Por Hernan Centurion (*)
Há momentos na vida em que o céu parece tocar a terra, não porque Deus se torne mais presente do que já é, mas porque, por alguns instantes, conseguimos afastar o excesso de ruídos que nos cercam e permitir que Sua voz encontre espaço para ecoar no silêncio da alma.
Vivemos tempos tumultuados por agendas cheias, redes sociais, metas incessantes e preocupações que se acumulam umas sobre as outras como ondas que não cessam de chegar à praia. Corremos para cumprir compromissos, resolver problemas, alcançar resultados e corresponder às expectativas de um mundo que nos cobra produtividade constante e sucesso desmedido, enquanto, muitas vezes, deixamos para depois aquilo que verdadeiramente sustenta a existência humana: a vida espiritual. E talvez seja exatamente por isso que tantas pessoas, mesmo cercadas por conforto, conquistas e reconhecimento, ainda carreguem dentro de si uma sensação de incompletude que nem sempre conseguem explicar.
A tradição cristã sempre compreendeu algo que o homem moderno frequentemente esquece: de que fomos criados para algo maior do que nós mesmos e que transpõe a nossa fugaz existência na Terra. Existe em cada coração humano uma sede de infinito que não pode ser plenamente saciada por bens materiais, status social ou realizações profissionais. Santo Agostinho já havia percebido essa verdade há muitos séculos, quando escreveu que nosso coração permanece inquieto enquanto não repousa em Deus e é justamente nesse conforto da alma que encontramos a forma mais elevada de felicidade, aquela que não depende das circunstâncias externas, não obstante, emerge da certeza íntima de estarmos caminhando corretamente em direção à “Luz, que alumia todo homem que vem a este mundo” (João, 1-9).
Ao longo desta jornada terrena, somos, então, chamados a percorrer muitos caminhos, alguns são concretos, feitos de estradas, trilhas e quilômetros percorridos com os próprios pés, já outros, invisíveis, desenhados no interior da essência, exigindo coragem para atravessar desertos emocionais, superar limitações e encontrar significados mais profundos para a existência. Aprendi, durante minha peregrinação pelo Caminho de Santiago de Compostela, que toda jornada exterior é, na verdade, uma metáfora de uma viagem interior e que, a cada passo, deixamos algo para trás; a cada subida, somos confrontados com nossas fragilidades e, a cada horizonte alcançado, percebemos que a verdadeira transformação não acontece na paisagem que nos cerca, todavia, dentro de nós mesmos.

Talvez por isso as experiências espirituais mais marcantes tenham algo em comum com as grandes peregrinações. Ambas nos retiram temporariamente da rotina, nos afastam das distrações habituais e nos convidam a enxergar a vida sob uma perspectiva diferente, lembrando-nos de que o importante não é tão somente chegar ao destino, contudo sermos transformados e evoluirmos durante o percurso.
Nesse contexto, a Igreja Católica continua exercendo um papel ímpar e insubstituível. Ao longo de mais de dois mil anos, ela tem preservado não apenas uma firme doutrina, mas uma experiência viva de encontro com Cristo, oferecendo ao homem caminhos de oração, comunhão, serviço e pura transcendência. Ao mesmo tempo, protege e valoriza aquela que continua sendo a célula fundamental da sociedade, a família, na qual aprendemos a amar antes mesmo de compreender o significado do amor, experimentamos os primeiros gestos de cuidado, de renúncia, de perdão e de pertencimento e onde a fé encontra terreno fértil para florescer perenemente, atravessando gerações.
Nesse contexto, estou convicto de que tenha vivido, ao lado de Aline, um dos finais de semana mais significativos e extraordinários dos últimos tempos em nossas vidas. Participamos de um encontro — a priori despretensioso — promovido pelos Campistas de Assis, movimento católico que nasceu em Presidente Prudente com a missão de evangelizar e fortalecer matrimônios e famílias por meio da convivência fraterna, da oração e da experiência comunitária, muito provavelmente inspirado na espiritualidade de São Francisco de Assis. O movimento convida homens e mulheres a redescobrirem a simplicidade e pureza do amor, a beleza da entrega e a presença concreta de Deus no cotidiano da vida individual e conjugal.
Nosso caminho, entretanto, já vinha sendo trilhado nos bancos da Capela São Lucas e enriquecido pelas Equipes de Nossa Senhora, movimento fundado pelo Padre Henri Caffarel, na França, em 1939, e que hoje reúne milhares de casais ao redor do mundo em torno de um mesmo propósito, isto é, buscar a santidade dentro do próprio matrimônio. Há poucos meses, fazemos parte dessa bela espiritualidade, aprendendo que o casamento não é apenas uma convivência entre duas pessoas, entretanto uma verdadeira vocação, um caminho de crescimento mútuo em comunidade e uma peregrinação compartilhada em direção a Deus.
