quinta-feira, 11/08/2022
cangaço
Vera Ferreira diz que não existe novo cangaço Fotos: Só Sergipe

Vera Ferreira, neta de Lampião e Maria Bonita: “Eu gostaria muito que meu avô tivesse morrido em Alagoas ou na Bahia, porque a visibilidade e o apoio seriam maiores”

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Na última quinta-feira, 28, a jornalista Vera Ferreira, 67 anos, neta de Lampião e Maria Bonita, promoveu a 25ª Missa do Cangaço, na Grota do Angico, em Poço Redondo, em memória dos seus avós e outros nove cangaceiros, que foram emboscados e mortos pela volante comandada pelo então tenente João Bezerra da Silva, auxiliado pelo sargento Aniceto e o aspirante Ferreira, na madrugada do dia 28 de julho de 1938, portanto, há 84 anos, exatamente numa quinta-feira. Como a própria Vera diz no seu antológico livro “O espinho do quipá, Lampião, a história”, escrito com Antônio Amaury, “com a morte de Lampião morria também o cangaço”.

Autora também do livro “De Virgolino a Lampião”, em coautoria com Antonio Amaury, que faleceu em 26 de fevereiro de 2021, aos 88 anos, em São Paulo, Vera Ferreira prepara um novo livro, o último, segundo ela, sobre o cangaço “para falar da história tal qual ela aconteceu”.  Só para lembrar, Antonio Amaury Correia de Araújo foi um dos maiores pesquisadores da vida de Lampião e da história do cangaço,

cangaço
Antonio Amaury, um dos maiores estudiosos sobre cangaço Foto: site Cariri das Antigas

Atenta, ela acompanha o lançamento de vários livros sobre o cangaço, escritos, na sua opinião, “por novos ‘doutores’ no cangaço que nunca falaram com um cangaceiro, nunca falaram com uma volante, com um coiteiro, nunca falaram com as pessoas que viveram naquela época e se acham no direito de repetir os mesmos erros de muitos. E isso tem que parar, é uma luta constante. Quando sai um livro é cada um pior do que o outro”.

Ela nunca processou escritores por causa das obras que escreveram sobre Lampião, exceto o juiz de Direito aposentado Pedro de Morais. “Esse foi por causa do desrespeito, não por Lampião, mas com a pessoa Virgolino Ferreira, com a Maria Gomes de Oliveira e Luiz Pedro. O desrespeito com a família, com a minha mãe, Expedita Ferreira Nunes, que ainda está viva”. E prossegue:  Acho que isso foi um desrespeito muito grande com a história”.

“E quando aqueles três desembargadores liberaram o livro, eu disse ao vivo naquela época, passei três anos sem falar sobre este assunto. Falei na rádio e estou falando agora: foi uma ignorância cultural desses três desembargadores, foi uma falta de respeito para com a história e um desconhecimento total. Eles me dão o direito de dizer que os três desembargadores também são a mesma coisa de que o juiz falou do meu avô”, completou.

Vera Ferreira pensa na 26ª Missa do Cangaço em 2023, defende que é um ato religioso e cultural, que é apolítico.  “Eu sempre digo: a primeira ajuda que tive do Governo do Estado foi através de Luiz Eduardo Costa e frei Enoque”, então prefeito de Poço Redondo.  “Eu disse, no domingo passado, que eu gostaria muito que meu avô tivesse morrido em Alagoas ou na Bahia, porque a visibilidade e o apoio seriam maiores”, afirmou a jornalista e escritora.

Na quinta-feira, 28, no Cangaço Eco Park, às margens do rio São Francisco, Vera Ferreira conversou com o Só Sergipe e contou, entre outras coisas, como começou a promover a Missa do Cangaço.

Quer conhecer um pouco dessa história, com uma fonte fidedigna? Leia esta entrevista.

 

SÓ SERGIPE – A Missa do Cangaço, além do ato religioso em memória dos seus avós e demais cangaceiros, foi também um ato de protesto?

VERA FERREIRA – Não é protesto. Essa palavra não me cai bem. Foi um desabafo. Nunca fizemos isso, essa foi a primeira vez, por causa de tudo que estão enfiando goela abaixo e em algum momento a gente tem que soltar. Então, isso não é um protesto, é um desabafo.

