Por Léo Mittaraquis (*)
Em tempo: valho-me do conceito de “sanidade” numa condição, numa percepção, para além do campo médico ou biológico. Busquei fundamentação num fato notório [ao menos entre os que transitam costumeiramente pelas Humanidades]: ao longo da Tradição Ocidental, o termo “sanidade” deteve diversos significados, funções e referências.
A sanidade era indissociável da noção de ordem e proporção [‘mesotes’ ou justa medida].
Também a expressão “mente sã”, já foi compreendida como equilíbrio cósmico, favor divino…
E a ausência deste fator? Bem, em meio ao senso comum, a percepção desse fenômeno antônimo, vale dizer, da presença da insanidade, oscila constantemente entre o estigma do descontrole e a romantização da intensidade. Sem devidos limites, sem devidas proporções.
Ao conceber minha bolha estético-filosófica, não estabeleço uma condição de total isolamento. Nada disso. Minha bolha leva em consideração a função osmótica.
Entretanto, opera mediante filtros rigorosos: saio dela quando entendo e percebo justificativa e vantagem estratégica na satisfação de tal desiderato; por outro lado, seleciono cuidadosamente quem pode entrar na bolha e compartilhar comigo das coisas das quais gosto e valorizo.
Trata-se, por conseguinte, de uma blindagem ativa contra o ruído excessivo e destituído de sentido, produzido em pontos difusos no mundo exterior. Longe, com certeza, de se constituir numa proposta de submergir no sombrio pântano do enclausuramento.
Afinal, de acordo com o grande mestre Erasmo de Roterdã, a verdadeira sabedoria consiste em reconhecer os limites da própria razão. A sanidade absoluta e inflexível é carga pesada por demais. Há de, em nome da natureza humana, aceitar-se uma porçãozinha de insensatez a título de salvaguarda contra a tirania excessiva do dogmatismo.
Essa seletividade quase cirúrgica é a garantia de que a atmosfera interna do nosso refúgio permaneça imune ao mau gosto, à mediocridade, ao niilismo, ao exagero, preservando a racional [ainda que apaixonada] integridade das nossas buscas intelectuais e estéticas.
Todavia, como já dito, administra-se, também, a dinâmica osmótica. Permito esse escambo, essa comutação, com o além-muros. Faço-o valendo-me dos conceitos de ‘hipertonicidade’ e ‘hipotonicidade’, com a consciência de quem sabe que a verdadeira soberania não reside na reclusão cega, mas no poder de decidir exatamente que porção da realidade é digna de cruzar meu limiar — ao convidado [no sentido real e metafórico] instrui-se a tirar os calçados, a pisar descalço sobre meu tapete.
Nesta perspectiva, a bolha estético-filosófica demonstra não ser mera escolha por um caprichoso estilo de vida, mas, sim, autêntica profilaxia a favor do espírito.
Diante de uma contemporaneidade caracterizada pelo esvaziamento das formas e pela mercantilização da existência — um cenário onde o sagrado foi dessacralizado e o belo, reduzido ao mero utilitário —, esse enclausuramento deliberado surge como o único anteparo possível contra o miasma do niilismo.
Não se trata de uma fuga covarde da realidade, mas sim da estruturação de uma fortaleza onde a sanidade, em sua acepção mais nobre e espiritual, possa ser preservada sob condições ideais de dignidade.
Garantir a condição salutar da alma exige, acima de tudo, a vigilância do perímetro. A bolha é o laboratório onde o oxigênio do sentido é produzido pela recusa em deixar que a última palavra sobre a existência humana pertença à imbecilidade ou à apatia profunda, quando a atmosfera exterior à bolha torna-se tóxica.
A soberania dessa seletividade garante que o espírito não se curve ao langor circundante. É o ato de resistência da alma contra a insossa homogeneização cultural.
Ao governar, com destreza, as linhas de intercâmbio com o mundo, a bolha deixa de ser um exílio passivo e passa a ser o único reduto onde a vida ainda pode ser vivida com profundidade e reverência, imune à estupidez vertiginosa que consome o exterior.
Impossível, nesta linha de pensamento, me é olvidar do sistema filosófico de Léon Chestov. A utilidade pragmática e, ao mesmo tempo, romântica (dotada de alta carga crítica) do refúgio: para o pensador ucraniano, a verdadeira lucidez nasce das margens e do abismo, e não do consenso das maiorias. Sua filosofia legitima o rompimento com as evidências óbvias do ágrafo e acéfalo senso comum contemporâneo.
Desavisados e desavisadas dirão, talvez: “tua bolha é tão somente exercício de alienação”. Eu vos direi, no entanto: “não há como alienar-se quanto ao restante, quando este nos cerca: imenso domo mundial. Bolha maior, feita de vacuidades — falta de inteligência, futilidade, frivolidade. Por estar ciente da existência da hiperbolha, leviatã planetário, administro com cuidado, com consciência, com carinho, a delicada, contudo, resistente, bolha doméstica” .
Bolha, a por mim confeccionada, trama estrutural feita de livros, discos, belas-artes, vinhos, amizades, amor…
Utilidade da minha bolha, do meu refúgio: recordo de Unamuno, que compreendeu, como poucos, a solenidade quase litúrgica da reclusão reflexiva ante ninharias, do cultivo simultâneo das boas companhias. Não, de maneira alguma, um ato de fuga. Em verdade, uma postura de dignidade trágica e feliz perante o vazio intelectual, moral, ético e estético contemporâneo.
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