sexta-feira, 13/12/2019
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Confiança empatou com o Ypiranga e conquistou o acesso à série B

A vitória do Confiança, os governantes, escolas, população e a função social do esporte

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Valtênio Paes (*)

Fatos relevantes servem também para que gestores reflitam suas posturas públicas. A ascensão da Associação Desportiva Confiança à Série B do Campeonato Brasileiro de Futebol é inédita no esporte sergipano. Até o torcedor do Sergipe deve concordar.  Que a euforia da vitória ceda lugar à serenidade do equilíbrio como elemento de construção de um grande desempenho na série B e no cenário esportivo brasileiro. Evitar decisões de afogadilho e planejar sempre abaixo do limite financeiro do clube é um bom caminho. Dirigentes, não deixem que o ego da euforia descontrolada prejudique a estabilidade na Série B.

A função social do esporte é inigualável nos dias de hoje. Na mente da juventude preenche o ócio, livra do mal, fortalece a economia local, emprego e consumo, cria outras formas de lazer. Na saúde, aumenta a oxigenação do cérebro, estimula as atividades cognitivas, aumenta o “colesterol bom” e diminui o “colesterol ruim”, fortalece os ossos, melhora o sono, fortifica os músculos, dentre tantos outros benefícios. Tudo isso poderia ser ampliado com políticas públicas sérias. Melhor ainda com a ascensão do Confiança à Serie B. A hora, mais uma vez, pode ser agora. Com a palavra nossos gestores públicos de cada dia.

Segundo dados extraídos da monografia, Zaluar (1994) pesquisou alguns programas educativos governamentais que estavam dirigidos a crianças e jovens nos anos 80. O PRIESP, programa de iniciação esportiva desenvolvido em várias cidades pela Fundação Roberto Marinho, ao indagar qual a razão para a procura do programa pelas crianças e jovens, encontrou as seguintes respostas: “53% das crianças e jovens que procuravam o PRIESP o fizeram por querer aprender um esporte; 28% porque gostavam de esporte; 12% para ocuparem o tempo; e 7% deram outras respostas (p. 48, 1994)”.

O esporte é visto tanto para os alunos entrevistados como para as mães entrevistadas por Zaluar, como um formador de comportamentos. Entre os alunos entrevistados surgiram falas como: “o esporte ensina a gente a ser educado, respeitar os mais velhos, não dizer palavrão” (ZALUAR, 1994, p. 79). Já as mães afirmaram que seus filhos ao participarem do PRIESP, adquiriram noção de responsabilidade através do esporte. O sonho de ascensão profissional por meio do esporte também foi encontrado por ela. Segundo a autora, quanto mais pobre, mais forte era esse sonho. Ao investigar as expectativas de crianças e adolescentes do PRIESP, Zaluar (1994) encontrou que 44% dos alunos desejavam tornar-se esportistas profissionais” o que comprova a ampla função social das práticas esportivas.

Conforme o IBGE em 2015, no Brasil 38,8 milhões de pessoas de 15 anos ou mais de idade praticaram algum esporte, independentemente de terem ou não praticado atividade física, no período de referência, o que representou 24,0% da população investigada. O Nordeste registrou a menor proporção regional (22,1%). No Nordeste mais 78% desejam que os gestores promovam investimentos em atividades esportivas. Verdade seja dita, a vitória do Confiança foi no campo profissional e os dados acima tratam de atividades esportivas amadoristas, mas o momento é para refletir e agir.

O custo irrisório de medalhas, troféus e quadras é inversamente proporcional ao crescimento histórico pessoal de cada jovem sergipano. Shows e cargos de confiança beneficiam poucos, enquanto o incentivo ao esporte beneficia à todos  na saúde, economia, educação e paz social.  Políticas públicas efetivas para o esporte amador no Estado de Sergipe e nos municípios, questão de opção, é urgente.

Eduardo, na rua, pedindo ajuda à população 
Fotos: Charles Hardman

Aos gestores públicos que também reflitam: quantas escolas não têm práticas esportivas nem instalações? Quantas instalações esportivas  estão inutilizadas, enquanto crianças e adolescentes estão nas ruas? Quanto dinheiro gasto com shows e cargos em comissão, enquanto o atleta pede na rua ajuda para viajar ou comprar material?

Revitalizem quadras de esportes e campos de futebol, estimulem entidades amadoras e a juventude praticarem esportes. Permitam com suas obras esportivas, que juventude saia da rua do mal para a autoestima sendo incluída socioeconomicamente. Permitam que nos orgulhemos de vocês assim como fez o Confiança em 07.09.2019.

Parabéns ao Confiança, lamentando não dizer o mesmo aos gestores públicos!

(*) Valtênio Paes de Oliveira colabora quinzenalmente, às segundas-feirasEle é professor, advogado, especialista em educação, doutor em Ciências Jurídicas, autor de A LDBEN Comentada -Redes Editora, Derecho Educacional en el Mercosur- Editorial Dunken e Diálogos em 1970- J Andrade.

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