Por Hernan Centurion Sobral (*)
Há palavras que, com o passar dos tempos, deixam de ser meros signos para se tornarem repositórios da experiência da humanidade. “Paixão” é uma delas; mais do que um termo, ela abre um campo vasto de significados que atravessam diversas sensações e sentimentos como a dor, o amor, o sacrifício e, acima de tudo, a busca por um propósito.
Etimologicamente, a palavra nasce do latim passio, derivado de pati, que significava suportar, padecer ou simplesmente sofrer a ação de algo. Na origem da palavra, não havia qualquer romantização, ou seja, a paixão era aquilo que nos acontece muitas vezes sem o nosso controle, revelando, pois, a vulnerabilidade diante da nossa própria existência terrena.
Curiosamente, com o passar das eras, esse mesmo vocábulo passou a designar também o entusiasmo exacerbado que nos move e o amor ardente que nos consome, sem que haja, contudo, qualquer contradição nisso, mas sim uma revelação sobre a natureza humana. Como intuiu Blaise Pascal, “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Aquilo que mais nos apaixona é, quase sempre, o que mais nos expõe e fragiliza, pois amar intensamente exige a coragem proporcional de aceitar o risco da perda, da frustração e, consequentemente, do sofrimento. É neste prisma, então, que a Paixão de Cristo deixa de ser apenas um relato histórico milenar, para se tornar uma chave de leitura do significado da própria existência do homem neste mundo, isto é, um modo de compreensão do martírio e do amor à luz de um senso infinitamente maior.

Analisando-se sob o olhar da História, o sacrifício no Calvário consolidou-se como o centro do Cristianismo, não apenas pela narrativa da vivência de uma morte crudelíssima, muito comum à época do Império Romano, não obstante pela maneira como foi assumida e conduzida por um homem humilde, com consciência límpida, propósito sublime, dignidade serena e um silêncio eloquente diante da imensa injustiça. Como bem sintetizou Santo Agostinho, “não foi o suplício que fez o mártir, mas a causa, assim como não foi a dor física em si que redimiu o ser humano, todavia o amor que a sustentou até ser consumada”.
Filosoficamente, a Paixão nos confronta com uma indagação inevitável: existe mesmo tal propósito e qual seria o verdadeiro sentido do sofrimento? Em um mundo que se apressa em anestesiar qualquer ínfimo desconforto, onde as pessoas não toleram os menores incômodos físicos e psicológicos, a morte em cruz ainda permanece como um “escândalo” — algo que confronta, que incomoda, que não se encaixa na lógica comum — e talvez resida aí sua real força, uma vez que ela não resolve ou elimina a dor da humanidade. Entretanto, a expõe em sua vertente mais radical e em sua intensidade máxima, transbordando, assim, injustiça, abandono e dores física e moral. Simultaneamente, em contrapartida, a eleva, pois o sofrimento deixa de ser algo absurdo, vazio e destrutivo e passa a carregar um claro sentido, ao tornar-se lugar de entrega altruísta, de amor sublime, de redenção reconfortante e de evolução íntima. Dostoiévski, que sondou como poucos a alma humana, afirmava que o homem aprende através do sofrimento e a dor, nesse horizonte, deixa de ser um erro e fatalidade do destino e passa a ser o terreno onde a consciência desperta e amadurece.
Quando adentramos no campo da Psicologia, especialmente nas correntes existenciais, o sofrimento é compreendido como parte estrutural da vida. Viktor Frankl ensinou que, quando não podemos mudar uma situação dolorosa, somos desafiados a transformar a nós mesmos. A Paixão de Cristo, sob esta análise, revela-se como um arquétipo em que o sofrimento, quando atravessado com sentido, deixa de punir e aprisionar e transfigura-se em aprendizado e fonte de cura.
No âmbito religioso pela crença cristã, o Calvário é o ápice da revelação de um Deus outrora invisível e distante, mas que naquele momento se mantém próximo de sua criatura na figura do seu Filho, Jesus. Essa relação caracteriza-se por um amor pleno, tangível, tão vívido, posto que chora e sangra sobre o perdão ante a traição, o abandono e a violência. Como escreveu São João da Cruz, “no entardecer da vida, seremos julgados unicamente pelo amor”, assim sendo, a Paixão revela que tal amor não se impõe pela força, porém se oferece na liberdade da entrega ao próximo.

Somos convidados a vivenciar anualmente este fato bíblico, pois quando o mistério deixa o plano das ideias e se torna experiência, verdadeiramente ele nos alcança. Ao contemplarmos, então, o espetáculo da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém, no agreste pernambucano, já não estamos apenas diante de uma narrativa qualquer, mas em frente à emblemática encenação da agonia, morte e ressurreição de Cristo, refletida desde os nossos olhos marejados diretamente à consciência, revelando-nos, imediatamente, nossas próprias “cruzes”, bem como as pequenas e grandes “paixões” que atravessam os nossos dias e, mormente, tudo aquilo que ainda podemos transformar e edificar em nós. Experiência de fé e emoção como esta, confesso só ter vivenciado ao percorrer o Caminho de Santiago de Compostela há exatos 2 anos.
Destarte, podemos perceber, no mistério Pascal ora posto à reflexão, uma pedagogia singela e exigente, a qual nos ensina que nem toda dor é vazia, que nem todo sofrimento é inútil e que, em muitos momentos, a maior força não está em reagir, contudo em permanecer manso, firme, consciente e fiel. Tudo o que nos desafia serve como aprendizado, nada é em vão. A Paixão continua a acontecer, discretamente, em cada gesto de perdão, em cada ato de compaixão, em cada escolha pelo bem, quando seria mais fácil recuar e lavar as mãos.
Sofrer nos é imposto a cada instante, já o propósito que damos ao sofrimento, este sim, nos define.
Só Sergipe Notícias de Sergipe levadas a sério.




Seu texto é espetacular, enfrenta a dor sem anestesia e a converte em instrumento de consciência e transformação. Parabéns. “É justamente uma situação exterior extremamente difícil que dá à pessoa a oportunidade de crescer interiormente para além de si mesma.” Viktor Frankl.