“O que sei eu?”
Michel de Montaigne
Duma vez por todas, desisto. Não por falta de tentativas, e foram muitas, mesmo. Talvez miríades. Tentei, insisti… Debalde…
E aí, IA? Qualé a sua?
Busquei valer-me da Inteligência Artificial para produzir poemas, contos, ensaios… Contudo, a contradizer, de boas, sem arrogância, o geórgico Virgílio [ou sua virgiliana “egestas”], não venci a pretensa urgente necessidade.
Eis-me, portanto, mísero estulto: sem capacidade de fazer com que o cérebro eletrônico trabalhe para mim, poupando-me [sou idoso] as idas e vindas constantes às prateleiras da biblioteca e o geriátrico incômodo na munheca de tanto escrever a lápis…

Não que à máquina de escrever virtual falte agilidade e estoque de termos. A cabrunquenta é rápida e sortida, sem dúvidas. Dá-me impressão de ter ciência de tudo. Parece, caso não esteja eu a delirar, responder antes mesmo que a questão apresentada o seja por completo.
Porém, sensação/intuição pessoal, dá-se um vácuo entre as perfeitas construções frasais. Sinto falta daquela linha medular kantiana que alinha isto com aquilo. Até mesmo a aparente densidade de soa porosa.
Admito que há forma e lógica… Ora, que bobagem digo, tem de haver uma e outra, evidentemente. Sinto, todavia, que há cheiro de shopping center e falta odor de fisiologia textual, vale dizer, falta o odor, sem mitificação, diga-se de passagem, das folhas marrom-amareladas que cobrem a terra úmida; do limo a revestir muro de oitão, da rolha duma garrafa de vinho recentemente extraída, das indeléveis manchas à guisa de assinaturas sobre balcão do velho e sobrevivente boteco. Divago? Quiçá…
Cheiros ácidos, gordurosos, ar pantanoso… Nada de escatologia, bem entendido. A este artifício manifesto, há muito, repulsa. Digo, sim, sobre a (de)composição orgânica vegetal ou cheiro de cozinha, ou às variantes cores do solo, como bem descreveu Saramago. Poderia acrescentar os odores da Cannery Row descritos por Steinbeck. Ou seja, falta ao texto “iático” algo da aura benjaminiana — o hic et nunc da obra de arte ou de uma cena cotidiana.
Sinto falta da dúvida, da incerteza, da ansiedade que permanecem no escritor ao concluir estrofe ou capítulo; da mão que treme ao escrever as primeiras palavras.
Os textos produzidos por IA talvez sejam, aos olhos desta acéfala geração, algo brilhante, sedutor. Afinal, “facilita tudo”. A mim jaz, diante do meu escondido, guardado, eu lírico, apenas um espelho cego. É como, (i) moralmente, transitar por uma Grub Street hodierna.
Pergunto-me, então: se a ferramenta que me poupa o esforço, não me rouba também o caminho. As prateleiras empoeiradas, os livros abertos, por vezes, ao acaso, são sendas, lombadas mais adiante são faróis.
Aquela frase esquecida, a qual reencontramos ao virar página — tudo isso é parte do saber, do ver, do dizer. Ao evitar o andar até as prateleiras, evito, infelizmente, repensar, refletir, aprender, reaver, caminhar.
Opto, pois, por cultivar minha estultícia ante dados digitais, se assim se pode considerar — lançarei outros e jogarei, com eles, casualmente com Mallarmé.
Prefiro o livro que me desafia. Busco a frase que exige longo tempo para ser compreendida. Corro cansados olhos e corpo ao longo das fileiras.
Ah, admito: idoso, semi-senil, já não sou tão rápido. Contudo, ao menos, sou eu a ler, criar e escrever. E talvez seja essa, afinal, a única sabedoria que de verdade se tem, isto é, reconhecer que, em matéria de espírito, nenhuma máquina pode substituir o homem — nem mesmo este homem, que, lento e cansado, ainda insiste em escrever à mão, a marcar bordas em torno de manchas gráficas, a apoiar o livro aberto, dorso entre o indicador e o polegar em oposição.
Só Sergipe Notícias de Sergipe levadas a sério.