Ainda assim, por mais que caminhemos, entre desvios e quedas, Deus sempre encontra maneiras de nos surpreender. E como fomos surpreendidos! Durante aqueles três dias, cercados por dezenas de casais que carregavam histórias, desafios, alegrias e cicatrizes semelhantes às nossas, fomos convidados a retirar as máscaras que normalmente utilizamos no cotidiano e a nos apresentar diante do Pai e de todos os irmãos ali presentes exatamente como somos, pecadores, frágeis, imperfeitos e necessitados de Sua graça.
Naquele lugar sagrado, na pacata cidade de Malhador, vivenciamos muitos instantes de oração intensa, de meditação em silêncio, de partilha edificante, momentos em que a presença de Nossa Senhora parecia envolver cada ambiente com uma ternura maternal difícil de traduzir em meras palavras. Houve também experiências em que o Espírito Santo parecia incendiar os corações com sua força renovadora, reacendendo a chama da fé e devolvendo sentido a muitos questionamentos que permaneciam adormecidos dentro de nós. Bem ali, em meio à natureza, olhando para minha própria história, esposa, família e para tudo aquilo que Deus havia construído ao longo dos anos, senti-me profundamente pequeno diante do Amor e, ao mesmo tempo, imensamente agraciado por Ele.
Nem sempre é confortável olhar para dentro, uma vez que também fui conduzido a um reencontro comigo mesmo, quando por vezes nos ocupamos com os defeitos alheios, poupando-nos do medo de encarar nossas próprias limitações. Somos todos, pois, obras inacabadas, pedras ainda em desbaste, constantemente trabalhadas pelas mãos amorosas e misericordiosas do Criador.
Curiosamente, essa percepção me remeteu novamente ao Caminho de Santiago de Compostela. Recordei-me de que os peregrinos não carregam apenas mochilas, mas sim culpas, arrependimentos, sonhos interrompidos, medos silenciosos e perguntas sem respostas. Com o passar dos quilômetros, porém, compreendem que a verdadeira bagagem que precisa ser deixada para trás não é aquela que pesa sobre os ombros, mas aquela que pesa sobre a alma. Talvez por isso a experiência vivida naquele encontro tenha produzido algo semelhante, sem, contudo, montanhas a escalar nem longas jornadas a pé, mas sim uma travessia interior igualmente profunda e impactante.
Pude perceber ainda, com mais clareza, que a santidade não está reservada aos grandes heróis da fé ou aos personagens extraordinários da história cristã. Ela se manifesta também nos gestos simples, no pedido sincero de perdão, na lágrima de arrependimento que escorre sobre a face vultuosa, na voz que embarga na garganta seca, na escuta atenta do cônjuge, no abraço apertado oferecido no momento certo, em ouvir cansado: “volta” e na capacidade de recomeçar quantas vezes forem necessárias.
Infelizmente, estamos vivendo tempos em que muitos casamentos se perdem não por falta de amor, mas por falta de propósito, em que casais dividem o mesmo teto, porém já não compartilham os mesmos sonhos e princípios. Famílias permanecem fisicamente próximas, mas espiritualmente distantes. Por isso mesmo é que movimentos como os Campistas de Assis, as Equipes de Nossa Senhora e tantas outras iniciativas autênticas da Igreja são tão valiosos, pois nos recordam que o matrimônio não é somente uma união entre dois seres humanos, contudo, é também uma experiência espiritual que precisa ser cultivada, protegida e constantemente alimentada pela graça divina.
Ao final daquele encontro, enquanto observava tudo o que havia vivido, compreendi que a vida talvez seja uma sucessão de peregrinações. Algumas percorremos pelas estradas do mundo; já outras, pelos caminhos invisíveis do coração, e , em ambas, o destino final importa menos do que a transformação produzida ao longo da jornada. E foi exatamente isso que aconteceu, quando me dei conta da beleza daquele instante, da presença amorosa de Deus em nossa história, da caminhada construída ao lado de Aline, da bênção que são Henrique e Osório, dos amigos que conhecemos e reencontramos, das fragilidades reconhecidas e da esperança que renascia dentro de nós, percebi limpidamente que existiam sentimentos grandes demais para serem contidos por palavras. Como um peregrino que, depois de longa caminhada, finalmente alcança um ponto elevado e contempla toda a estrada percorrida, pude enxergar com mais nitidez o quanto fui conduzido pela graça, mesmo nos momentos em que julgava caminhar sozinho. Vi os desvios que me ensinaram, as quedas que me
fortaleceram, as pessoas que Deus colocou em meu caminho e os inúmeros sinais de amor que, por vezes, passaram despercebidos pela correria da vida. Então, compreendi que algumas experiências não chegam para nos ensinar algo novo, mas para nos recordar aquilo que, no fundo, sempre soubemos: que Deus permanece presente, que a família continua sendo nosso maior patrimônio e que amar é, talvez, a mais sublime das vocações humanas.
Retorno mais uma vez para casa diferente, não porque tenha encontrado respostas definitivas para todos os desafios da vida, mas porque redescobri algo ainda mais importante: a confiança de que Deus continua conduzindo cada passo do caminho, mesmo quando não conseguimos compreender plenamente Seus desígnios.
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