Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)
Dias corridos, açambarcados de afazeres. Compromissos prementes e urgentes. Tudo para ontem. Tudo inadiável. Vida vivida das sobras do tempo. Tempo que não presta atenção a nada. Segue impávido, ziguezagueando na areia movediça da existência.
Tudo o que vive, vive contra o relógio. A célula que se divide, o corpo que se move, o pensamento que se forma, tudo isso acontece dentro de um prazo, e o prazo, por definição, é o caminho inescapável da libitina. O homem é, entre todos os seres, o único que sabe disso enquanto vive, o único que carrega, desde a infância, a certeza fria de que um dia deixará de existir, e é justamente dessa certeza insuportável que nasce o gesto mais estranho e mais singular da espécie humana, o existir.
Desde que nascemos, somos regidos pelas horas do relógio, pelo calendário, que nos delimita: dias, semanas, meses, anos. O tempo é criação de Deus; as horas, invenção dos homens. Somos regidos pelo calendário gregoriano, que se baseia no modelo solar criado em 1582 pelo Papa Gregório XIII para organizar os dias, os meses e os anos com base no movimento da Terra ao redor do Sol.
Das horas convencionadas não escapamos. Tudo cronometrado. Tudo fugidio. Tudo fugaz. Basta seguir o script e seguir em frente.
“A vida é o dever que trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é Natal…
Quando se vê, já terminou o ano…”,
cito o poeta gaúcho, Mário Quintana.
Logo cedo ele enviou uma mensagem para ela: “Vem estar comigo, não faremos amor. Ele nos fará”. Ele acendeu a chama dela.
Mesmo corridos, eles se permitiram um tempo só para si.
Adiaram compromissos, desmarcaram urgências, fecharam agendas. Desligaram celulares. Estavam a sós com seus desejos, suas libidos, sua sexualidade, a compartilharem momentos únicos e especiais.
Entre um afazer e outro, uma reunião e outra, entre um evento e outro, finalmente, encontraram um tempo só para eles. Despiram-se de seus títulos, dos cargos que ocupam, das preocupações prementes. Nus, aproveitaram-na e degustaram as delícias de estarem vivos e bolinho. Bolinho e bolinando um ao outro, na descoberta magistral que seus corpos lhes oferecem. Cada gesto, uma descoberta. Com uma coreografia dos que perscrutam novas experiências. Corpos que aprenderam, com o tempo, a dar-se prazeres. Não havia palavras, somente sussurros. Uivos de gozos intensos. Conectados, se entregaram ao prazer selvagem. A geografia humana é um campo vasto de aprendizados e descobertas.
Ela, inteira, sensual, não se preocupou em desnudar-se para ele. Entrega total: ao ato, ao momento, sem olhar para o relógio, alheia ao calendário. Nada de afazeres. O instante exigia fazeres, entrega plena.
Ele, inteiro, feliz, maravilhado em presenciá-la chegar ao nirvana.
Suados, ofegantes, plenos, felizes, deitados lado a lado, eram animais saciados.
“Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava para o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está à sua frente e diria que o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará”, retorno a Mário Quintana em “Tempo”.
“Aprendi que o tempo não leva tudo. Ele deixa algumas coisas: um cheiro, uma palavra, um olhar, que ficou na memória. E é com isso que seguimos em frente “, diz Clarice Lispector.
Quão bom é sentir a delícia das coisas mais simples, coisas que dependem apenas de nós. Bem-aventurado é todo aquele que encontra tempo para se dar prazer.
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