SÓ SERGIPE – Durante o desabafo ficou bem marcante o fato de a televisão estar chamando de novo cangaço os assaltantes que levam o terror para o interior do Brasil, explodindo caixas eletrônicos e agências bancárias para roubar dinheiro. Como a senhora assiste à essa propagação errônea da mídia?

VERA FERREIRA – Há muito tempo que isso já começou, um dia falei para um jornalista: ‘Vocês falam isso por ignorância’. Isso porque a maioria dos jornalistas é ignorante com a cultura, é ignorante de conhecimento, infelizmente. Eu fui jornalista, num período áureo da minha vida, hoje digo que não quero mais atuar. Foram pessoas que realmente faziam jornalismo e você sabe disso porque é da minha geração.  Era um jornalismo com respeito, e não o que se faz hoje, de colocar goela abaixo nomes em coisa que não existe, cara!

Dizer que é ‘novo cangaço’ chama a atenção da população, e ao falar ‘Ah, surgiram novos bandidos’,  o povo está tão acostumado que nem vai olhar. Quando dizem ‘novo cangaço’, o pessoal olha. O desrespeitoso é cruel, infelizmente.

SÓ SERGIPE – Diante dessas e outros desinformações, o que esperar das novas gerações?

VERA FERREIRA – Estou muito preocupada com as futuras gerações. Digo que é uma geração que está ligada a um telefone celular, Youtube, Instagram que, se você for olhar, 99% não ensinam nada, ao contrário, só desrespeitam.

Não interagem, não leem. É copiou, colou. Eles têm culpa? Não. A culpa é dos pais, das autoridades que não dão educação.Isso tem que mudar. A gente tem que acordar. Começa na politicagem. Para que essa politicagem nojenta que nós temos? Os políticos só aparecem em época de eleição, como agora, e fazem milagres. Depois de eleitos, se você for olhar o que eles prometeram, não fizeram nada pelo povo. Está aí, gente morrendo, os hospitais todos lotados. Pandemia, não. Isso já existe há muito tempo. Veja as reportagens de 10 ou 15 anos, tudo a mesma coisa. As escolas fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem. É isso que nós estamos vendo. Infelizmente.

A missa do cangaço, na Grota do Angico

SÓ SERGIPE – A senhora já está pensando na 26ª Missa do Cangaço?

VERA FERREIRA – Ontem (quarta-feira, 27) nós já estávamos programando a próxima missa. Se aquele Ser Superior me permitir, porque a gente não sabe nem do próximo segundo, quero continuar com essa missa. Quero deixar bem claro que essa missa não foi ideia minha. Eu ia para essa missa lá em Serra Talhada, que eu era convidada.  Fui umas três vezes lá e falava com Anildomá (Anildomá Willians de Souza, autor do livro ‘Lampião, nem herói, nem bandido. A história’): ‘Está errado, porque a missa tem que ser na Grota do Angico, dia 28.  E em Serra Talhada tem que fazer uma missa no dia do nascimento de Lampião, que é 4 de julho’. Aí nós mudamos. Não faz mais lá em Serra Talhada, e eu comecei a missa aqui em Poço Redondo.

Eu sempre digo: a primeira ajuda que tive do Governo do Estado foi através de Luiz Eduardo Costa e frei Enoque. E cheguei para os dois e disse que o evento é cultural e não político. Caso contrário, prefiro não fazer, porque não quero nenhum político fazendo isso aqui de palco. E você não vê político nenhum na Missa do Cangaço. Que eles participem, mas não veem. Eu acho que nunca vi um secretário de turismo, cultura ou educação nessa missa nestes 25 anos. Eu disse, no domingo passado, que eu gostaria muito que meu avô tivesse morrido em Alagoas ou na Bahia, porque a visibilidade e o apoio seriam maiores.

Grota
Vera, na Grota do Angico

SÓ SERGIPE – A senhora também está escrevendo um novo livro?

VERA FERREIRA – Estamos fazendo um trabalho agora. Tenho certeza de que será o meu último, porque a gente tem que falar da história tal qual ela aconteceu. Eu tenho na minha cabeça que a história não se muda. Se a história aconteceu você tem que contar aquele fato e hoje o cangaço tem sido tratado de forma muito leviana e desrespeitosa.

