segunda-feira, 27/01/2020
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Danielle Garcia, filiada ao Cidadania, com Alessandro Vieira e Dr. Emerson Foto: assessoria

Danielle Garcia: “ninguém me dá uma missão para eu não querer fazer o melhor de mim”

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“Ninguém me dá uma missão para eu não querer fazer o melhor de mim.” É com essa disposição que a delegada da Polícia Civil de Sergipe, Danielle Garcia, 42 anos, se filiou, esta semana, ao Cidadania, partido liderado pelo senador Alessandro Vieira. A filiação que, inicialmente, estava prevista para janeiro de 2020, aconteceu na sexta-feira, porque Danielle veio de Brasília para Aracaju para uma audiência da 4ª Vara Criminal, que ocorreu na quinta. Mesmo antes da filiação, o nome da Danielle, que durante nove anos coordenou o Deotap (Departamento de Combate ao Crime Tributário e Administração Pública), já apareceu nas redes sociais como candidata a prefeita de Aracaju.

Danielle assinando a filiação ao Cidadania

Cautelosa, ela diz que tudo depende das pesquisas internas do partido, por isso, tanto pode ser candidata a prefeita ou vereadora.  Ela vai se preparar para disputar qualquer um dos cargos. “Tudo isso começa pelo estudo, pela pesquisa, conhecendo a Câmara e a Prefeitura”, frisou. Mas a delegada já sabe, por exemplo, como ocorreram alguns contratos nestes dois poderes, tanto que desencadeou duas operações quando estava à frente do Deotap: a Indenizar-SE, no início de 2016, investigando crimes de sonegação fiscal, peculato e lavagem de dinheiro, na Câmara Municipal; e a Venal, que apurou fraudes no pagamento do Imposto sobre Propriedade Predial e Territorial Urbano (IPTU).

Com as operações, políticos e empresários foram parar na cadeia, o que desagradou o então governador Jackson Barreto que a exonerou do cargo, provocando uma fissura na Secretaria de Segurança Pública. E o feitiço virou contra o feiticeiro, pois Jackson acabou maculando a própria imagem, dando a impressão do seu não compromisso pelo combate à corrupção. E pagou caro por isso.  Começava aí, o seu ocaso político: ele  perdeu a vaga no Senado para Alessandro Vieira que, como chefe da Polícia Civil, à época, pediu exoneração do cargo sendo solidário a Danielle Garcia.

A  forma como Danielle foi defenestrada da Deotap não agradou a população que passou a solicitar que ela disputasse um cargo nas eleições, em  2018. Mas ela disse que, naquela ocasião não se sentia preparada para a política, mas sim, para continuar sendo delegada.  Estava e foi mandada de uma delegacia sem expressão, mas sempre se destacou positivamente onde esteve. Depois, houve um convite do ministro da Justiça, Sérgio Moro, para integrar a equipe dele e ela aceitou.  Agora, ela garante que  chegou o momento de cuidar de política. Por isso, em janeiro, deixará o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional da Secretaria Nacional de Justiça, e retornará definitivamente para Aracaju.

No sábado, pouco antes de viajar para Brasília para retomar o trabalho na segunda-feira, Danielle Garcia falou com exclusividade com o Só Sergipe.

SÓ SERGIPE – Em declarações na imprensa, a senhora dizia que “do fundo do coração gosta mesmo é de ser delegada”, e em 2018 não se candidatou porque não quis. O que mudou agora, já que esta semana se filiou ao Cidadania, liderado pelo senador Alessandro Vieira, e seu nome já  é cotado para ser candidata a prefeita de Aracaju?

DANIELLE GARCIA – Na verdade, procuro ser muito coerente nas minhas coisas. Antes de vir para Aracaju, eu procurei o general Guilherme Teophilo, secretário da Senasp, e informei que iria me filiar a um partido político. Sei da incompatibilidade disso no trabalho que exerço no Ministério da Justiça.  Vim para audiência, na quinta-feira, e aproveitamos para fazer a filiação.  A coisa que mais me tocou é que no Ministério da Justiça fazemos um trabalho super motivador, tenho contato com pessoas que participam de investigações complexas, viajei o Brasil coordenando cursos. Minha inquietação é que esse trabalho no ministério é voltado para o Brasil, mas pouco para Sergipe, um grão de areia nesse universo.  Embora seja extremamente gratificante, foi uma experiência espetacular. E minha perspectiva como policial em Sergipe é muito pequena: é trabalhar na Barra dos Coqueiros, depois ser transferida para a 3ª Delegacia Metropolitana, depois São Cristóvão, etc. Passei 18 anos na polícia me especializando no combate à corrupção, minha capacidade de fazer algo por Sergipe, em Brasília, é quase zero.

