terça-feira, 12/05/2026
CNBB
Assembleia da CNBB Foto: Ascom/CNBB

Por uma igreja sinodal e missionária

Compartilhe:

 

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Encerra hoje a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A primeira edição aconteceu em 1953. A partir de 1967, o evento passou a ser anual. Até o ano de 1974, o local da reunião era o Centro de Estudos do Sumaré (RJ) e, posteriormente, Itaici, município de Indaiatuba (ambos, no interior do Estado de São Paulo). E, desde 2011, é sediada no Santuário Nacional de Aparecida (SP). De quatro em quatro anos, são definidas as diretrizes pastorais, ocorre a eleição de líderes da instituição e também são discutidos temas de interesse da Igreja e da sociedade brasileira.

Na 62ª Assembleia Geral da CNBB, acontece a aprovação das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE), com o foco em uma “Igreja peregrina e sinodal”. Para tanto, antes de nos debruçarmos sobre as principais decisões que irão nortear o próximo sexênio (2026-2032), precisamos compreender e refletir sobre algumas questões de ordem histórica e teológica.

Entre as muitas frases atribuídas a Tertuliano (século III), uma chama a minha atenção no que se refere aos primeiros tempos do Cristianismo: Vide, inquint, ut invicem se diligant (veja como se amam). É dessa época e à luz desta sua assertiva a origem do “sínodo”. Embora, enquanto Igreja Católica, modernamente, os chamados Sínodos dos Bispos passem a acontecer oficialmente a partir de 1965, com o papa Paulo VI, vale ressaltar que a prática já ocorria entre aqueles primeiros cristãos, na perspectiva etimológica do grego synodos (“caminhar juntos”). Muito comum na chamada Igreja Primitiva (dos primeiros tempos de Jesus, após a sua crucificação e ressurreição) – ver Atos 2,44-45; 4,32.

Seu significado atual é o de uma assembleia ou reunião eclesiástica, convocada por autoridades religiosas (como o papa ou bispos), com o objetivo de discutir, consultar e tomar decisões sobre temas doutrinários, pastorais ou administrativos. Que é diferente de Concílio, do latim concilium (assembleia, reunião), que passa, necessariamente, pela ideia e necessidade, dentro da Igreja, de se buscar conciliar algo, como fora no Concílio Vaticano II (1962-1965).

Coube ao Papa Francisco (2013-2025) a iniciativa de revisitar, teológica e pastoralmente, a ideia de sínodo da Igreja Antiga. Esta ressignificação passa pela ideia e reflexão do tipo de “Caminho que Deus espera da Igreja no terceiro milênio”. Foca na comunhão, corresponsabilidade e participação de todos os batizados na missão evangelizadora, com ênfase na escuta recíproca e no diálogo, superando lógicas autoritárias e o clericalismo. Pensamento que começou em 2021 com o Sínodo da Sinodalidade e foi amadurecido, sobretudo em documentos, em 2024, à luz da temática: “Por uma Igreja Sinodal: comunhão, participação e missão”.

No que se refere às Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) para 2026-2029, o foco é, portanto, na sinodalidade, na missão em um contexto urbano e digital, e na transformação social através da cultura da paz e da defesa da vida, tendo como pontos chave: Ação Evangelizadora (não apenas Pastoral) / Proposta, não imposição / fortalecimento das Comunidades Eclesiais Missionárias / Cultura da Paz e Defesa da Vida / e Proteção aos Vulneráveis. Entre os Caminhos da Missão: Iniciação à Vida Cristã / Comunidades de Discípulos Missionários / Liturgia e Piedade Popular / Cuidado das fragilidades: das pessoas e da Casa Comum.

Tendo a Eucaristia como fonte, os católicos são convidados a uma ação missionária concreta (missionariedade) à luz de uma Igreja Sinodal, a assumirmos uma postura apostólica e profética num tempo marcado pela injustiça social, pela polaridade e pelo egoísmo. Lutarmos para recuperar a dignidade humana que Deus nos legou na Criação e caminharmos juntos, como os primeiros discípulos e apóstolos de Jesus, somando esforços e colocando os nossos talentos em comum.

Nesse sentido e já nessa expectativa pela concretização das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, animamos a fala do Papa Francisco, em 2001, que diz:  “O Espírito nos guiará e concederá a graça de avançarmos em conjunto, de nos ouvirmos mutuamente e iniciarmos um discernimento no nosso tempo, tornando-nos solidários com as fadigas e os anseios da humanidade”.

 

Compartilhe:

Sobre Claudefranklin Monteiro

Claudefranklin Monteiro Santos
Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

Leia Também

Lua

The Dark Side of the Moon

  Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)   Em 1973, a banda Pink Floyd lançava …

WhatsApp chat