Por Valtênio Paes de Oliveira (*)
Verdade que o Brasil melhorou o patamar de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) conforme a Organização das Nações Unidas, segundo estudo do PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – em 2024. As melhorias aconteceram no século XXI. Saúde, resultando no aumento significativo da longevidade, e educação foram destaques, porém a distância entre ricos e pobres continua sendo uma vergonha social.
“A desigualdade de renda no Brasil voltou a subir em 2025, depois de recuar no ano anterior. A razão entre os rendimentos dos 10% mais ricos e dos 40% mais pobres chegou a 13,8 vezes, acima das 13,2 vezes registradas em 2024, segundo artigo do site Poder 360. Ressalte-se que a metade mais pobre, cerca de 106 milhões detêm 2,4 % do patrimônio do país, enquanto os 10% mais ricos detêm 70% da riqueza do país. Essa terrível desigualdade deve ser motivo de reflexão política, social e espiritual.
Com a recente votação do projeto da escala de trabalho cinco por dois, há políticos e até a Confederação Nacional da Indústria (CNI), rejeitando-o, sob o pretexto de que mais descanso para o trabalhador vai causar desemprego, aumento de preços, inflação etc. Pasmem, há empresário e político querendo contrapartida. Esquecem os milhões de reais de incentivos fiscais que recebem dos cofres públicos. Argumentam que a proposta é política face às próximas eleições e não beneficia aos trabalhadores, em que pese estarem ansiosos pelo direito.
Que cruel e desumana contradição! Rico reclama por lucro e pobre busca descanso. A usura pelo lucro torna alguns empresários e políticos desumanos. Na Confederação Nacional da Indústria, donos de fábricas, sob o manto do anonimato, rejeitam a escala cinco por dois sob alegação de inflação, prejuízo para a empresa, aumento de custo de produtos, redução de produtividade do trabalhador, como se empresários fossem reduzir os lucros. Aproximadamente 14,8 milhões de trabalhadores celetistas, somados a 1,4 milhão de serviços domésticos, podem atingir entre 15 e 16 milhões de pessoas esperançosas por dois dias de descanso.
Somente grandes empresas localizadas no Brasil recebem benefícios fiscais de mais de 20% da arrecadação total de impostos. O montante acumulado é de cerca de R$ 490 bilhões, equivalente a 4,5% do PIB. Os números dos incentivos fiscais que as empresas recebem do governo federal estão na Declaração de Incentivos, Renúncias, Benefícios e Imunidade Tributária, a Dirbi, instituída pela Receita Federal em 2024. Assim, ganham milhões em incentivos fiscais e não querem descanso para quem ganha salário-mínimo.
Atente-se que Henry Ford, desde o primeiro de maio de 1926, já adotara a escala cinco por dois. Nem por isso deixou de ganhar e construir o império multinacional da Ford. Longe de questionar o sobrevivente capitalismo, porém, rejeita-se o cruel e desumano lucro defendido por empresários e políticos que ainda pensam na exploração semi-escravista da escala seis por um. Descanso é para todos. Alemanha e França adotam 5×2 com 35 horas semanais. Também Argentina, México e Chile, dentre tantos outros países, já adotam a escala proposta na Câmara dos Deputados do Brasil
Em 1959 Roger Bastide já escrevera “Brasil País de Contrastes” pelas características. Relevo, clima, vegetação, cultura etc. Depois do primeiro quarto do século XXI continuamos com extremos entre a usura e a pobreza. Sem questionar alternativa ao capitalismo! Porém, construir um discurso contaminado pela usura não é papel social de empresário. No estoicismo afirma-se: “o pior tipo de pobreza é o das pessoas que se sentem pobres em meio a suas riquezas”.
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