SS – E o amor à profissão de delegada?

DG – Continuo tendo e muito, mas para isso preciso ter oportunidade de trabalhar. Outra coisa que me inquietava muito em Brasília, era a saudade de atuar em investigações. O meu chefe, um delegado de Polícia Federal aposentado, dizia que sentia o mesmo. Eu não posso ser delegada em Sergipe da forma que eu gostaria. Como três meses que eu era delegada na Barra dos Coqueiros, quiseram me tirar de lá e eu tive que brigar. E isso cansa um pouco, porque acham que sou a delegada chata. Eu quero é trabalhar em paz. Ninguém consegue ser bom delegado só por três meses em um lugar. E quando eu consegui ficar na Barra, estava super-realizada. Consegui reduzir violência doméstica, reduzimos roubo de celular, que era um absurdo. Não tenho satisfação pessoal de prender A ou B. Minha satisfação na Deotap era muito grande, pois eu sabia que nossas investigações alcançavam, mesmo que silenciosamente, um número incontável de pessoas. E quando veio o convite de Moro para trabalhar em Brasília, foi irrecusável. Todos deveriam ter esse convite. É um mundo à parte: os sistemas que eles utilizam na União estão a anos luz à frente de nós aqui. Só que chegou aquele tempo e me perguntei: o que posso fazer por Sergipe daqui? Pouco.

SS – E agora, já aqui em Sergipe e filiada ao Cidadania?

Danielle na mira dos corruptos na Deotap

DG – Há dois anos foi uma confusão e muitos queriam que eu me filiasse a um partido e me candidatasse. Eu fui pega de surpresa. Saímos da Secretaria de Segurança Pública – eu, Alessandro e João Batista.  Alessandro era filiado a Rede há um ano e estava no Renova BR. Ele vinha se preparando e eu não. Não esperava essa repercussão toda com minha saída da Deotap, e, óbvio, me deixou muito feliz o reconhecimento. O que eu mais dizia é que eu não  me sentia preparada para participar de um pleito, mas para trabalhar como delegada. O tempo passou, e aquela semente plantada lá atrás foi me fazendo ter vontade de participar. Em Brasília, pouco posso fazer pelo meu Estado, e voltando para Sergipe, trabalhando como delegada, com essa turma que está aí, teria pouco ou nenhum espaço. Então, decidi participar. O plano: volto em janeiro para Aracaju e tudo vai depender do que as pesquisas disserem: se candidata a prefeita ou a vereadora. Se nas nossas pesquisas Emília Côrrea for a primeira colocada, a candidata será ela, sem nenhum problema. E se for Danielle ou Dr. Emerson, também. Estamos conversando há meses sobre o assunto. Eu acabei me convencendo que deveria me filiar e agora, com calma, vamos estudar o que é melhor. Posso me preparar, entender como funciona o município e a Câmara Municipal. Ninguém me dá uma missão para eu não querer fazer o melhor de mim. Isso começa pelo estudo,  pela pesquisa.

SS – A senhora citou a Câmara Municipal e hoje ela está na berlinda, porque os vereadores aumentaram os próprios salários, enquanto que os servidores não têm reajuste há três anos.

DG – O nosso grupo decidiu que vai bater pesado contra isso, inclusive ajuizar ação ou conseguir o número de assinaturas necessárias para que esse aumento seja vetado pelo prefeito.

SS – Danielle Garcia será contundente? Lembro de uma frase marcante sua: ‘o sopro de renovação que cruzou o Brasil, não chegou a Sergipe’. A senhora e seu grupo podem ser esse sopro de renovação?

DG – Eu não tenho dúvida disso. A renovação só não está em quem se mantém no poder há mais de  20 anos. São 24 anos deste mesmo grupo no poder. Nossa cidade é interessante: está recapeando o asfalto, no último ano de gestão, praticamente, e com verba federal do ex-deputado federal André Moura. O que o prefeito efetivamente fez? É fácil fazer obra com o dinheiro que vem da União, de emendas parlamentares, e dizer que é um trabalho seu. Óbvio que não foi. Alguém que tinha interesse, naquele momento, de se eleger senador e precisava de alguma forma, da visibilidade da capital, achou por bem enviar esses recursos. As pessoas não são cegas e estão vendo tudo isso. Se renovação não for o nosso grupo, sinceramente, não entendo mais o que venha a ser renovação. Só não pode ser quem está aí há mais de 20 anos.

