quinta-feira, 27/01/2022
Monumento em homenagem a Carlos Drummond de Andrade,no Rio de Janeiro Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O menino antigo drummondiano

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Germano Viana Xavier (*)

Livro velhinho, ultrajado pelo tempo, datado dos idos de 1973. Capa verde, rasgada na lombada, mas com um grande detalhe. Autor: Carlos Drummond de Andrade. Não tem como não ler, desse jeito. Título: Menino Antigo. Uma espécie de continuação de Boitempo I – Memória e base para o Boitempo III – Esquecer para lembrar. Hospedeiro incógnito é o Drummond das mil infâncias ancestrais, mais que suas sete faces tortas. O gauche, ainda, em revisitações e revelações numa poesia inaugural. Não sabe, ele, rever sem mexer nas feridas acortinadas de sua vida, também nossa. O grande poeta maioral do Brasil. Meu muito obrigado, Drummond.

Em “Pretérito mais que perfeito”, o poeta justifica os nascimentos e os desnascimentos que sofrera, que vivenciara. Espetaculariza a anta dos homens passados, a jacutinga dos ferros mineiros. Enfim, consagra, por si só, o malogro de uma pacata vida de nadas profundamente admiráveis. Poetiza, ele, antigo num instante que não possui mais, os heróis em regresso, sua terra de gerações-Andrades. Quando nos insere na “Fazenda dos 12 vinténs ou do pontal”, brincante Drummond desqualifica o que temos de posses, avista grandezas miúdas, reitera afeições por naturezas amiúdes, combate o que tem parcimônia e vai.

Em “Repertório Urbano”, Drummond é menino antigo mais ainda. Conclui que não pertence ao acolá-além-dele-mesmo. Começa a pedregulhar as janelas dos futuros. Atira em tudo que não serve para viver de Verdade. Você sabe o que é viver de Verdade? Sei eu? Ruas o atingem, pessoas o agridem, o vento impoluto, a manhã cinza dos agoras, o frio envenenado das marquises mortas esculpidas pelo dorso dos sem-teto. Todo um império de costumes mineiros-nacionais é desovado e logo averiguado com olhares legistas. Drummond nos ensina a desenterrar coisas vivas – talvez a coisa mais importante a se aprender. Não escapa viva’lma. Caem todos, por terra, atônitos. E o noticiário ainda vem pelos Correios. O sino das igrejas badala a hora gloriosa: somos uma só procissão que caminha sem saber para onde. Para onde, José?

O cidadão sem voz, aquele esfomeado que está na correnteza, preso nos galhos invisíveis dos trânsitos num sol a pino que não para de assolar. Drummond é quem nos proíbe de proibir. Tudo parece começar nele. Esse ranço doído em se aceitar somente o vertiginoso-falante desmorona. Tem até espaço para o imortal “doido” das cidades interioranas. Incrível. Impossível não lembrar do “doido oficial” da minha cidade natal chapadeira. Saudade de você, Pequeno! – E Macuca? Ah, mas Macuca não era doido, meu senhor! Macuca era uma entidade, quase um druída! Quase um Deus que lutava contra toda forma de sobriedade humana. Salve, “doidos oficiais” do meu Brasil! Brindemos por vossas heresias!

Já  “O pequeno e os grandes” é um caderno sobre política familiar. Sim, invertido. Daquele que postula a favor de certos crimes ligeiros que nos apetecem paixões e desordens infantes. Aqui Drummond chega a debochar dos seus, mas tudo com respeito. Óbvio que não seríamos os mesmos sem a mão em bênção diante de nossos pais. Óbvio que poderíamos desprecisar disso, também. Por tanta coisa a mais é que somos o análogo, a água parada da modernidade, que se agrega para romper em cachoeiras, batendo brutalmente contra a pedra mais dura. E quando nem se pensa, aí vem Drummond e corneta. E assim está selado. É trombeta ardendo sons sobre os fogos além-itabiranos. Queima os olhos dos que leem. Córneas em brasa. Íris em labaredas. Drummond é assim: castiga cegueiras que enxergam falsas visões.

(*) Germano Xavier nasceu em Iraquara, Chapada Diamantina-Bahia, em 1984. É jornalista pela UNEB e mestre em Letras pela UPE. Publicou o livro Clube de Carteado (Franciscana, 2006). Seu livro de contos intitulado Sombras Adentro (ainda não publicado) foi finalista do IV Prêmio Pernambuco de Literatura (2016). Em 2021, publicou o livro O Homem Encurralado (Penalux), que compreende a primeira parte da Trilogia do Centauro. Escreve para encontrar o equador de todas as coisas.
** Esse texto é de responsabilidade exclusiva do autor.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe.
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