sexta-feira, 12/06/2026
Claudefranklin e Toninho Cerezo
Claudefranklin e Toninho Cerezo Foto: Acervo pessoal

Memórias da Copa do Mundo de futebol

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Embora eu tenha nascido em 1974, a primeira Copa de Mundo de que tenho lembrança é de 1982, sediada na Espanha. Naquele ano, em janeiro, meu pai havia falecido. Ele, José Almeida Monteiro, foi jogador de futebol amador. Da pouca (ao mesmo tempo, intensa) convivência que tive com ele, aprendi a amar futebol e a torcer (para não dizer, sofrer) pelo Clube de Regatas Vasco da Gama. Assim, antes mesmo de completar 8 anos de idade, eu já sabia de tudo um pouco sobre o esporte.

Quando chegou o dia 13 de junho de 1982, um misto de entusiasmo e de saudade tomou conta de mim. Queria viver aquele momento de abertura de uma Copa do Mundo, ao lado de meu pai. Aqueles sentimentos me acompanharam durante todo o torneio, até o fatídico dia 5 de julho, num jogo que entrou para a história, na perspectiva dos brasileiros, como a “tragédia de Sarriá”, uma referência ao estádio onde a Seleção Brasileira perdeu por 3 x 2 para a Seleção Italiana, com três gols de Paulo Rossi. Chorei copiosamente, consolado por minha mãe.

Depois da seleção de 70, aquele tinha sido (e penso que ainda é) um dos melhores elencos que já tivemos até a presente data: Waldir Peres, Carlos Gallo e Paulo Sérgio (goleiros); Leandro, Oscar, Luizinho, Júnior, Edevaldo, Edinho, Juninho Fonseca e Pedrinho (defensores); Falcão, Toninho Cerezo, Sócrates, Zico, Batista e Paulo Isidoro (meio-campistas) e Éder Aleixo, Serginho Chulapa, Dirceu, Roberto Dinamite e Renato (atacantes). Destes, tive a satisfação de conhecer pessoalmente, Toninho Cerezo, no dia 5 de agosto de 2017, quando chegava para me hospedar no Hotel Bahia do Sol, em Salvador-BA. À época, ele treinava o Vitória. Muito simpático e atencioso, ele ficou surpreso de me lembrar dele ainda e, de modo particular, de sua passagem pela seleção de 1982.

As Copas que se seguiram, para mim, não foram tão marcantes quanto esta, mas deixaram grandes e inesquecíveis recordações. Tive o privilégio de ver a Seleção Brasileira campeã do mundo em duas oportunidades. Na Copa de 1986, já rapazinho, me envolvi ainda mais, procurando ficar a par de tudo. Minha principal fonte de informação, além dos programas esportivos da Rádio Globo e do Globo Esporte TV, a Revista Placar. Até a presente data, sou fã e colecionador deste periódico, fundado no dia 20 de março de 1970. Tenho, ainda, todos os especiais lançados por ela desde aquele ano de 1986, quando a Seleção Brasileira manteve, praticamente, a mesma base de 82, mas desclassificada pela França, nos pênaltis.

A Copa de 90 talvez tenha sido uma das mais feias de que eu recorde, ao lado da Copa de 2006, em particular pelo baixo nível técnico. Na primeira, a Alemanha levantou a taça e na segunda, a Itália. A partir da Copa de 90, passei a colecionar os álbuns de figurinhas da Panini. Comandado por Sebastião Lazaroni, aquele time vinha renovado. Não tinha mais Zico, e dava início à “era Dunga”, muito criticado naquele torneio, sobretudo pela eliminação para a Argentina, nas oitavas de final.

Em 1994, eu estava na reta final de minha formação no Curso de Licenciatura em História pela Universidade Federal de Sergipe. No segundo semestre daquele ano, comecei a minha carreira docente no Colégio Cenecista Laudelino Freire, em Lagarto. Passava a semana em Aracaju, na casa de meu saudoso tio materno, Antônio Carlos dos Santos, que morava na rua Pedro Calazans. Dali, nos jogos da Seleção Brasileira, descia para a casa de outro tio materno, Raimundo Nonato dos Santos, para ver os jogos. Naquele ano, o Brasil vinha de um hiato de 24 anos sem conquistar um título. Situação igual à Copa deste ano de 2026.

A final, contra a Itália, vi em casa, no mesmo sofá onde chorei em 1982. Ironia do destino, testemunhei pela TV Globo, o Brasil sagrar-se campeão pela quarta vez na história, numa decisão por pênaltis para aquela mesma esquadra azurra, quando Baggio mandou para longe uma das cobranças. Novamente chorava, após doze anos, mas agora de alegria, gritando, com Galvão Bueno e Pelé, a pleno pulmões: “É TETRA!”.

Nos torneios que se seguiram, fomos do céu ao inferno e deste ao céu, outra vez. A Copa de 1998 nos deve explicações até hoje. Inadmissível o que aconteceu naquela final contra a França! Ronaldinho, o fenômeno, que já havia sido campeão em 94, garoto, vinha voando, e, curiosamente, perdeu o brilho naquela famigerada partida, em que tomamos três gols, sendo dois de Zidane. A novidade daquele torneio foram as gravações que fiz dos jogos da Seleção Brasileira, em fita VHS, as quais ainda conservo.

Na Copa de 2002, a Seleção Brasileira se sagrou campeã pela quinta vez, com um time formidável, liderado por Rivaldo, Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho. Coincidência ou não, foi a última vez que me entusiasmei, pra valer, pelo torneio e pela Canarinho. Nas Copas que se seguiram (2006, 2010, 2014, 2018, 2022), até acompanhei, comprei álbum de figurinhas e os especiais da Placar, mas a geração Neymar deixava sempre a desejar (e ainda deixa). O 7 x1 que levamos da Alemanha, em pleno Mineirão, em 2014, foi doloroso demais. Ver meu filho chorando, sem entender nada do que estava acontecendo, com a mesma idade que eu tinha em 1982, foi traumático demais.

Nesse ínterim, ainda tive que presenciar a extrema direita sequestrar a camisa da Seleção Brasileira e ver o futebol virar um grande negócio, sobretudo para casas de aposta, que têm acabado com a juventude. De tal sorte que chego à minha décima segunda Copa com um sentimento estranho. Não sei se consequência da maturidade ou dessas últimas decepções. Mas, estou na expectativa de ver mais um torneio mundial, sem aquele entusiasmo de antes. Torcendo, é bem verdade, não vou negar, mas totalmente descrente.

Se isto serve de consolo para quem ainda não viu a Seleção Brasileira campeã do mundo, em 1994, o clima era o mesmo. De desconfiança, pessimismo e tendo seleções como Alemanha, Argentina, Itália e Holanda como francas favoritas. O torneio voltou aos Estados Unidos, que mal começou, está dando maus exemplos de civilidade sob a inércia e inoperância da FIFA. Enfim, tudo conspirava contra nós e segue conspirando. Quem sabe, outra vez? Que venha o hexa, então!

 

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Sobre Claudefranklin Monteiro

Claudefranklin Monteiro Santos
Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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