domingo, 11/07/2021
O escritor Germano Xavier: "Eu não vou sair ileso da pandemia. Fui marcado para sempre"

“A poesia sempre será uma espécie de vacina contra todas as dores humanas”, acredita o escritor Germano Xavier

“É urgente redesenhar o nosso percurso enquanto coletividade, enquanto humanidade”, ensina o escritor Germano Xavier, responsável pela coluna Literatura&Afins, aqui no Portal Só Sergipe, que acaba de lançar seu segundo livro “O Homem Encurralado” (Penalux,2021), uma coletânea de 51 poemas, todos também traduzidos para o idioma francês. Ao pedir urgência no redesenhar do percurso, o escritor nascido em Iraquara, Bahia, na bela Chapada Diamantina, lamenta que hoje, assolados por uma pandemia que “atingiu as pessoas com tentáculos diferentes”, segue pensando no grande motor que “move o Grande Tumor e a Grande Catástrofe”. Mas, ao mesmo tempo em que faz essa constatação, ele apresenta o elixir para a cura de todos os males: a  “poesia sempre será uma espécie de vacina contra todas as dores humanas”.

No resguardo em casa, em Caruaru, Pernambuco, durante essa pandemia – que insistentemente vai permanecendo -,  Germano teve a oportunidade de encontrar-se consigo mesmo. “Olhei mais para mim, mas olhei mais para os outros que compõem o todo da vida. Consegui ler mais e melhor. A pandemia atingiu as pessoas com tentáculos diferentes”, analisa o poeta, que também pensa “nas pessoas que não tiveram a oportunidade de parar um pouco, de ficar mais em casa, que não tiveram suas rotinas alteradas, que tiveram de continuar em suas prisões sistêmicas e diárias”.

Essas reflexões, em forma de poesia, estão  n’O Homem Encurralado, que faz parte de uma trilogia que está sendo gestada por Germano Xavier, cuja intenção é publicar o segundo livro em 2022.  Em 2006, o escritor, que é jornalista e mestre em Letras, publicou seu primeiro compêndio poético, Clube do Carteado, que para ele representou “um movimento de rebeldia, de nascedouro, de rompimento com a casca da vida literária”.

Leitor voraz e dono de uma  biblioteca rica de saberes, Germano lembra dos primeiros livros que chegaram às suas mãos: O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-​Exupéry, e Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, os quais decifrou e devorou. A partir daí não parou mais de mergulhar nas mais variadas leituras, passando pelas obras de Gabriel Garcia Marquez, o inigualável Gabo, com seu realismo fantástico em Cem Anos de Solidão, aos brasileiros Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, só para citar alguns dos seus companheiros de leitura. Ultimamente, Germano tem se dedicado à literatura contemporânea e também a livros cujos autores são negros.

Blog O Equador das Coisas Foto: acervo pessoal

Idealizador e  mantenedor do blog O Equador das Coisas, Germano Xavier também tem um canal literário homônimo na plataforma YouTube.

Esta semana Germano Xavier concordou em conceder uma entrevista ao Só Sergipe para falar um pouco de literatura e de  seus projetos. Na entrevista deste domingo existem duas novidades: a primeira é que a conversa com Germano também contou com a participação do jornalista e psicólogo Luís Osete Ribeiro Carvalho que, inclusive, faz a apresentação do livro “O Homem Encurralado”, que pode ser lido clicando aqui. A segunda é a escritora luso-angolana Luísa Fresta, responsável por traduzir os poemas do livro para o francês, que também conversou com o Só Sergipe  logo após a papo com Germano. E lá o leitor encontrará uma surpresa.

Vamos à entrevista.

SÓ SERGIPE – Quais foram as suas motivações para retomar o formato do livro impresso com O Homem Encurralado, quinze anos depois de seu primeiro compêndio poético, Clube de Carteado? 

GERMANO XAVIER – Eu queria um recomeço. O Clube de Carteado (2006) representou um movimento de rebeldia, de nascedouro, de rompimento com a casca da vida literária. Era eu me descobrindo, me abrindo, me permitindo, me analisando. Porém, o livro é um apanhado de poemas que escrevi ainda na adolescência. Há poemas nele datados de 1998, para se ter uma ideia, de quando eu tinha 14 ou 15 anos de idade. Já com O Homem Encurralado (Penalux, 2021) foi diferente. O livro é um movimento só. Os 15 anos entre os dois, sem dúvida, ficam bem aparentes quando se faz alguma espécie de comparação.

