Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)
A acachapante derrota do Partido Republicano nas eleições dos Estados Unidos (Congresso e Governos dos Estados) revela não somente o declínio da política desastrosa de Donald Trump, mas também uma reação mundial à ascensão da extrema direita. Ideologia que já deveria ter sido varrida da história, por tudo de ruim e de mal que ela provocou e ainda provoca. Não há para onde correr: quem com ferro fere, com ferro sempre será ferido. E mais, todos os orgulhosos, arrogantes e prepotentes têm sempre um fim triste e não poderia ter sido diferente em nosso tempo, seja no Brasil, seja nas demais partes do mundo, como já estamos a presenciar.
Arrotar poder e manter as pessoas sob o peso da opressão não é uma estratégia inteligente. Nem tampouco subestimar a capacidade de organização, força e reação dos oprimidos. O que Donald Trump fez na primeira e na sua segunda passagem pelo governo dos EUA demonstra isso. Ele coleciona uma série de aberrações jurídicas, administrativas, políticas e econômicas que colocaram não só a sua nação, mas também o mundo, numa espiral de caos. Tudo isso pelo crivo da mentira, cujo pai, no dito popular, é Satanás. Ele agora começa a ter de volta o que plantou, ficando cada vez mais desmoralizado e isolado. Com grandes chances de ir para o esgoto da história, onde residem todos os tiranos.
Ao invés de governar, às voltas com suas bravatas, Donald Trump, segundo análise de Jake Lapham (BBC News), foi responsável pelo aumento do custo de vida nos EUA, provocou uma guerra desastrosa e desnecessária contra o Irã e foi o responsável direto pela queda vertiginosa de sua popularidade; criou um mal-estar terrível com a política anti-imigração, cuja consequência direta foi a reorganização da sociedade americana, constituída por inúmeros povos que ajudaram a fomentar a nação desde seus primórdios, a exemplo de povos indígenas, afrodescendentes, latinos, europeus e asiáticos. A xenofobia de Trump foi um tiro no próprio pé.
As urnas norte-americanas deram um recado pulsante e forte. Para David Corn e Mother Jones (Agência Pública), elas deixaram uma senhora ressaca eleitoral, que irá acompanhar os últimos anos de Donald Trump à frente da presidência dos EUA, como uma assombração a cobrar a paga de seus pecados. Sem deixar de mencionar os escândalos sexuais, que podem vir à tona novamente, com mais força. Foi um verdadeiro “tsunami azul” o que vimos esta semana, que trouxe novos e alvissareiros acontecimentos em sua esteira: a eleição da primeira governadora negra da Geórgia (Keisha Lance Bottoms); a eleição do jovem Talarico (37 anos), o primeiro democrata eleito para o Senado dos EUA pelo Texas, em 38 anos, e o primeiro democrata eleito em uma disputa estadual desde 1994; o estado de Kansas não elegia um democrata para o Senado havia quase 100 anos; em Michigan, El-Sayed se torna primeiro muçulmano eleito para o Senado dos EUA; a democrata Peggy Flanagan (47 anos), foi a primeira mulher indígena eleita para o Senado; e o democrata Chris Pappas se tornou o primeiro homem, abertamente gay, eleito para o Senado.
O mais importante disso tudo é saber que o Brasil acabou tendo um certo protagonismo nessa virada azul dos EUA. A histórica reeleição de Lula para seu quarto mandato e tudo o que foi feito para que isso fosse possível (força e reação popular democrática) se tornaram ingredientes para as eleições de meio de mandato dos norte-americanos. Foram inúmeras as manifestações nesse sentido. Os ventos das liberdades democráticas soprados no nosso país pegaram Donald Trump e toda a sua laia de jeito. E imaginar que eles (essa gente torpe e gananciosa) ousaram interferir nas nossas eleições com toda a força econômica e política que têm e não lograram êxito. Isto é realmente muito animador para quem sonha com um mundo melhor, sem prepotentes e mentirosos assumindo a responsabilidade de governar povos e nações.
Enquanto não chegam as eleições presidenciais nos EUA, fico aqui de camarote a testemunhar a queda de mais um que imaginava que podia tudo, que tinha poder sobre os destinos das pessoas, que achava que governar era submeter, humilhar, apartar, eliminar, ferir, diminuir. Que a máxima de Spinoza (1632-1677) seja, enfim, superada: “O povo conseguiu muitas vezes trocar tiranos, mas nunca os suprimir”. Talvez porque a força do inseticida precise ser suficientemente forte para evitar que novos tiranos se criem, educando melhor nossos filhos e lhes dando dignidade e perspectiva de futuro promissor. Uma vez que os canalhas nascem com o caos e se desenvolvem com a mentira.
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