quarta-feira, 08/04/2020

Quanto vale o chão em que pisas?

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Por Emerson Sousa e (*)
Fábio Salviano (*)

Uma tradicional medida de riqueza em Economia é o Produto per capita, onde a soma de todos os bens e serviços destinados somente ao consumo, gerados por uma localidade num determinado período tempo, ponderados por seus respectivos valores de mercado, é dividida por sua população residente.

Mesmo que seja alvo de uma série de críticas por conta de sua imprecisão, já que ela disfarça as desigualdades (ou iniquidades) da distribuição dessa medida, o Produto per capita ainda serve como um parâmetro de comparação entre as localidades. Contudo, ele não é o único.

Outro indicador que permite uma analogia plausível entre as espacialidades é a chamada Densidade Econômica, que mensura o grau de riqueza médio gerado por uma determinada área mínima. No mais das vezes, ele se apresenta por meio da relação entre unidades monetárias e quilômetros quadrados. No caso brasileiro, essa dimensionalidade poderia ser expressa em termos de R$/Km2.

De acordo com o geógrafo britânico David Harvey, em sua obra A Produção do Espaço Capitalista, a Densidade Econômica pode servir como uma expressão da evolução produtiva de um espaço e do seu próprio nível de dinamicidade.

Dessa forma, a curiosidade permite a formulação do seguinte questionamento: em que pé anda a Densidade Econômica do Brasil, da região Nordeste, dos seus estados e dos seus municípios.

AS DENSIDADES DEMOGRÁFICAS DO BRASIL E DO NORDESTE

Cruzando-se dados disponibilizados pelo Sistema IBGE de Recuperação Automática (SIDRA), obviamente fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relativos ao Produto Interno Bruto dos municípios brasileiros, às estimativas populacionais e à variação anual do Deflator do Produto, é possível fazer uma série de considerações sobre a referida grandeza macroeconômica.

Com dados atualizados para o ano de 2017 por esse mesmo índice, a Densidade Econômica brasileira, no ano de 2002, quando do início da vigência da atual sistemática de mensuração do produto utilizada pelo IBGE, ficou estipulada em R$ 542,8 mil/Km2.

Quando em comparação com o próprio ano de 2017, quando essa medida chegou a R$ 774,3 mil/Km2, a valores da época, é identificado um crescimento real da ordem de 42,6% no período ou de 2,4% anuais.

Esse desempenho é inferior ao da região Nordeste, que variou a uma taxa real de 3,1% por ano. Por essa época, a Densidade Econômica , também corrigida pelo deflator do produto, nordestina saiu de R$ 388,6 mil/Km2 (2002) e foi a R$ 613,2 mil/Km2 (2017).

Atualmente, no âmbito da região, o estado de Alagoas é o de maior Densidade Econômica, com um valor de R$ 1.902,3 mil/Km2, espelhando uma variação anual real de 2,6%, quando em cotejo com o ano de 2002, época em que essa medida estava em R$ 1.287,4 mil/Km2.

Com isso, Sergipe com uma Densidade Econômica de R$ 1.857,1 mil/Km2, em 2017, decaiu para a segunda posição, sendo que, no início do Século XXI, ele estava na primeira, quando essa medida orbitava a faixa de R$ 1.461,3 mil/Km2 – atualizados para 2017 – o que resulta num crescimento de apenas 1,6% anuais.

Essa trajetória, no entanto, nem de longe se assemelha àquela experimentada pelo Piauí que, nesses quinzes anos, mais que duplicou a sua Densidade Econômica. Se, em 2002, essa equivalia a R$ 87,8 mil/Km2 corrigidos, em 2017, ela disparou para R$ 180,3 mil/Km2, num crescimento real de 4,9% ao ano.

Por sinal, além dele, ganha destaque o crescimento do Maranhão – cuja Densidade, em 2017, é de R$ 269,7 mil/Km2 – que foi de 4% anuais e do Ceará, que atualmente possui uma riqueza espacial de R$ 993,1 mil/Km2 e a viu esse índice variar a uma taxa média de 3,4% reais a cada ano.

No pódio da região, ao lado de Alagoas e Sergipe, está Pernambuco que, com uma Densidade de R$ 1.849,8 mil/Km2, em 2017, obteve um crescimento de 81,4% em seu valor, resultando numa variação real de 3,3% anuais. Por outro lado, o trio de lanternas é formado pelo Piauí, pelo Maranhão e pela Bahia, que cresceu 2,6% ao ano nesse intervalo e chegou a uma marca de R$ 475,7 mil/Km2.

Para fins de complemento, no ano de 2017, a Paraíba apresenta um índice de R$ 1.104,8 mil/Km2, com uma performance anual de 3,1%, e o Rio Grande do Norte, detendo um crescimento de 2,9% anuais, retorna uma Densidade de 1.217,5 mil/Km2.

NORDESTE: UM MOSAICO DE REALIDADES DISTINTAS

Da combinação entre o indicador atual e a sua taxa de crescimento desde 2002, é possível separar os estados nordestinos em três grupos distintos:

  • Maranhão, Piauí e Bahia – com baixos volumes de Densidade Econômica, com os dois primeiros mostrando um desempenho acima da média dos nove estados e o último, estando abaixo desse patamar;
  • Ceará, Paraíba e R. G. do Norte – com valores medianos de Densidade e desempenho próximos aos valores médios desse conjunto de unidades federativas;
  • Pernambuco, Alagoas e Sergipe – sendo os de maiores índices dentre todos os estados, tem na economia pernambucana o melhor perfil de crescimento nesses quinzes anos nesse agrupamento. Os outros dois, por sua vez, possuem uma conduta abaixo da média.

Grosso modo, dado as suas particularidades, é possível sugerir um conjunto de objetivos específicos para cada um desses lugares, no que se refere às tendências de suas respectivas Densidades Econômicas.

Ao Maranhão e ao Piauí deve interessar manter o perfil de evolução até aqui obtido, ao passo em que à Bahia apresenta-se a necessidade de ampliar seu nível de dinamicidade para uma altura próxima ao de Ceará e Pernambuco.

Já para o Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba pode ser reservado o papel de fomentadores do crescimento do indicador geral na região, principalmente para os dois últimos, tendo em vista que a sua taxa de crescimento anual ficou abaixo da média.

Por seu turno, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, passam a ter por obrigação de se manterem entre as três maiores Densidades Econômicas da região Nordeste, uma vez que esse também é um fator de atração de investimentos, ou seja, um fenômeno que se retroalimenta.

Quanto ao Nordeste, abordado como uma unidade, emerge o imperativo de continuar valorando o solo em que vive acima das taxas promovidas pelo resto do país, como vem fazendo desde o raiar do Século XXI, caso queira ampliar os níveis de bem-estar do seu povo.

Contudo, essa não é uma tarefa fácil. Afinal, apenas para se igualar ao índice nacional, mesmo que mantenha o diferencial de crescimento até aqui existente entre o Brasil e o Nordeste, ainda seriam necessárias algumas décadas.

Em suma, a Densidade Econômica, mesmo que de forma incompleta, é eficaz em dimensionar os graus de riquezas das espacialidades e, quando aplicado à realidade dos estados nordestinos, se vê que há muito chão ainda para se caminhar.

 

 

Emerson Souza – Economista

Fábio Salviano – Sociólogo

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