farinha

Nossos verdes cabralinos

O coqueiro e a cana lhe ensinam,
sem pedra-mó, mas faca a faca,
como voar o Agreste e o Sertão:
mão cortante e desembainhada.”

(João Cabral de Melo Neto, em A Escola das Facas)

Germano  Viana Xavier

Quando atravessei a Chapada Diamantina e me deparei com o Pernambuco do meu pai pela primeira vez, ali ainda em minha infância mais tênue e profunda, senti que aquele chão esbranquiçado e desmentido pelas sortes, de poeira mais fácil que a do solo baiano, impregnaria em mim com muita facilidade e quase nenhuma relutância. E não deu outra. Hoje, já bem crescido em idade e apesar da certidão chapadeira, sinto-me pernambucano em vários detalhes de alma, a começar pelo prazer que desenvolvi em ler a poesia deste “estado-trampolim”, como diria o incomensurável João Cabral de Melo Neto, autor do monumental A ESCOLA DAS FACAS.

Lendo este livro, vi de perto a superação da palavra-imagem em transformação consoante ao que é real. Uma espécie de transposição das águas ficcionais em águas de beber, de viver e, principalmente, em águas de sobreviver. Sobre-ser. Digo por experiência própria que já adentrei os pernambucos por todos ou por quase todos os lados, vez ou outra vindo de Paulo Afonso-BA, outrora descendo pela Paraíba de João Pessoa ou por Campina Grande, e até enfrentando-o de frente pelas rodovias de Alagoas, e aquele mesmo verde-nervoso e balouçante do poeta João Cabral de Melo Neto tão bem traduzido em seus poemas respinga até hoje pelas telas e pelas paisagens do mundo pernambucano-nordestino a todo instante.

Bem verdade, faz-se necessário salientar, um verde já carcomido pela ação do tempo, principalmente em localidades por onde o “progresso” oriundo do funcionamento das grandes usinas de cana-de-açúcar deixou de herança apenas as ruínas de suas construções e o maquinário em ferrugem, como feridas abertas sob o sol. Porém, assim mesmo digo de relance: sou um homem transformado pelas transformações que meus olhos viram, um homem lapidado pela intersecção das caudalosas águas negras diamantinas e a secura latente de um agreste pernambucano aparentemente sempre à beira de um colapso. De um lado, a exuberância divinal das pedras úmidas, do outro o seixo inamovível das artérias agrestinas por onde o Rio Una passou. Una morto, nascituro e natimorto, que quase só existiu em mim sem nem conseguir existir direito.

Em A ESCOLA DAS FACAS, de lírica extremamente cabralina, aceitei-me mais pelo que realmente sou ou pelo que me tornei ao longo da vida e de minhas caminhadas, quase sempre solitárias. Distanciei-me da surrealidade com a qual me afogo em alguns dias de nuvem. E vi o quanto isso foi bom, o quanto isso é bom. Livros assim são como pontes, fontes inquestionáveis de aprendizado e de des-razão. E até mesmo quando Cabral passeia seus versos verdes nada-verdes pela área metropolitana do Recife ou até pela própria capital, locais ainda muito incógnitos para mim, conferi em pessoa uma espécie de confiança nos passos já dados.

Bahia e Pernambuco me inventaram, e eu inventei estes lugares. Por inventá-los, criei estradas e abri picadas no verde dos coqueirais e das canas e também na cor seca de suas paragens. Fui menino ali e acolá, ancorei banguês nos ombros dos dois orvalhos e bebi da melhor garapa dos engenhos múltiplos. Tive e tenho este privilégio. Nasci com dois sangues e duas almas e vivi em dois estados supremos deste gigante país. Vivi. E vivo. Dois povos, os sertões, os rios, os canaviais, os agrestes, as pedras, as cachoeiras, os diamantes, a sombra dos diamantes… E o que há de belo em todo este movimento alargado por minhas pernas é o fato de que beber dessas duas águas me fizeram suportar com serenidade as impostoras belezas que porventura outros mundos emprestaram-me aos olhos.

João Cabral de Melo Neto completaria 100 anos se vivo fosse no dia 09 de janeiro de 2020. Hoje, com o início desta coluna sobre livros, literaturas e afins, um Sergipe aclarado pelo sol da belíssima Aracaju me abre portas para minhas visagens em formato-palavra. Estou implicado em meu dizer crítico-analítico, pois sei que várias são as tradições literárias e encarnados são os badalares do Tempo. Quero que meus leitores se apaixonem pela poesia, que os curiosos se intrometam e que algumas fomes humanas sejam saciadas. Num país que parece regressar às mais grotescas escuridões, trazendo à tona censuras e maldades as mais variadas para com seu já castigado povo, eu aposto na esperança. Aqui, neste espaço, recolheremos a própria Vida estampada nos livros, para que dela aprendamos a reproduzir somente as mais magníficas formas de se rebelar e de se tolerar.

Referência
NETO, João Cabral de Melo. A escola das facas. Rio de Janeiro: J.Olympio, 1982.
Minibiografia

Germano Viana Xavier é mestre em Letras e jornalista profissional (DRT BA 3647). Desenvolve estudos e pesquisas sobre Literatura e Direitos Humanos – Comunicação e Cultura – Literatura e Letramentos – Língua Portuguesa – Linguística – Cinema – Educação e Educomunicação. Idealizador/Coordenador Geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS (ISSN 2357 8025), periódico fundado em março de 2012 e que circula no Brasil, Portugal, Estados Unidos e Irlanda. Escreve desde 2007 o blog O EQUADOR DAS COISAS, cujo arquivo conta hoje com aproximadamente 2.000 textos de sua autoria. Em 2016, seu livro de contos SOMBRAS ADENTRO foi finalista do IV Prêmio Pernambuco de Literatura. Possui publicações em livros, jornais e revistas literárias diversas. Baiano desterrado, natural da Chapada Diamantina, tem 35 anos e atualmente habita o agreste meridional pernambucano. Canal no YouTube: www.youtube.com/oequadordascoisas

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