Por Luciano Correia (*)
O filme iraniano “Foi Apenas um Acidente”, diferente de “O Agente Secreto”, tinha tudo pra ganhar o Oscar 2026 de melhor filme internacional, até porque preenchia um critério não muito utilizado pelos julgadores, o de ser excelente. Mas o motivo principal, claro, jamais teria sido este. Se levasse a estatueta, seria porque é um trabalho contra o regime iraniano, justamente quando explodiu a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Funcionaria como mais um instrumento de propaganda contra o governo dos aiatolás.
O diretor Jafar Panahi já esteve preso e usa referências de sua história pessoal para tecer a trama, na qual dá voz a perseguidos pela repressão do regime. Uma produção artística pode cumprir uma função de denúncia social. Não é esse, portanto, o problema. Mas como discurso político, existem muitos pesos e medidas a considerar, começando por ser o Irã um país submetido a um boicote brutal durante 50 anos, com sanções que estrangulam a vida, a esperança e a paciência de todos.
No próprio enredo, o torturador capturado pelos seus torturados deixa escapar a certa altura: “Se uma vez ou outra atrasa os salários, vocês querem derrubar o governo”. É evidente que uma juventude cansada de orações e sedenta de mais liberdade (e consumo?), vai às ruas por qualquer coisa. E a resposta, do outro lado, é baixar o sarrafo. Mas no meio dos protestos havia pedras no caminho: os agentes infiltrados do Mossad, baderneiros profissionais disparando o gatilho de novas revoluções coloridas, como foi no Egito e na Tunísia. Ou nós daqui de Pindorama esquecemos que os badernaços de 2013 foram realizados e financiados pela extrema direita?
O Irã, então, não é uma democracia? Mas o filme foi realizado no país, com atores, técnicos e equipamentos iranianos. O diretor disse que usou estratégias de disfarce para conseguir filmar. Mas conseguiu. Fez as filmagens, concluiu e distribuiu para o mundo. E os Estados Unidos, com sua nova polícia fascista criada exclusivamente para prender e torturar imigrantes, o ICE? Que matou à queima roupa, indefesos, dois cidadãos americanos inocentes? E o que dizer de Israel, que censurou totalmente o noticiário da guerra no país, para não divulgar baixas nem os grandes estragos, prendendo e atacando jornalistas?
Por essas coisas é que não entendi por que os donos de Hollywood, totalmente afinados com o pensamento de Donald Trump, não fizeram de “Foi Apenas um Acidente” o grande vencedor. Mas foi bom assim. Empoderar ainda mais um filme detrator do Irã numa guerra em que a batalha de versões é crucial, nos livra de mais uma ferramenta ideológica para vitaminar o discurso mentiroso do Império, tão carente de tábuas de salvação num confronto em que ele perde feio justamente pela sucessão de versões mentirosas. Mas o filme é bom, sim: enredo, roteiro, produção, direção, atores etc etc.
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