SÓ SERGIPE – Em O Homem Encurralado o sujeito poético expressa de forma muito intensa as faíscas trêmulas e recolhidas provenientes do contato de cada ser vivente com a beleza e os dissabores do mundo. Como foi a experiência de mergulhar na intimidade humana ao elaborar a poética presente no livro? 

GERMANO XAVIER O livro nasceu de um diálogo poético muito poderoso e significativo para mim. A falta de liberdade (ou a liberdade) pode ser considerada como sendo a temática-mor d’O Homem Encurralado. Aquele nosso universo repleto de fragilidades e temores, de medos, trancas e pesos, encarceramentos cotidianos, mas também um universo de esperanças várias, sempre me tocaram profundamente. Liberdade, tempo, amor,  morte, vida… tais grandezas humanas sempre foram e sempre serão motivações para o que escrevo. Aos poucos, fui sendo atraído pela ideia de um segundo livro. E, de uma hora para outra, ele surgiu. E surgiu em uma configuração de trilogia, a ser desenvolvida e finalizada nos próximos anos.

SÓ SERGIPE – Durante a leitura, somos ambientados em nosso tempo pandemicamente enfermo, como tão bem observou Regina Correia no posfácio. Há referências às “vacinas invisíveis para o incurável”, ao “invisível vírus a castigar o corpo natural das coisas”, à “pandêmica existência construída em nadas”, entre tantos vestígios da “grande catástrofe” contemporânea. De que modo o seu fazer literário foi influenciado e atravessado por esse período de pandemia e quais lições poéticas foram possíveis assimilar até o momento?  

GERMANO XAVIER – Tive a oportunidade de me resguardar em casa durante a maior parte do tempo. A pandemia me colocou, novamente, em observação constante. Reparei em tantas minúcias que não andava a reparar mais. Uma espécie de redescobrimento das coisas e de suas mecânicas, de suas engrenagens, mesmo sendo um movimento forçado e doloroso. Olhei mais para mim, mas olhei mais para os outros que compõem o todo da vida. Consegui ler mais e melhor. A pandemia atingiu as pessoas com tentáculos diferentes. Fico pensando nas pessoas que não tiveram a oportunidade de parar um pouco, de ficar mais em casa, que não tiveram suas rotinas alteradas, que tiveram de continuar em suas prisões sistêmicas e diárias. Fico pensando no grande motor que move o Grande Tumor e a Grande Catástrofe. A poesia sempre será uma espécie de vacina contra todas as dores humanas. Eu não vou sair ileso da pandemia. Fui marcado para sempre.

SÓ SERGIPE – É difícil escapar ao encurralamento que emula os cinquenta e um poemas da obra, sobretudo porque as nossas fragilidades nunca estiveram tão expostas e viver encurralado tem sido fator sine qua non da nossa condição humana. Não por acaso, entre as dedicatórias do livro, estão ao autor e aos leitores, “homens encurralados, todos nós, sem exceção alguma”. Quais seriam, em sua opinião, os caminhos humanitários possíveis para criar fissuras nos currais e construir o homem libertado?  

GERMANO XAVIER – Criar a fenda essencial para se enxergar além dos muros é um desafio colossal no mundo contemporâneo. As amarras estão por todos os cantos e o homem está cada vez mais habituado a conviver com elas. Um fenômeno de inversão em tal panorama é algo que precisa partir de um grande bloco ideário, de uma imensa comunidade de pessoas, de uma unidade ampla de esclarecimentos. O mundo precisa mudar, a política precisa mudar, a vida precisa mudar. A gente precisa mudar. Mais diálogo e mais empatia ajudariam. Mais respeito pelas diferenças, mais solidariedade, mais acessibilidade, mais entendimento, menos guerras, menos consumismos, menos muitas outras coisas. Estamos à beira do precipício. Não podemos negar. Os oceanos já nos informam isso há bastante tempo. As geleiras, os raios solares cada vez mais fortes, o clima, os animais extintos, a natureza que clama. O homem está encurralado em currais de ódio, de ganância, de opressão, de violência… É urgente redesenhar o nosso percurso enquanto coletividade, enquanto humanidade.

