quarta-feira, 18/05/2022
Natascha Cabral: "Tenho esperança de que até o final do primeiro semestre as crianças estejam vacinadas" Fotos: Arquivo Pessoal

Pediatra Natascha Cabral afirma que não vacinar é “renunciar ao seu filho a proteção contra o vírus”

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Os cientistas têm dito, repetidas vezes, que as vacinas contra a Covid-19 são seguras. Em Aracaju, a pediatra Natascha de Araújo Cabral, especialista em terapia intensiva pediátrica há 15 anos e que atua na linha de frente tratando de crianças contra essa doença e outras, reforça esse alerta de que as vacinas são seguras. “Para que um fármaco ou uma vacina seja aprovado/a, é necessário comprovar a eficácia, a segurança e a durabilidade. Então, sim, as vacinas são seguras”, assegura.

Natascha não concorda com a postura do presidente Jair Bolsonaro, que já afirmou que não vacinará a filha menor de idade, tampouco com as outras pessoas que pensam igual a ele.

Ele [Jair Bolsonaro] alimenta o movimento antivacina, que no nosso país ainda é pequeno. Porém tem ganhado força durante este governo. Ele se esquece que na crise da pólio também veio uma vacina que hoje evita nossas crianças de se tornarem tetraplégicas”, lembra a pediatra, mãe de dois filhos – um de 7 e outro de 8 anos – que aguarda o momento certo para vaciná-los.

Atuando na linha de frente contra a Covid-19, Natascha lembra que “o meu primeiro óbito por Covid foi marcante e assustador”. A médica atua na Unidade de Tratamento Intensivo Pediátrico (UTI) do Hospital de Urgência João Alves Filho (Huse). Ela conta que em 2020 “foi um desafio, porque se não se sabia lidar com o vírus nos adultos, imagina nas crianças. Com o tempo fomos aprendendo e entendendo que o vírus nas crianças funciona diferente e agrava de forma diferente”.

A Drª Natascha com sua equipe de trabalho

No dia a dia, ela recebe em seu consultório, na Clínica Pediatria com Amor, onde é uma das sócias, alguns pais com dúvidas sobre vacinar ou não os pequenos. “Sempre tiro as dúvidas e explico os fatos verdadeiros. Mas fica sempre a critérios deles a decisão final”, afirma.

Porém,  faz um alerta àqueles pais que optam em não vacinar os pequenos: “Você está renunciando ao seu filho a proteção contra o vírus. Colocando a vida dele em risco”.

Esta semana, entre um plantão e outro, tanto no Huse como no Hospital Primavera, onde é coordenadora da UTI Pediátrica, Natascha Cabral conversou com o Só Sergipe. Ela se formou na Escola Bahiana de Medicina e fez especialização no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Confira a entrevista.

O Brasil tem know-how em vacinação Foto: Marcelle Cristinne/PMA

SÓ SERGIPE – O Brasil tem know-how em vacinação, mas, no caso da imunização contra a Covid-19, esse tema é cercado de polêmicas. Foi assim na vacinação de adultos e tem sido com crianças e adolescentes. Na sua opinião, a vacina é necessária para todas as pessoas?

NATASCHA CABRAL – Sim. A vacinação é necessária para adultos e crianças. O fato de a porcentagem da mortalidade em crianças ser menor do que a de adultos não significa que não há mortes infantis. Então, se podemos reduzi-las, e até zerar, por que não?! E sabemos que a única maneira de fazer isso é vacinando.

SÓ SERGIPE – As vacinas são seguras?

NATASCHA CABRAL – Sim, apesar das falsas notícias e boatos, nenhum medicamento ou vacina pode ser usado na população geral sem ter a segurança de seu uso. Isso é garantido pelo órgão federal, que é a Anvisa. Cada país tem seu órgão regulador. Para que um fármaco ou vacina seja aprovado/a, é necessário comprovar a eficácia, a segurança e a durabilidade. Então, sim, as vacinas são seguras.

SÓ SERGIPE – Como a senhora interpretou a exigência do Governo Federal [leia-se, do presidente Jair Bolsonaro], de autorização dos pediatras para a vacinação de crianças?

NATASCHA CABRAL – Desnecessária, se o próprio Ministério da Saúde aprova a vacina e a Anvisa autoriza e garante seu uso. Graças a Deus isso não foi adiante, afinal ainda temos uma grande parte da população que não tem acesso a serviços de saúde, muito menos de pediatra.

SÓ SERGIPE – Por esses dias, a Anvisa deu autorização para a aplicação da vacina CoronaVac para crianças e adolescentes de 6 a 17 anos. E antes havia autorizado, também, a Pfizer para aquelas de 5 a 11 anos. Já não era para todos estarem vacinados ou, quem sabe, com o trabalho já bastante adiantado?

NATASCHA CABRAL – As autorizações da Anvisa ocorrem conforme os estudos são aprovados e analisados. Após aprovação são necessários a compra, a distribuição e o abastecimento dos postos e locais de vacina. E isso depende, também, dos órgãos estaduais e municipais. Tenho esperança de que até o final do primeiro semestre as crianças estejam vacinadas.

