sexta-feira, 25/09/2020

Fanáticos e democracia

Valtênio Paes (*)

Para conservadores, comunista é mau ou mal, para progressistas, conservadores são culpados por todas as mazelas políticas do país. Foi sempre assim até nossos dias. Hoje, a Rússia, com sua Praça Vermelha em Moscou, harmonicamente, convive de um lado o mausoléu de Lenin (líder marxista) e do outro um shopping center, símbolo do consumo. Portanto, aquele país vive o capitalismo sem confrontos.

Verdade que no passado, Sobral Pinto, um ícone da advocacia brasileira, anticomunista, rejeitou convite de Juscelino para ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) por ter defendido a legalidade da sua posse como presidente. E mais, fora advogado de Prestes, liderança histórica do partido comunista no Brasil e de vários políticos perseguidos no regime militar. À época, fanatismo parecia irrelevante. Na contramão, no Brasil atual este antagonismo ideológico está resultando em práticas fanáticas.

Exagero de admiração demonstrada por algo, alguém, sistema, doutrina, partido político, religião, ídolos etc. Cegueira e facciosismo.  A pessoa fanática se acha no direito de fazer proselitismo (político, religioso, ideológico, etc.) de impor sua opinião e tentar demover a outra, irritando interlocutores.  No religioso tenta emplacar suas crenças, ora através do medo, ora da culpa. Também acontece no político, principalmente no submundo das redes sociais, onde dissimulados se tornam estelionatários ideológicos.

No plano científico, fanáticos não se rendem às evidencias conclusivas porque se prendem hermeticamente ao que diz o líder idolatrado. Cegamente seguem a fala ou o pensamento. Não tem capacidade de reduzir o encanto nem de questionar. A pessoa fanática usa somente dois caminhos: do contra ou a favor. Jamais pondera, tolera, dialoga com o oposto para analisar racionalmente.

Como já dissemos noutros escritos, a proposta socialista ruiu com a volta da Rússia ao capitalismo nos anos 90 do século passado. O capitalismo ortodoxo, da ausência do Estado na economia, já cambaleava por várias crises, e quedou com o advento do vírus. Todos os  países atenderam pedidos ajoelhados dos empresários por dinheiro público e barato numa confissão sem precedentes.

“O fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos”,  disse Nietzsche. “Fanático é o sujeito que não muda de ideia e não pode mudar de assunto”, afirmou  Churchill. “A mente de um fanático é como a pupila do olho: quanto mais luz incide sobre ela, mais se irá contrair”, escreveu Oliver Holmes. “Do fanatismo à barbárie não há mais do que um passo”, frisou  Denis Diderot. Assim expressaram pensadores ao longo da história.

Para o médico Luiz Henrique Novaes da Silva,  “o fanatismo pode ser enquadrado na categoria de transtorno psicótico. É, particularmente, transtorno delirante persistente”, diagnostica o médico: “É uma entidade psiquiátrica que, apesar das características bem definidas de doença mental, a pessoa consegue viver normalmente. É difícil até de diagnosticar porque se parece muito com a realidade”

 É compreensível na adolescência, no processo de amadurecimento, a busca por referências exteriores ao ambiente familiar na formação da identidade. Procurar ídolos para se espelhar e grupos para pertencer fazem parte da vida adolescente. Na fase adulta, possivelmente, a carência por ídolos, a necessidade de referência de vida, a ausência de autoafirmação e a ignorância estão levando pessoas exagerarem paixão ou ódio. Assim, se entregam a uma corrente de pensamento, ao ídolo, radicalizando argumentos impositivos até chegar ao fanatismo.

Permitir-se uma admiração sadia, é saudável. Importante é perceber-se que não se deve sair da racionalidade. Nela, divergir, questionar, não aceitar ideias ou condutas são inerentes às pessoas. Manter a admiração sem perder a capacidade de pensar e agir pelos seus conceitos e valores é virtuoso. Atente-se que não existem hoje, referencias mundiais, nacionais e locais com predicados estimulativos nesta direção.

 A prática do fanatismo resulta na cegueira da racionalidade. Ausência de racionalidade social pode resultar na ineficiência do bem coletivo.  Persistir pode gerar monstros e anomalias sociais dificultando o leito da boa convivência, principal razão dos humanos na Terra.

A diversidade e a democracia brasileiras não merecem a prática de fanatismos. Vivemos tempos difíceis!  Não esqueçamos que no planeta, todos literalmente, somos humanos, e como tal, não cabem idolatrias. Foi assim na pré-história e em séculos subsequentes, mas no século XXI com tanta evidência cientifica, não cabem na democracia.

(*) Valtênio Paes de Oliveira é professor, advogado, especialista em educação, doutor em Ciências Jurídicas, autor de A LDBEN Comentada -Redes Editora, Derecho Educacional en el Mercosur- Editorial Dunken e Diálogos em 1970- J Andrade.

** Esse texto é de responsabilidade exclusiva do autor.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe.

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