SÓ SERGIPE – O Homem Encurralado é apresentado como a primeira parte da Trilogia do Centauro, que seguirá em edição bilíngue, na frutífera parceria com Luísa Fresta. O que é possível adiantar dos dois próximos livros que serão lançados?

GERMANO XAVIER – O Homem Encurralado é a primeira parte de um projeto poético bilíngue que estou a construir ao lado da escritora e tradutora luso-angolana Luísa Fresta, amiga e parceira literária de longa data. Os próximos dois livros da trilogia ainda não foram finalizados, apenas pensados. Estou realizando um movimento de reescrita com poemas já existentes e escrevendo outros. Haverá uma unidade temática predominante, mas diferente da que foi aplicada em O Homem Encurralado. A ideia é lançar a segunda parte ainda em 2022. Depois disso, pensarei no terceiro. O certo mesmo é que os três conversarão entre si.

SÓ SERGIPE – Há, também, projeto para publicar o livro de contos Sombras Adentro, finalista do IV Prêmio Pernambuco de Literatura, de 2016?

GERMANO XAVIER – Sim. Penso que num futuro não muito distante voltarei ao Sombras Adentro, que foi belissimamente ilustrado pelo meu conterrâneo Marcel Gama e diagramado pela incrível Carol Piva. Reajustá-lo talvez seja necessário, mas realmente quero que um dia ele ganhe o mundo.

Germano em Portugal num encontro com Luísa Fresta e a irmã Zeza Fresta,  em 2020 Foto: acervo pessoal

SÓ SERGIPE – Como nasceu essa parceria frutífera com Luísa Fresta? Alguma razão especial para a escolha na língua francesa?

GERMANO XAVIER – Conheci Luísa Fresta por advento das redes sociais, tem já bem uma década. Uma entidade. Uma pessoa incrível. Coração muito humano e mente muito pulsante. Luísa nasceu em Portugal, estudou um tempo na França, morou em Angola, é uma mulher do mundo. A comunidade francófona sempre esteve em seus caminhos. Um dia ela me mostrou, sem antes me avisar, um poema meu traduzido para o francês. Começou assim. A ideia que tenho é antes a de um laboratório mesmo, de um laboratório poético. E, por consequência, conquistar leitores interessados em projetos desta natureza.

SÓ SERGIPE – O senhor é um leitor voraz. O senhor lembra do primeiro livro que leu e que mundo começou a descobrir a partir daquela leitura?

GERMANO XAVIER – Lembro. Posso recordar fielmente do momento e dos dois primeiros livros que li na vida. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-​Exupéry, e Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos. Naquela época, minha cidade de origem não dispunha de biblioteca. Meu pai possuía livros, mas eram em sua maioria livros técnicos da área odontológica ou grandes coleções com temáticas específicas. Minha família não era muito dada à literatura em si. Coube a mim, ainda com menos de 10 anos de idade, começar a abrir picadas no matagal literário. Livreiros e mascates passavam com certa frequência oferecendo livros e almanaques. Foi assim que entrei em contato com esses livros. Daí em diante, um vasto mundo de possibilidades me surgiu. É um caminho sem volta. Com 15 anos já lia Dante, Cervantes, Melville… não parei mais.

SÓ SERGIPE – Quais são seus escritores e poetas prediletos? Charles Baudelaire, considerado pai do simbolismo e autor de Flores do Mal, é um deles?

GERMANO XAVIER – As Flores do Mal li na época em que morei no Vale do São Francisco, na plenitude de minha juventude. Rimbaud, Victor Hugo, Guy de Maupassant, Émile Zola e mais adiante, na faculdade, Mallarmé, foram algumas referências francesas que me acompanharam por muito tempo, e que ainda me causam rebuliços. Borges ainda é a maior das entidades literárias para mim. Através dele, cheguei aos grandes da América Latina: Gabo, Benedetti, Cortázar e tantos outros. No Brasil, preciso citar Drummond, João Cabral, Gullar, Bandeira, Manoel de Barros, Castro Alves, Clarice, Raquel, Hilda, Jorge de Lima, Patativa, Rosa, J.J. Veiga… é impossível citar todos que me marcaram eternamente. O Brasil tem uma seara vastíssima de grandes escritores e escritoras. Ultimamente tenho me voltado mais para a literatura contemporânea e também para livros de escritores negros. Estou descobrindo bons nomes.