Garota sendo vacinada em Aracaju Foto: André Moreira/PMA

SÓ SERGIPE- No dia a dia, em seu consultório, os pais têm dúvidas se vacinam ou não os filhos? 

NATASCHA CABRAL – Alguns sim, porém por falta de informação correta. Sempre tiro as dúvidas e explico os fatos verdadeiros. Mas fica sempre a critérios deles a decisão final.

SÓ SERGIPE –  O presidente Jair Bolsonaro, que tem uma filha de 11 anos, disse que a menina não será vacinada.  Com essa declaração, ele acaba arrastando muita gente. Como a senhora analisa, dentro do ponto de vista científico, essa postura de Jair Bolsonaro?

NATASCHA CABRAL – Ele alimenta o movimento antivacina, que no nosso país ainda é pequeno. Porém tem ganhado força durante esse governo. Ele se esquece que na crise da pólio também veio uma vacina que hoje evita nossas crianças de se tornarem tetraplégicas. Assim como a vacina da gripe reduziu drasticamente as mortes infantis por influenza. E tantas outras mais, como varicela, hepatite A, meningite e outras. É só olhar a nossa história da medicina e entender o impacto da vacinação nas doenças. É natural que à medida que a medicina avança as tecnologias também, as descobertas se tornam mais rápidas e mais dinâmicas.

SÓ SERGIPE- Algumas pessoas aqui em Aracaju também optam por não vacinar os filhos. Essa postura prejudica as crianças?

NATASCHA CABRAL – Sim, você está renunciando ao seu filho a proteção contra o vírus. Colocando a vida dele em risco.

SÓ SERGIPE – A senhora já vacinou seus filhos?

NATASCHA CABRAL – Tenho filhos de 7 e 8 anos. Tentei vacinar o mais velho, pois ele tem autismo e, portanto, entra nas comorbidades para prioridade na vacinação, mas infelizmente não havia vacina no posto de saúde. Tentarei novamente esta semana.

SÓ SERGIPE – A senhora esteve ou está na linha de frente no combate à Covid-19? Como tem sido essa experiência?

NATASCHA CABRAL – Sim. Em 2020, foi um desafio, porque se não se sabia lidar com o vírus nos adultos, imagina nas crianças. Meu primeiro óbito por Covid foi marcante e assustador. Com tempo fomos aprendendo e entendendo que o vírus nas crianças funciona diferente e agrava de forma diferente.

SÓ SERGIPE – Por que foi marcante?

NATASCHA CABRAL – Marcante porque foi uma criança saudável e que teve  uma evolução da doença muito rápida e trágica. Em  pouco tempo ela agravou. A criança tinha a idade do meu filho mais velho e isso me marcou muito.

SÓ SERGIPE – Ainda na mesma resposta, a senhora disse que “o vírus na criança funciona diferente e agrava de forma diferente”. Poderia explicar melhor?

NATASCHA CABRAL –  Sim. As crianças têm menos sintomas respiratórios e mais sintomas sistêmicos como diarreia, febre, exantema, dermatites.  E quando agrava – diferente do adulto, que tem uma lesão pulmonar importante -, a criança faz uma síndrome inflamatória generalizada, que chamamos de SIMP (Síndrome Inflamatória Multisistêmica Pediátrica), que acomete todos os órgãos e isso leva ao óbito.

SÓ SERGIPE – A senhora já viu outras crianças morrerem de Covid-19 nos hospitais onde trabalha? Como a senhora, que cuida de crianças em UTIs, no tênue fio entre a vida e a morte, observa essa onda de negacionismo?

NATASCHA CABRAL – Vi, sim, algumas crianças morrerem. O negacionismo me deixa irritada e amedrontada.

SÓ SERGIPE – No dia 7 de janeiro deste ano, o Instituto Butantã publicou, em sua página na internet, que o Brasil soma 1.449 mortes de meninos e meninas de até 11 anos em decorrência da Covid-19. Esse número, por si só, não é mais que motivo para os pais correrem para os postos de saúde?

NATASCHA CABRAL – Sim, e é por isso que não entendo quem ainda tem dúvidas sobre vacinar.  As pessoas esquecem que os números são pessoas, crianças que tinham pai, mãe, irmãos, que brincavam, que iam à escola, que eram filhos de alguém, iguais aos nossos.

SÓ SERGIPE – Além  da Covid-19, com a variante ômicron, há um surto de gripe. Quais as recomendações para os pais?

NATASCHA CABRAL – As recomendações seguem as mesmas: uso de máscaras, álcool gel, evitar aglomerações, contato com pessoas com sinais gripais, e que se tiver doente, fique em casa!

SÓ SERGIPE – Esta semana, a Sociedade Brasileira de Pediatria divulgou uma nota de repúdio aos comentários de supostas autoridades sobre os possíveis riscos da imunização de crianças de 5 a 11 anos e diz que negar este benefício às crianças sem evidências sólidas pode custar vidas. A senhora tomou conhecimento desta nota? Concorda com ela?

NATASCHA CABRAL – Concordo 100%. Os comentários são opiniões pessoais, sem embasamento científico algum.

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