quarta-feira, 08/04/2020

A metáfora dos três baldes de ouro

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David de Andrade Rocha (*)

Há certo tempo vi uma metáfora sobre educação financeira que resume facilmente a aparente dificuldade de poupar dinheiro. Lembrando que quando falo aqui sobre poupar não me refiro a alocar o recurso na poupança, mas sim a manter parte do dinheiro que chega em nossas mãos.

A metáfora “O segredo dos baldes de ouro, de Mark Ford, diz o seguinte:

“Imagine um poço com três baldes de ouro logo a sua frente. O primeiro é identificado como Gastos, o segundo como Poupança e o terceiro como Investimentos. Há uma mensagem no poço que desafia você a tentar a sorte em um jogo. Para vencer, você tem que encher todos os três baldes até a borda. Parece ser algo fácil, mas há dois problemas. O primeiro é que o poço vai lhe fornecer água por um tempo determinado. O segundo problema é que, se olhar de perto para o balde marcado como Gastos, você percebe que há um furo considerável na lateral baixa.”

Mark Ford, autor da metáfora dos Três baldes de ouro

Essa simples metáfora é impressionante quando pensamos sobre nossas finanças. Imaginemos que o poço é nossa renda ativa, ou seja, renda de nosso trabalho e que em determinado momento em nossas vidas irá deixar de existir. Para vencer o jogo temos que encher os baldes de Poupança e Investimento, para que esses supram a ausência da renda no futuro.  Mas aí, temos o balde dos Gastos e para piorar ele tem um furo que podemos chamar de contas a pagar.

Para vencer esse jogo temos que ser muito perspicazes, já que a depender de nossos gastos e dos compromissos assumidos, não teremos muito da renda para poupar e investir. Então, o que poderíamos fazer?

O autor da metáfora dá a resposta e ela é sensacional quando lembramos de como sempre esteve ao nosso alcance. A resposta para o desafio é Simplificar.

Sim, isso mesmo, apenas simplificar.

Gustavo Cerbasi, outro autor muito respeitado quando se trata de educação financeira, diz muitas vezes em seus livros que para alcançarmos a independência, devemos hoje, viver um degrau abaixo das possibilidades de nossa renda ativa, e usar o que economizarmos para investir.

Já no livro O homem mais rico da Babilônia, o autor G.S. Clayson  deixa claro como foi a disciplina de Arkad (personagem principal do livro) ao poupar mensalmente 10% de sua renda, mesmo  antes de pagar qualquer coisa, e assim se tornar, em alguns anos, o homem mais rico da Babilônia.

Podemos ver que os autores conceituados na área de finanças pessoais, em alguma medida, deixam claro que devemos poupar ao menos 10% de nossa renda mensal. E é claro que só conseguimos isso simplificando nosso modelo de vida.

Para muitos, parece que poupar 10% ou mais de sua renda é algo deveras impossível, já que devido a cobranças sociais e profissionais, muitas vezes as pessoas têm receio de parecer desatualizadas e vivem normalmente com gastos acima de sua renda, o que só aumenta o rombo no balde de Gastos, pois dependem de renda futura para quitar isso.

Muitas vezes nossas profissões e amigos nos fazem crer que precisamos de bastantes coisas de luxo. A propaganda e a mídia estão aí para encher nossos olhos de desejos,  e diversas vezes caímos em suas armadilhas e gastamos por impulso.

Para evitar isso recomendo a leitura do seguinte texto: Você tem lista de desejos ou de metas para sua vida financeira em 2020?

Mas devemos lembrar que simplificar nosso estilo de vida não necessariamente precisa estar associado a andar com coisas velhas e passar necessidades. O simplificar tem sentido se se consumir conscientemente. Se assim o fizermos já estamos muito bem.

Por exemplo:

A família de uma pessoa pode ser muito feliz em uma casa de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) ou em uma de R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais). Um carro de R$ 40.000,00 (quarenta mil reais)  leva alguém aos mesmos lugares que um carro que custe dez vezes mais.

Claro que os exemplos do parágrafo anterior são ilustrativos, mas eles mostram  que se escolhermos aquilo de que realmente necessitamos, conseguimos chegar a um estilo de vida mais barato e assim atingirmos mais fácil a liberdade financeira. Lembrndo que não é somente o comprar o item mais caro que impacta nossos gastos, mas sim o fato de que junto a ele vem impostos mais caros e manutenção mais cara também.

Veja que os exemplos acima foram citados apenas dois itens: casa e carro. Agora imagine se levarmos esse excesso de gastos de 10 vezes mais para todos os itens que usamos. Por exemplo, comprando marcas mais caras de roupas (apenas para servir de garoto propaganda para elas e ainda pagando por isso), marcas mais caras de alimentos e assim por diante.

Claro que muitas vezes gostamos de um item de uma marca, mas não custa, às vezes, dar chance para uma nova e bem mais barata. Vai que além de se surpreender com a qualidade, você economize uns trocados, que no final podem vir a ser muito mais dinheiro no seu bolso!

Ao deixarmos de gastar dinheiro desnecessariamente, diminuímos aquele rombo nos nossos baldes de Gastos e passamos a poder poupar e nos preparar para investir corretamente, e assim atingir nossa liberdade financeira.

Para concluir, podemos passar nossos gastos em revista e ver onde podemos diminuir (não falo de cortar, isso seria um segundo passo) e poupar essa diferença. Mas falaremos de poupar mais profundamente no futuro.

(*) David Rocha escreve semanalmente, às terças-feiras. Ele é assessor de investimentos e educador financeiro, que vive o mercado diariamente, desde 2011, e autor do livro Tesouro Direto – Um Caminho para a liberdade financeira de 2016.

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