sexta-feira, 30/10/2020

Dez anos da Política Nacional de Resíduos Sólidos: empreendedorismo e pensamento sustentável

Paulo César Santana (*)

A Política Nacional de Resíduos Sólidos, lei que prevê medidas para o melhor tratamento do lixo urbano no Brasil, completou uma década de existência neste ano. Instituída em 2 de agosto de 2010, ela estabelece diligências como a implementação do sistema de Logística Reversa, que fixa o compartilhamento da responsabilidade pelo ciclo de vida dos produtos entre diversos segmentos. É nesse cenário que o despertar ambiental da sociedade tem incrementado a combinação entre empreendedorismo e pensamento sustentável, com a adoção de práticas que apoiam e incentivam cuidados com o meio ambiente.

Mário Eugênio: processo envolve todos os setores

Para o especialista em Gerenciamento de Empresas e Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente, Mário Eugênio Lima, o caminho é a implementação de práticas voltadas às demandas socioambientais em todos os setores da empresa, a exemplo da 5S, programa desenvolvido no Japão e que consiste na aplicação dos termos ligados aos sensos de utilização, organização, limpeza, padronização e disciplina. Ainda assim, ele alerta para o necessário comprometimento da alta gestão para que as ideias sejam incorporadas à rotina profissional e, desse modo, possibilitem impactos positivos à imagem da empresa.

“Isso vai desde a parte administrativa, na qual pode ser aplicado o 5S e ações com essa filosofia de qualidade, até o setor de produção, com técnicas ambientalmente mais limpas, assim como ferramentas e estratégias com as quais a empresa pode começar a embutir esse tipo de conduta na sua imagem. Mas é um processo que envolve todos os setores, em todos os níveis estratégicos. É uma cultura organizacional e, fatalmente, definindo essas medidas na sua missão, visão e valores, isso vai sendo automaticamente repassado para todos os colaboradores”, ressaltou o especialista.

Nas hora da compra, o viés sustentável pode atrair a atenção de consumidores cada vez mais engajados com o tema, sobretudo a geração Z, que recorre sempre à internet na hora de optar por marcas, produtos e serviços. A conduta exigente dos novos perfis de consumidores é revelada pelo estudo da Agência de Pesquisa Norte Americana Union + Webster, divulgado no ano passado, a qual indica que 87% dos brasileiros afirmam preferir comprar de empresas com práticas que refletem, de forma positiva, o seu posicionamento e compromisso com o meio ambiente.

Nesse sentido, os benefícios podem ir além da reputação corporativa, colaborando, ainda, no desenvolvimento da empresa e tornando mais forte, principalmente, o vínculo entre quem vende e quem compra. “Isso fortalece a imagem, justamente, porque ajuda no poder de decisão do consumidor, fazendo com que lembre de uma marca ou estabelecimento mais facilmente. Também é bom para o próprio colaborador, pois existem pesquisas já comprovadas, demonstrando que as melhores empresas para se trabalhar desenvolvem ações no sentido da responsabilidade socioambiental”, esclareceu Mário.

Exemplos

Thayane Andrade (à direita) e Ingrid Freitas, ambas sócias da Casa Elemental

Na capital, o restaurante Casa Elemental mantém, há cerca de dois anos, uma parceria com a Cooperativa dos Agentes Autônomos de Reciclagem de Aracaju (Care), entregando itens como caixas de papelão, papéis, plásticos de embalagens e garrafas PET. De acordo com umas das proprietárias da loja, Thayane Andrade, o projeto também contemplava uma outra cooperativa do município, mas a colaboração foi suspensa por razão de logística. Ainda assim, a preocupação socioambiental, segundo ela, é um dos valores defendidos pela filosofia do empreendimento.

“Somos uma empresa que tem a sustentabilidade como pilar. Muito mais do que bistrô, nós temos como propósito reconectar pessoas à natureza através de um nutrir integrativo. Dessa forma, não tem como fechar os olhos para toda a questão ambiental do planeta. Desde o começo buscamos ao máximo estratégias e soluções para minimizar os impactos ambientais, a exemplo de não utilizar canudos e outros produtos descartáveis. Buscamos, ainda, reaproveitar garrafas de vidro e utilizar embalagens biodegradáveis. Através das nossas redes sociais e contato direto com clientes, nós fazemos questão de mostrar a importância da reciclagem e a forma correta de uso e descarte das embalagens”, pontuou Thayane.

Compartilhando da iniciativa, a loja de produtos naturais Mercato Verde também integra a categoria de empresas que reúnem os termos sustentabilidade e negócio. Desde junho de 2018, o empreendimento faz doação de embalagens de papel e plástico, previamente separadas, a Care, tendo ajudado também a Cooperativa de Reciclagem do Bairro Santa Maria (Coores). Além disso, a empresa aposta no incentivo de clientes e seguidores a assumirem a mesma conduta.

Brenno Melo: “Um dos nossos pilares é a sustentabilidade”

“Um dos pilares de nossa essência é a sustentabilidade e procuramos colocá-la em prática no nosso dia a dia. Hoje, nossos clientes já entendem que a sustentabilidade faz parte da nossa rotina e para nós isso não tem preço. Além disso, temos um espaço destinado apenas a produtos sustentáveis e divulgamos as nossas ações nas redes sociais para que os clientes, junto conosco, também façam parte dessa cadeia”, comentou o proprietário Brenno Melo.

Seja por meio da fabricação de produtos com menos ou nenhum risco ambiental, do descarte apropriado de materiais recicláveis ou da simples redução no uso de equipamentos como ar-condicionado, é nítido que os esforços para conter os prejuízos ao meio ambiente, se bem implementados, podem gerar retorno positivo às pequenas, médias e grandes empresas. Em todo caso, dar o primeiro passo é sempre fundamental.

“Qualquer medida que esteja ligada à esta minimização dos impactos ambientais vai ser de grande valia. Então, é válido a economia de água, energia, separação do lixo, conseguir ao máximo usar produtos que possam ser reciclados, imprimir apenas o necessário e incentivar os colaboradores também nesse sentido. Essas pequenas ações geram, inclusive, repercussão na casa dos funcionários que levam pra lá o que aprendem no trabalho, bem como os clientes que chegam à empresa e percebem essas pequenas ações. Isso tudo vai se somando e pode chegar num resultado muito maior e positivo para o negócio”, frisou Mário.

(*) Estagiário sob a orientação do jornalista Antônio Carlos Garcia

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