sexta-feira, 29/05/2020

O comportamento financeiro de homens e mulheres

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David de Andrade Rocha (*)

É de conhecimento geral que homens e mulheres têm um comportamento muito diferente quando o assunto é dinheiro. Muitas vezes esse conhecimento é empírico, mas de acordo com algumas pesquisas não é somente por aspectos de gênero que se desenvolve essa diferença.

Algumas pesquisas da psicologia e economia vem mostrando que existem de fato diferenças em como homens e mulheres lidam com o dinheiro e, principalmente como poupar  e investir. Mas lembremos que a velha crença de que a mulher é consumista e gasta todo seu dinheiro em compras é quase que um preconceito infundado, já que nesse quesito, tanto homens como mulheres, podem consumir todo seu dinheiro em compras. Logo isso está ligado mais a outros aspectos do que ao gênero.

Uma pesquisa feita em 2010 por Patti Fisher, que contou com homens e mulheres solteiros, tentava definir quais as diferenças que os dois grupos tinham em relação a poupar dinheiro, e eis um resumo do que foi concluído:

1 – Comparadas aos homens, as mulheres têm muito mais aversão ao risco.

2 – Poupam mais voltadas para objetivos de curto prazo.

3 – Têm menos tempo de estudo e patrimônio menor.

Essas conclusões merecem ser avaliadas um pouco mais a fundo, já que podem parecer simples à primeira vista, mas que em suma escondem um aspecto psicológico e social muito interessante.

A primeira conclusão é que as mulheres têm uma maior rejeição ao risco que os homens, essa é relativamente fácil de entender. Desde os primórdios os homens assumiram riscos de ir à caça de alimentos e combater inimigos no campo de batalha, enquanto as mulheres ficaram incumbidas de proteger as vilas e as crianças de ataques. Ou seja, durante muito tempo esse comportamento foi estimulado e se tornou quase inerente. Cada um cuidando de seus afazeres para que a sociedade funcionasse.

Nos dias atuais, essa lembrança faz com que os homens achem que podem assumir muito risco e as mulheres lembram de ser mais cautelosas para com suas finanças. Talvez os homens devessem se espelhar nesse comportamento, pois evitariam muita perda de capital se os fizessem.

Já a segunda conclusão leva a uma outra reflexão, lembremos que realmente só recentemente as mulheres passaram a ser também uma provedora da casa, hoje tendo famílias que são sustentadas somente pelo salário das mulheres, mas como nem sempre foi assim, a psicologia financeira explica o fato de elas pouparem mais visando o curto prazo.

Outro fato é que até bem recente na história humana quem dizia onde iria ser posto o dinheiro era o patriarca da casa, e nesse período foi ensinado às mulheres que elas deveriam gastar no curto prazo mesmo, quem deveria se preocupar com o futuro era o provedor. Agora nos tempos atuais elas também são provedores, logo passaram a se preocupar em poupar, mas ainda em médias menores que as dos homens.

Esse dois aspectos comportamentais, são interessantes de serem estudados, pois contam muito de como a sociedade pode influenciar, mesmo que indiretamente nas nossas escolhas, pois no íntimo sabemos o que a sociedade espera de homens e mulheres e em certo nível balizamos nossas escolhas nessas expectativa.

Mas a terceira conclusão da pesquisa é realmente preocupante, já que ela diz que em geral as mulheres têm menos tempo de estudo financeiro que os homens e que em geral têm patrimônio menor também.

Isso em partes tem a ver com o item anterior, no qual foi dito que quem tomava as decisões era o patriarca. Em muitos casos por ter visto esse padrão em sua própria família, as mulheres esperam que os maridos as façam, ou quando solteiras não se importam em fazer esse controle.

Por isso a educação financeira é muito importante para elas, pois ao quebrar um pouco o preconceito em lidar com suas finanças, as mulheres podem começar em geral a aumentar seu patrimônio.

Mas, o mais triste é que ainda hoje um dos culpados por fazer a mulher ter um patrimônio menor (em sua grande maioria) é o próprio sistema, pois pesquisas comprovam que as mulheres em geral ganham no Brasil o equivalente a 79% do que os homens da mesma idade e mesmo cargo.

Agora por que isso? Já que é o mesmo cargo e em média a mesma experiência, por que as mulheres ganham 21% a menos? Esse debate é extenso, mas deve ser pensado por todos.

Para agravar mais a situação, muitas mulheres deixam o trabalho e a carreira profissional, às vezes a pedido dos maridos, outras para cuidar da família e dos filhos. Essa escolha é mais comum nas classes D e E, mas ainda tem índices muito altos nas outras classes.

Nesse domingo será o dia das mães, um momento em que muitas famílias não poderão se reunir para comemorar com a matriarca da família. Nesse dia das mães reflitamos sobre como podemos mudar o quadro para criar uma sociedade mais justa e mais forte financeiramente, mas reflitamos pensando que as mulheres correspondem a mais da metade da população brasileira. Imaginemos como nosso pais se tornará forte no momento em que incentivarmos mais as mulheres a se educarem financeiramente e investirem para o longo prazo. Parece um futuro promissor.

Um abraço e um feliz dia das mães.

(*) David Rocha escreve semanalmente, às terças-feiras. Ele é assessor de investimentos e educador financeiro, que vive o mercado diariamente, desde 2011, e autor do livro Tesouro Direto – Um Caminho para a liberdade financeira de 2016.

** Esse texto é de responsabilidade exclusiva do autor.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe.
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