SÓ SERGIPE – Desde 2007 o senhor comanda o blog “O Equador das Coisas” que já tem mais de 2.100 textos publicados. Como nasceu o portal e qual objetivo dele?

GERMANO XAVIER – A ideia do blog O Equador das Coisas nasceu durante uma aula na faculdade de jornalismo. Nele comecei a divulgar meus textos. Passados 14 anos, o meu blog segue vivo e terminou se ramificando para um jornal literário impresso e um canal literário homônimo na plataforma YouTube, onde conto com a colaboração de alguns amigos e amigas. Há também um blog coletivo. Todos esses suportes, bem como as minhas redes sociais, objetivam, de algum modo, aproximar leitores da literatura e vice-versa.

SÓ SERGIPE O senhor já encontrou ou está próximo do equador de todas as coisas?

GERMANO XAVIER – De todas as coisas, ainda não. Por isso, sigo escrevendo.

 

“Eu vejo-o como um autor perfecionista e cerebral”, diz Luísa Fresta sobre a obra de Germano Xavier

Escritora Luísa Fresta

A escritora luso-angolana, Luísa Fresta, foi a responsável por traduzir do português o livro O Homem Encurralado (em francês, L’Homme Acculé), o que não foi  uma tarefa fácil, tarefa que começou “por puro prazer e bem devagar”. E ao fazê-lo, Luísa vê o escritor Germano Xavier como “um autor perfecionista e cerebral, o que não invalida de modo algum a sua capacidade de transmitir e recriar emoções vibrantes, mas de uma forma contida, implícita, subtil, quase austera”.

Luísa está pronta para continuar as traduções da trilogia de Germano Xavier. “É essa a minha intenção, e fá-lo-ei com muito gosto e determinação, desde que o autor continue a confiar na minha intuição e métodos, que têm um papel importante neste trabalho intimista e desde que essa escolha não belisque o belíssimo texto original”.

Ela viveu a maior parte da juventude em Angola e reside em Portugal desde 1993. É autora de uma série de crônicas sobre as décadas de 70/80, publicada no Jornal Cultura – Jornal Angolano de Artes e Letras, em Luanda.  Seus mais recentes livros são “A fabulosa galinha de Angola”, literatura infanto-juvenil, e “Sapataria e outros caminhos de pé posto”, um livro de contos.

Leia aqui alguns textos de Luísa Fresta, como “Alda e Maria – por aqui tudo bem” – um filme de Pocas Pascoal

Filhos de Deus, Contos e Monólogos – de Dina Salústio

O Só Sergipe manteve as respostas de Luísa no português falado em Portugal.

SÓ SERGIPE – A senhora integra o projeto de Germano Xavier e traduziu para o francês os poemas do livro ‘O Homem Encurralado’. Como foi essa tarefa, já que tradução, principalmente de poemas, não é algo simples?

LUÍSA FRESTA –  Deixe-me, antes de mais, agradecer a oportunidade de tecer algumas considerações sobre esta obra. A tradução deve ser invisível, idealmente, e por arrasto o tradutor acaba por sê-lo também, pelo menos é assim que eu encaro este ofício.

Respondendo diretamente à sua pergunta confirmo que não se trata de uma tarefa fácil, mas pode ser facilitada. Tratando-se de poesia creio que há fatores específicos a ter em conta. Para além de tentar levar a mensagem do poeta a outro público, aos leitores francófonos, no caso, pretende-se que a essência se mantenha, o ritmo, a beleza, a rudeza, enfim, traduzir “sem atraiçoar” resulta de um conjunto de escolhas em cada texto, a cada verso. Os leitores julgarão se foram as mais adequadas em cada momento. Em todo o caso posso dizer-lhe que o facto de conhecer o autor há alguns anos e de acompanhar de muito perto a sua obra (em poesia e em prosa) permitiu-me talvez perceber melhor a sua intenção nestes textos intensos, despojados e também cheios de sombras, como a própria condição humana.

