quinta-feira, 20/08/2026
Escritores Claudefranklin e Patrícia Monteiro, com o padre Josimar Araújo
Escritores, Claudefranklin e Patrícia Monteiro, com o padre Josimar Araújo Foto: Acervo pessoal

Ao divino Espírito Santo de Indiaroba, Sergipe

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos

 

Neste domingo, 24, a cidade de Indiaroba celebra mais uma festa de seu padroeiro, o Divino Espírito Santo. Trata-se de uma das manifestações mais singulares do catolicismo sergipano, também presente em algumas partes do Brasil, a exemplo de Paraty (RJ), Alcântara e São Luís (MA), São João del-Rei e Diamantina (MG), Florianópolis e Governador Celso Ramos (SC) e Mogi das Cruzes (SP), esta última uma das mais antigas e tradicionais.

Entre os trabalhos acadêmicos voltados para esta manifestação, notadamente de cunho popular, mas sob as bênçãos da Igreja, destaque para “O império do divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro (1830-1900)”, publicada em 1996 pela historiadora Martha Abreu. Entre os registros mais antigos, se sobressaem dois capítulos da obra de Alexandre José de Melo Moraes Filho, “Festas e tradições populares do Brasil”, de 1895, cujo prefácio é assinado por Sílvio Romero.

Livro escrito por Claudefranklin e Patrícia Monteiro
Livro escrito por Claudefranklin e Patrícia Monteiro

No último dia 18, terceira noite do novenário, sob a presidência do padre Jodeclan Rabelo (Paróquia Nossa Senhora de Fátima, Lagarto), eu e minha esposa, a professora e historiadora Patrícia dos Santos Silva Monteiro, lançamos o livro “Indiaroba – uma dádiva do Divino Espírito Santo”, em comemoração aos 185 anos de fundação da paróquia e aos 180 anos de criação da Vila do Espírito Santo. Trata-se do primeiro registro sistematizado da história daquele município, sob a perspectiva do catolicismo, embora, na primeira parte, versamos também sobre aspectos políticos, sociais, econômicos, educacionais e culturais. Digo sistemátizado, porque até o presente momento havia estudos esparsos, de textos para jornais a pesquisas acadêmicas, como monografias.

A obra nasceu de um convite feito pelo padre Josimar Araújo Melo, atual pároco da comunidade, no segundo semestre do ano passado. Em pouco menos de três meses, eu e minha esposa nos debruçamos sobre tudo que foi possível consultar a respeito do tema, com especial atenção à documentação paroquial, ao trabalho de memória do ex-prefeito Raimundo Mendonça Filho, do acervo jornalístico da Biblioteca Nacional, além do importante trabalho de cultivo da memória local, levado a cabo por Enielmo Ehanis Santos, professor e historiador, que coordena o Projeto  Indiaroba Resgate Histórico e Cultural (Instagram).

Naquela noite de lançamento, dedicada às autoridades, chamou a minha atenção o simbolismo da Bandeira do Divino, logo na procissão de entrada da Santa Missa, conduzida pelo prefeito Marcos Sertanejo, o qual não escondia sua emoção, deixando entrever lágrimas nos olhos e um sorriso radiante. Afora, no altar, à esquerda, estavam devidamente acomodados o cetro e a coroa do imperador da festa. A coroação acontece no primeiro dia da novena, na noite dos motoristas. Duas crianças, trajadas com vestuário monárquico, adentram a igreja e ao final, o menino é coroado e recebe o cetro das mãos do padre que preside a Santa Missa, neste ano foi o padre Gildeon Rabelo.

O livro “Indiaroba – uma dádiva do Divino Espírito Santo” foi cuidadosamente e garbosamente elaborado pela editora sergipana, Criação, de Adilma Meneses. Foi bancado pela própria paróquia, que já na noite de lançamento pode atestar a importância do investimento, com a comunidade abraçando o projeto e comparecendo em massa ao evento, abrilhantado pela Filarmônica do Divino, fundada em maio de 2000. Entre as autoridades, marcaram presenças vereadores locais, secretários municipais, o deputado estadual Jorginho, o prefeito já aqui citado, representantes do poder judiciário e os ex-prefeitos Raimundo Mendonça Filho e Adinaldo do Nascimento Santos, filho de pais lagartenses, com o qual estudei. Esteve, também, nos prestigiando o padre Nivaldo Soares, natural de Pernambuco, radicado na Diocese de Estância, que além de ter se ordenado na paróquia, foi seu vigário e pároco.

À essa altura do presente texto, o leitor deve estar se perguntando por que um casal de historiadores lagartenses resolveu escrever e publicar um livro sobre Indiaroba. Aqueles que tiverem a oportunidade de adquirir e conhecer o conteúdo da obra chegarão à conclusão de que entre Lagarto e Indiaroba existe uma relação muito antiga e próxima. Destaco, de modo particular, a importância de um indiarobense para a educação lagartense. Refiro-me ao padre José Alves Pitangueira (1812-1858), natural do povoado Hospício. Em Lagarto, foi professor de Latim e de Francês entre 1853-1857, e responsável direto pelas primeiras iniciativas de educação formal no município. Afora isso, o fato de a paróquia ter tido como administradores clericais pelo menos três padres nascidos ou criados em terras lagartenses, a exemplo do atual, do hoje professor Izaías dos Santos Goes e do padre Acival Vidal de Oliveira.

De nossa parte, fica a gratidão ao padre Josimar Araújo pelo convite e pela confiança depositada em nosso trabalho. Que a obra possa colaborar para o conhecimento da história do município de Indiaroba, que esteve às voltas com as querelas por disputas territoriais entre Bahia e Sergipe por algum tempo. Nossa gratidão, também, ao povo indiarobense pela acolhida e pela atenção a nós dedicada naquela noite belíssima de domingo do dia 18 de maio do corrente ano.

 

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Sobre Claudefranklin Monteiro

Claudefranklin Monteiro Santos
Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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