segunda-feira, 21/10/2019
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Dom José Vicente Távora foi arcebispo da Arquidiocese de Aracaju de 1960 a 1970.

Dom Távora, necessário também no século XXI

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Valtênio Paes (*)

Dez anos depois, fazendo releitura do livro “Dom Távora, o Bispo dos Operários – Um homem além do seu tempo” de autoria do padre Isaías Nascimento, vislumbro, como uma leitura pode ensejar inúmeras interpretações com variados vieses. Sem qualquer pretensão de analisar a importante obra, trataremos de aspectos fáticos da política, religião e sociedade do Brasil, e especificamente de Sergipe, ali relatados. Sua chegada em Sergipe se deu sob a influência da “Doutrina Social da Igreja” a partir do Concílio Vaticano II, numa aparente contradição tanto para “socialistas como para liberais” ao mesmo tempo, no auge da repressão militar pelos idos de 1968.

Ao mesmo tempo em que, “avisou para Carlos Lacerda da fúria da multidão” facilitando-o esconder-se no alojamento do aeroporto Santos Dumont que protestava ante o suicídio de Getúlio Vargas, “foi um dos organizadores do 36° Congresso Eucarístico Internacional no Rio de Janeiro com mais de  500 mil participantes no Aterro do Flamengo” bem como, participou do Concílio Vaticano II  sendo nomeado membro do Secretariado para Assuntos de Imprensa do Concílio Ecumênico pelo papa João XXIII….afirmando:

nosso trabalho terá sido grande e definitivo se, após o Concílio, pudermos apresentar programas de uma igreja cada vez mais missionária, evangélica, simples,  sacramental, sustentáculo dos pobres, defensora intemerata da justiça social, de um ponto a outro mundo, mestra constante das renovações necessárias. Uma igreja que representa, na verdade, de fato e indiscutivelmente, o ministério de Cristo salvando a terra, salvando o homem, como único Salvador e ninguém mais”.

Ao falecer em 3.04.1970, aos 59 anos, era presidente do  Movimento de Educação de Base (MEB), membro da Comissão Episcopal da Ação Católica e Apostolado Leigo ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A pressão militar era grande sobre o religioso. “As celebrações religiosas presididas por Dom Távora e por parte de seu clero comprometido, assim como, as reuniões de trabalhadores nas igrejas e sindicatos, foram vigiadas, fotografadas e gravadas. Suas homilias foram censuradas. Sua casa passou a  ser observada. Sempre havia um agente do governo infiltrado”, porém na sua morte militares oraram de joelhos junto ao seu corpo.

Marcha

Segundo o texto do historiador Ibarê Dantas transcrito na obra de padre Isaías aqui mencionada, “com a morte de Dom Távora caía a maior cidadela de resistência da Igreja em Sergipe num momento nacional marcado pela repressão. Com o movimento estudantil já quebrado, a Igreja Católica subsistia pertinaz como derradeira instituição da sociedade civil a protestar contra o arbítrio e atrocidades. Na esfera nacional, sobretudo nesse momento, 1969/1970, em que seus militantes leigos e religiosos mais sentiam a força da repressão, inclusive com assassinatos”.

Dentre outros, este relato, apresentava a divisão da Igreja Católica no Brasil entre a simpatia por ações intituladas de esquerda e de direita na medida em que simultaneamente acontecia a Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o comunismo em várias cidades do país.  “A maioria do episcopado brasileiro concordava com a tomada do poder pelos militares” face que “essa cultura anticomunista foi semeada no início da década de 1930”.

 Curiosamente, vencidos pela constatação histórica do fim da polarização esquerda x direita, com a adesão dos países (Rússia, China, Cuba, etc.) ao capitalismo, o governo brasileiro atual retoma um discurso ultrapassado, sem volta, e consegue ferrenhos simpatizantes ao anticomunismo, 89 anos depois. Pior ainda, alguns seguidores do Cristianismo (católicos e protestantes principalmente) defendem o uso de armas, o individualismo exacerbado, etc. Se vivo estivesse hoje, Dom Távora seria “crucificado” na medida em que defendesse o que defendera em 1970. Ao que parece, a prática dos princípios cristãos de priorização pelos mais humildes vem sendo deletada por uma grande parte de líderes religiosos atuais em Sergipe e no Brasil.

Pio XI, então líder maior da Igreja Católica Romana, disse ao padre Cardijn, fundador da Ação Católica, segundo a obra de padre Isaías: “Finalmente, aqui está quem me fala das massas e de salvar as massas. Todos os demais me falam das elites. A maior obra que o senhor pode prestar para a Igreja é devolver-lhe as massas operárias que perdeu. As massas precisam da igreja. A igreja precisa das massas e exatamente das massas operárias. Pois uma igreja onde se encontram apenas os abastados não é mais a igreja do Senhor Jesus Cristo. Ele fundou sua igreja principalmente para os pobres. Eis por que é necessário restituir-lhe as massas trabalhadoras”. Neste mesmo toar, dizia Dom Távora, “o homem precisa de um mínimo de conforto e bem estar para poder elevar sua alma a Deus”.

Ao revisitarem 1930/1970 estariam cristãos brasileiros, dentre eles, sergipanos, esquecendo do verdadeiro sentido da mensagem de Cristo? Ao pregar somente a oração, esquecendo o social, estariam retrocedendo à Idade Média ou ao individualismo dos séculos XVIII e XIX?  Eis algumas, dentre tantas reflexões que a obra do padre Isaías pode nos provocar.

Um fato é cristalino, Dom Távora “foi um homem além do seu tempo”. Não se vislumbra grandes ações das igrejas em geral com tal preocupação em Sergipe há mais de meio século. As igrejas pararam no tempo, no plano social? O que se pratica hoje é o verdadeiro Cristianismo conforme falou seu Criador? Verdade que existem suaves exceções, mas na maioria, os líderes das igrejas cristãs pararam no tempo. Vivemos um retrocesso da ação religiosa onde se esquece o belo trabalho de Dom Távora  “um homem além do seu tempo” como escreveu padre Isaías, mas também necessário no século XXI.

(*) Valtênio Paes de Oliveira colabora quinzenalmente, às segundas-feirasEle é professor, advogado, especialista em educação, doutor em Ciências Jurídicas, autor de A LDBEN Comentada -Redes Editora, Derecho Educacional en el Mercosur- Editorial Dunken e Diálogos em 1970- J Andrade.

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