São novos “doutores” no cangaço que nunca falaram com um cangaceiro, nunca falaram com um volante, com um coiteiro, nunca falaram com as pessoas que viveram naquela época e se acham no direito de repetir os mesmos erros de muitos. E isso tem que parar, é uma luta constante. Quando sai um livro é cada um pior do que o outro.

Não é porque a gente quer ser dono da história, temos um grupo sério, as pessoas querem seriedade, querem respeito para com a história. Aí vêm e dizem: ‘Mas ele é um mito’. A história não se subjuga a um mito, ele tem que ser embaixo da história. Ele pode se tornar um mito, mas as pessoas têm que saber a história. São dois polos e eles têm que ser estudados.

SÓ SERGIPE – O livro já tem um nome?

VERA FERREIRA – A gente diz que o nome que se dá a uma criança é o último. Mas o livro vai tirar muitas dúvidas. Eu gosto que as pessoas façam uma leitura leve e entendam a história, porque ela não tem só fim, só meio ou só começo. Ela tem começo, meio e fim, e para você entendê-la tem que pegar esse polo. Para saber como a árvore apodreceu, tem que pegar a raiz. Tem que fazer esse trabalho. Aquele pessoal que falou na Missa do Cangaço é o que vem sofrendo, pois surgem grupos de politicagem, que não contribuem em nada com a história. É um jogo de ego e cada um quer ser melhor do que o outro e isso não faz bem à história. Ao invés de se unirem, querem ser mais que a história. Fizemos esse desabafo por conta disso.

SÓ SERGIPE – Falando desse desabafo, a senhora moveu ações na Justiça que ainda estão em andamento sobre livros que não contaram a história correta e/ou macularam a memória de Lampião e Maria Bonita?

VERA FERREIRA – Nós fizemos, e você sabe muito bem disso que foi uma pessoa em Aracaju que escreveu uma porcaria que sem qualquer conhecimento e não sei de onde ele tirou essa história. Não pelo fato de ter chamado meu avô de homossexual, minha avó de uma puta e o cangaceiro Luiz Pedro ser amante dos dois. Acho que isso foi um desrespeito muito grande para com a história. E quando aqueles três desembargadores liberaram o livro, eu disse ao vivo naquela época – passei três anos sem falar sobre este assunto -, falei na rádio e estou falando agora: Foi uma ignorância cultural desses três desembargadores, foi uma falta de respeito para com a história e um desconhecimento total.

Eles me dão o direito de dizer que esses três desembargadores também são a mesma coisa de que o juiz falou do meu avô. Quero deixar claro que nunca coloquei um livro em processo. Esse foi por causa do desrespeito, não por Lampião, mas com a pessoa Virgolino Ferreira, com a Maria Gomes de Oliveira e Luiz Pedro. O desrespeito com a família, com a minha mãe, Expedita Ferreira Nunes, que ainda está viva.

A filha de Lampião, Expedita Ferreira Nunes, entre Vera Ferreira e uma amiga no Cangaço Eco Parque

Mas como ele era juiz, eles se protegem e não deu em nada, absolutamente. Ele desrespeitou a lei, passou por cima da lei, pois foi condenado e mesmo assim saiu ileso. Se hoje, em pleno século XXI não tem Justiça, o que você, no passado, vai querer? Por que esses homens se tonaram cangaceiros? Porque não tinha Justiça, não tinha a quem recorrer. As pessoas querem entender o cangaço com o olhar de hoje, mas você tem que olhar o passado. Hoje continua com nova roupagem, novos nomes.  Hoje a Justiça está podre, como sempre foi, não tem cultura e não tem educação, como não tínhamos no passado. Acho que esse país precisa mudar. As pessoas precisam acordar. Sem educação, nós não vamos para lugar nenhum.

SÓ SERGIPE – E a senhora como jornalista e autora de livros sobre Lampião e o cangaço tem um papel importante em levar educação, com mais esse olhar sobre a história de seus antepassados, não é?

VERA FERREIRA – Com fé em Deus, até o final do ano, a gente lança. Eu espero, mais uma vez, contribuir com a história. Não é um livro que estou fazendo sozinha. Estou chamando pessoas sérias para estarem junto comigo, porque dizem ‘ah, foi a neta de Lampião que escreveu’. Não, quero que entendam que existem pessoas dentro do livro falando sobre o cangaço.

 

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