quarta-feira, 10/08/2022
Diferentes, porém passíveis de conciliação Arte: Rose Garcia

SE  x  EU

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Valtênio Paes (*)

Ambas poderiam convergir como duas nascentes de águas cristalinas unindo-se num rio maior, colocando pureza no leito, apesar da poluição seguinte. Mas se encontraram numa comemoração natalina de fim de ano. Era confraternização de membros de instituição adepta das características da senhora SE. Difícil convivência? Parece! Durante horas o embate se estabeleceu.

O razoável espaço sofria com a divergência. Gritos, abraços efusivos – alguns falsos -, beijos em adultos e crianças aconteceram repetidas vezes como se não houvesse pandemia e nem amanhã. Estômagos e bocas trabalhavam freneticamente. Ela se esbaldava, parecia em êxtase.

– Ufa, a pandemia acabou, vamos nos deleitar sem limites, afinal, sou assim – disse EU.

Sem espaço, SE presenciava o domínio dela no evento.

– A pandemia acabou, vamos nos deleitar sem limites, sou assim – disse EU.

Desistiu, decidiu ir embora, foi. Mas SE volta horas depois.

– Quem é você? – pergunta EU.

– Sou SE. Visto-me de serenitas, de sereno, mansidão, doçura e suavidade. Ajudo na harmonia, paz interior e cautela. Por oportuno, quem és?

– Sou EU, trajo alegria, otimismo, exaltamento e ânimo excessivos sem me preocupar com a extemporaneidade. Vou até fora da realidade, compro nas lojas da convivência e da conveniência imediatas.

– Procuro fazer jus ao meu nome – disse SE – por isso pratico o diálogo, exercito o ouvir, a observação, o respeito às ideias novas para aprender mais.

– Nada disso me interessa. O importante é o momento, o resto se resolve depois – retrucou EU –  quase você não posta no Insta, tenho mais seguidores que você. Eis a prova que sou mais conhecido e importante, continuou.

O conflito era iminente.

Familiares inquietos com sucessivos carinhos aplicados em infantes descendentes. Atente-se que além do vírus compartilhava-se teor etílico e outros ingredientes. Gritos eram necessários para se passar uma frase entre presentes. Outros se isolavam.

– Perdão, queria bater um papo, porém não conseguimos devido o barulho – disse Z.

– Dialogar… impossível, refletir sobre o aniversariante líder do Cristianismo… impossível – retrucou T.

A prioridade era comer, beber, dançar, extravasar,  e celulares acionados a todo momento.

A cena lembrava a saída da sala de aula no momento em que a sirene tocava para o recreio, a porta ficava estreita para atender a correria da estudantada. Talvez o gol na vitória final do time futebol. Não era saída da sala na escola, nem jogo de futebol, mas era um encontro de fim ano, que possivelmente, assustara crianças e convidados ilustres.

SE, recolhida, presenciava EU vencedora, e continha-se sem entender como é possível a instituição, ser sua adepta, e praticar justamente o que EU queria.  Confortou-se, porque sempre existe a esperança para que na próxima vez a conciliação venha a acontecer, que visitantes possam perceber que o equilíbrio da convivência entre SE e EU seja o vitorioso, que o Natal produza espiritualidade e fraternidade para todas as pessoas. Apesar da agressiva poluição, as águas do rio Pau Ferro resistem, tentando se renovar a cada instante no nascedouro.

Assim, também, SE e EU podem contribuir para a coexistência harmoniosa, percebendo os limites da prima, tolerância, na família planetária do Natal.  Bom dia, boa tarde, boa noite!

– Somos Serenidade e Euforia, diferentes, porém passíveis de conciliação.

Afinal, o que é comemoração natalina mesmo?

 

(*) Valtênio Paes de Oliveira é professor, advogado, especialista em educação, doutor em Ciências Jurídicas, autor de A LDBEN Comentada -Redes Editora, Derecho Educacional en el Mercosur- Editorial Dunken e Diálogos em 1970- J Andrade.

** Esse texto é de responsabilidade exclusiva do autor.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe.

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