Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)
Há no livro de Gênesis, precisamente em seu capítulo 4, a conhecida passagem dos irmãos Caim e Abel, filhos de Adão e Eva. Desta história se depreenderam, ao longo dos anos, inúmeras interpretações e até mesmo equívocos, entre eles o que buscava justificar de forma “religiosa e cristã” a escravidão do homem negro africano, pois Deus ao, “amaldiçoar” Caim, o marcou. Afora isso, a própria demonização deste por ter matado o irmão, num ato de fúria.

A série “A Leste do Éden” (Netflix, 2026), baseada no romance homônimo de John Steinbeck (1952), levanta uma reflexão que nos conduz à uma teologia do perdão, que, em grande medida, nos ajuda a entender por que há tantas sedições no mundo e, notadamente, no tempo presente. Talvez as raízes disso tudo estejam não no crime de Caim, mas na rejeição que ele sofreu em razão da oferta que fez a Deus, que não lhe agradou tanto quanto a oferta de Abel.
Mas, antes de prosseguir neste raciocínio, permitam-me tecer algumas considerações sobre a referida obra/série. Como já disse, trata-se de uma adaptação para a televisão, em sete episódios, de um romance. John Steinbeck foi um escritor norte-americano que viveu entre os anos 1902 e 1968, Prêmio Nobel de Literatura em 1962. “A Leste do Éden” está entre as mais importantes de suas obras, que incluem ainda o clássico “As vinhas da ira” (1939).
A série procurou fazer um roteiro que fosse fiel ao original, cuja responsabilidade ficou a cargo de Garth Davis e Laure de Clermont-Tonnerre. Destaque para o talento interpretativo de Zoe Kazan, atriz e escritora norte-americana, 43 anos, no papel de Cathy Ames, em torno da qual gira o enredo da obra, que envolve ainda dois irmãos, Adam Trask (Christopher Abbott) e Charles Trask (Mike Faist), às voltas com os encantos maléficos que a levaram ao mundo da prostituição. Afora os seus filhos gêmeos (Caleb e Aron), que teve com Adam Trask.
Sobre a relação entre a rejeição e as contendas e dilemas que o mundo vive há anos, é importante discorrermos sobre a personagem Cathy Ames, abusada na infância e educada de forma dura e severa pelo pai, que, para a sociedade, fazia as vezes de homem bom e devoto a Deus, preso a princípios e convenções sociais. Na adolescência, Cathy mata os pais e foge de casa para um prostíbulo. A cada ano, sua personalidade só piora, a ponto sofrer graves lesões físicas por tentar passar a perna num cafetão.
Acolhida quase morta por Adam, sob a desconfiança vigilante de seu irmão Charles, Cathy conheceu o amor, mas não fez dele sua redenção. Casa-se com Adam, mas o trai com o irmão. Ao parir os gêmeos, surta e tenta matar o marido, foge e volta à “natureza original” de perversão e maldade. Ao contrário de Adam, que com ajuda do cozinheiro e sábio sino-americano Lee (Hoon Lee), tenta recomeçar a sua vida com seus filhos Caleb e Aron.
Adam, ao contrário de Charles, era o predileto do pai, Cyrus Trask (um veterano da Guerra Civil Americana), rígido e duvidoso eticamente, tendo roubado a pensão de outros veteranos de guerra, mas pousando de herói para a sociedade e para os filhos. Charles e Cathy têm em comum a mesma ideia de rejeição dos pais, o que, pela linha do livro/série, seria responsável por moldar o mau-caratismo de ambos.
Nesse mesmo movimento, estava se dando a trajetória do gêmeo Caleb, preterido por Adam em favor de Aron. Isto, até uma sequência de tragédias pessoais e familiares se abaterem por toda a família Trask, não menos diferente sobre Cathy Ames. Foi a deixa para que o perdão falasse mais alto que a rejeição, quando Caleb recebe a bênção do pai, no leito de morte, à luz da palavra hebraica “timshel” (tu podes, Gênesis 4,7):
“Se praticares o bem, sem dúvida alguma poderás reabilitar-te. Mas se procederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-te; mas, tu deverás dominá-lo.”
A bem da verdade, a grande lição da série/obra está na premissa que diz: não abandone os seus e não faça acepção deles. Sou pai de dois rebentos. Como pai, seria um erro grave e inconsequente amar mais um e desprezar o outro. Os efeitos sobre a vida deste seriam os piores possíveis, em particular se não tiveres a maturidade suficiente para lidar com isso (tu podes).
Há quinze dias de falecer, mãe de sete filhos, minha genitora me disse com abertura de alma que seu predileto era o mais velho, falecido antes dela. Não me senti rejeitado, pois sabia e me sentia amado por ela sempre e desde a tenra idade. Predileção não é um ato que rejeita. No caso dela, totalmente compreensivo por aquele filho que renunciou a tudo para cuidar dela em sua viuvez precoce. Mas, até hoje, fico pensando em como os demais irmãos administrariam aquela declaração dela.
Fato é que a rejeição é nociva, sobretudo na criação dos filhos e no convívio social. A literatura atesta isto e a vida de igual modo, seja por meio do bullying, seja pelo ato de rotular e separar. Já vimos isso, por exemplo, com a história do Patinho Feio (Hans Christian Andersen, 1843), embora o futuro do rejeitado tenha sido o de se tornar cisne. Ao contrário de Cathy e de Charles. E, nesse sentido, poderíamos mergulhar no campo da índole ou da personalidade, nem sempre por si só suficientemente esclarecedores.
“A Leste do Éden” é, portanto, um convite a refletirmos sobre isso. Sobre os perigos da rejeição. E mais, sobre a necessidade da prática da teologia do perdão. Deus, sendo misericordioso, não se agradou da oferta de Caim a fim de rejeitá-lo. Mas da forma como ele ofertou e como reagiu ao “desagrado” do Senhor. Via de regra, a teologia do perdão nos ajuda a enfrentar os demônios das rejeições diversas, sejam aquelas das quais somos vítimas, sejam aquelas que criamos procedendo mal, não dominando nossos impulsos, que muitas vezes dão protagonismo ao patinho feio que insiste em conduzir e determinar o que é rejeição ou aceitação dentro de nós.
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