Por outro lado eu fui traduzindo aos poucos, praticamente à medida que os poemas foram sendo revelados, e esse sistema levou-me a contornar gradualmente as dificuldades sem conhecer, à partida, o tamanho da empreitada. Não sei se o próprio autor tinha noção da dimensão desta série de poemas, em termos quantitativos e de intensidade. Eu comecei a traduzi-los por puro prazer e bem devagar, de maneira que consegui conservar alguma serenidade — que não se tem quando se traduz sob pressão, com prazos apertados e autores que não conhecemos.

Surgiram algumas dúvidas pelo caminho, no texto em português (nomeadamente pelo facto de eu não ser brasileira e também devido ao carácter hermético e simbólico de algumas expressões), dúvidas que foram prontamente esclarecidas pelo Germano. Também tive algumas interrogações sobre pormenores da versão francesa; para ultrapassar esses obstáculos usei métodos convencionais ou mais criativos. Inclusive o recurso a aconselhamento pontual de outros tradutores e amigos professores que são falantes nativos de francês.

O Homem Encurralado, traduzido para o francês

SÓ SERGIPE – Na tradução para o francês, a senhora diz que “procuramos outra voz para expressar o mesmo ambiente”. Nessa busca a senhora percebe uma musicalidade nos poemas?

LUÍSA FRESTA – Com certeza. A poesia de Germano tem ritmo de sobra e também melodia, a gente percebe isso mais claramente quando a lê em voz alta. Eu fico sempre fascinada quando vejo o gráfico de um áudio porque sou confrontada com a harmonia que existe no texto (dele): as pausas, os sons mais agudos ou mais graves. Esta percepção é meramente sensorial, mas creio que até uma pessoa que não entenda a nossa língua pode compreender a coerência sonora dos textos que compõem “O Homem Encurralado” e apreciá-la baseada unicamente nessa conjugação de notas. Uma pessoa das minhas relações, que nem fala português, comentou, certa vez, ao ouvir a leitura de um poema de Germano, que gostou da música e da sobriedade. Por vezes a sensibilidade abarca aquilo que o conhecimento não atinge.

Procurei que os textos em francês conservassem a musicalidade ou criassem outros esquemas melódicos potencialmente agradáveis ao ouvido.

SÓ SERGIPE – Num trecho do prefácio do livro, a senhora diz que se “identificou plenamente com a ‘poíeses’ de Germano Xavier. A senhora poderia explicar melhor como se deu essa identificação?

LUÍSA FRESTA – Olhe, realmente a identificação com a criação e o resultado desse “fazer artístico” do Germano talvez tenha sido espontânea desde o início, quando eu me tornei leitora assídua dos seus textos, bem antes de “O Homem Encurralado”. O Germano tem uma forma de criar que eu julgo compreender, até onde me é possível, daí falar em “identificação”. O autor baseia-se muito no quotidiano, no pulsar da sociedade, nas relações entre pessoas, na ostracização, nas barreiras sociais e na indiferença, na observação do individualismo, para criar os seus ambientes e personagens. Este livro espelha bastante bem o processo, creio. Depois trabalha todo esse material como um escultor, burilando cada palavra ou ideia.

Eu vejo-o como um autor perfecionista e cerebral, o que não invalida de modo algum a sua capacidade de transmitir e recriar emoções vibrantes, mas de uma forma contida, implícita, subtil, quase austera. Eu revejo-me no método, nas fontes de inspiração e até na sobriedade e discrição com que Germano aborda uma infinidade de temas, com garra mas sem nunca perder o norte.

SÓ SERGIPE –  A senhora segue no projeto para traduzir os outros dois livros que comporão a trilogia?

LUÍSA FRESTA – É essa a minha intenção, e fá-lo-ei com muito gosto e determinação, desde que o autor continue a confiar na minha intuição e métodos, que têm um papel importante neste trabalho intimista e desde que essa escolha não belisque o belíssimo texto original. De qualquer maneira o facto de Germano ter permitido que eu seja a sua primeira tradutora enche-me de orgulho, ao qual acresce uma grande responsabilidade. O autor poderia ter escolhido um tradutor nativo de língua francesa mas optou por confiar no meu trabalho; essa confiança é determinante para que tudo corra o melhor possível.

Luísa Fresta declama Nulla, o primeiro poema do livro O Homem Encurralado de Germano Xavier:

 

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