SS – Seu grupo vem de uma luta no combate à corrupção. Alessandro surpreendeu nas urnas. Quando foi anunciada a sua filiação houve muita aprovação. 

DG – Imaginemos que eu saia candidata a prefeita. Pelo espírito de delegada de polícia que eu tenho, fico imaginando auditando os contratos da prefeitura, não deixando que contratos superfaturados continuem desviando dinheiro público. Trabalhar com lisura, legalidade, ética. Às vezes, a coisa é legal, mas não é moral. Exemplo: esse aumento nos salários dos vereadores e do prefeito é legal, mas será que é moral, enquanto a maioria está sem reajuste há anos?  Minha felicidade, depois que me filiei, é imaginar que, de alguma forma, eu vou poder voltar a ser aquela delegada atuante do passado. É óbvio que, como gestora, se assim for, poderei zelar pelos contratos que envolvem milhões de reais. Agir mal com esse recursos é prejudicar a população. É como se eu estivesse resgatando a minha atuação de delegada, só que agora em outro patamar.

Danielle, na tribuna

SS – Já há especulações na imprensa, até mesmo do futuro secretariado: a senhora prefeita; Milton Andrade, secretário municipal de fazenda; e Dr. Emerson Ferreira, secretário de saúde. Será que esse é o discurso do ‘já ganhou’?

DG – Parece isso. Mas quem compôs o nosso secretariado não fomos nós, mas a imprensa e a oposição.  Tivemos apenas um ato de filiação e olhe o burburinho que isso causou na cidade! Recebi muitas mensagens de pessoas que não tenho nenhum contato. Nós ainda não definimos se eu serei candidata. Se na pesquisa indicar que o nome melhor é o de Emília Correa, será ela. Queremos que alguém do nosso grupo vença essa eleição. Se o nome for de Emília para prefeita, eu saio candidata a vereadora. Nem sei se serei candidata a prefeita  e já estão montando nosso secretariado. É uma loucura isso. Tudo é reflexo do impacto que causou, pois ninguém esperava que eu viesse para Aracaju essa semana. Estava tudo muito tranquilo, tudo certo. A reeleição de Edvaldo Nogueira dada como certa, imbatível. Quem iria fazer oposição a Edvaldo? Talvez eu ou alguém do nosso grupo. Conhecemos a fundo a prática dessa gestão, especialmente eu, pois tive oportunidade de investigar muitos contratos e sei o que está errado e o que está certo.

SS – Se especulou o fato de Emília Correa não ter ido a entrevista na Jovem Pan, quando foi anunciada sua filiação ao Cidadania. O que ocorreu?

DG- É intriga. Essa votação do aumento de salários, quinta-feira, na Câmara, foi até quase meia-noite. Quando chegou em casa, Emília mandou mensagem no grupo de WhatsApp dizendo que não tinha a menor condição de estar na rádio Jovem Pan às seis da manhã. E no dia da filiação, ela teve audiência de custódia pela Defensoria Pública. Ela gravou um vídeo dizendo da felicidade dela em ter minha filiação. E outra coisa: minha vinda para cá não estava prevista, pois eu só viria no Natal. Mas eu fui convocada para uma audiência na quinta-feira, na 4ª Vara Criminal, aí eu conversei com Alessandro de que estava vindo. Minha filiação ao Cidadania só ocorreria em janeiro. E ele sugeriu fazer a filiação logo, por isso Emília não teve como ajustar a agenda dela.  Estamos super unidos.

SS – Como será sua atuação?

DG – Já que decidi enveredar pela política, minha forma de atuação será exatamente igual de quando eu atuava como delegada. Firme, contundente, sem medo de todas as ameaças que virão, muito menos das fake news que vão criar. Eu consigo, pela minha fala, passar muita verdade. Não sei nem mentir. Serei sempre muito verdadeira, como sempre fui. E acho que é uma mistura bastante interessante para política. Temos a falta de verdade na política atual, sempre há um interesse por trás. Eu tenho minha profissão. Se der tudo errado, volto a ser delegada de polícia. O general já me disse que as portas continuam abertas para mim em Brasília e fico muito feliz, porque é fruto do trabalho que venho desenvolvendo. Se eu fosse, apenas mais uma, certamente as portas não estariam abertas.

 

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