domingo, 28/01/2024
Muitas doutrinas orientam para termos cuidado com as nossas palavras Imagem: Freepik

Somos senhores e escravos das nossas palavras

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Nilton Santana (*)

 

A Sabedoria perpassa diversos povos porque todos os seres humanos atravessam sempre os mesmos estágios da vida. Todo ser humano será criança, jovem, adulto e idoso. Por este motivo, existem ensinamentos que perpassam diferentes povos. Algumas questões que inquietam as pessoas hoje são as mesmas que inquietaram os seres humanos séculos atrás: maturidade, ressentimento, gratidão, orgulho, humildade, bondade, e outros temas, são recorrentes na humanidade. Aquilo que perpassa os povos recebe diferentes nomes: uns chamam de Sabedoria, outros chamam de Tradição. Há quem diga que a Tradição, com T maiúsculo mesmo, sempre estará presente em diversas doutrinas. Muitas doutrinas orientam para termos cuidado com as nossas palavras[1].

No Nahjul Balaghah, importante livro do islamismo xiita, temos: “As palavras estarão sob o vosso controle até que as proferirdes, mas quando tiverdes proferido, estareis sob o controle delas”. Cito também o sacerdote jesuíta Baltasar Gracián[2]: “Sempre há tempo para proferir uma palavra, mas não para fazê-lo voltar.”

Em ambos vemos que se deve dedicar atenção para o que sai de nossas bocas. É de extrema pertinência também o fato de que somos os senhores e escravos das nossas palavras. Senhores porque antes de falar, podemos escolher as nossas palavras. Escravos porque depois que dissermos as palavras, somos aprisionados pelas suas consequências, sejam elas boas ou ruins. Aquele que muito fala acaba se tornando refém e vítima de suas próprias palavras. Aquele que escolhe bem as suas palavras torna-se senhor das recompensas de sua sabedoria. As palavras do sábio trazem benesses para si e para aqueles que o escutam.

A Bíblia – coletânea de livros do cristianismo – possui uma verdadeira fartura de admoestações sobre o que é proferido por nós. Em Provérbios temos: “Morte e vida estão em poder da língua, aqueles que a escolhem comerão do seu fruto.” A língua poderá espalhar morte ou espalhar vida, e colheremos o fruto obrigatório da nossa colheita opcional.

Portanto, refrear a língua, vigiar lábios é a missão do sábio. Na epístola de Tiago diz: “Aquele que não peca no falar é realmente homem perfeito, capaz de refrear todo o corpo.” Em seguida há várias comparações que nos levam a compreender o domínio da língua: O cavalo é dirigido pela sua boca, assim também nós somos. O navio é conduzido por um pequeno leme, e o homem é conduzido pela sua língua que é uma pequena, porém importante, parte do corpo[3].

A língua é em si uma ferramenta que poderá ser usada para o mal ou para o bem. Em Provérbios diz que a língua poderá ser usada para ferir ou curar: “Há quem tenha a língua como espada, mas a língua dos Sábios cura.”

Mas como devemos refrear a nossa língua? Se uma pessoa está cheia de ressentimentos será difícil refrear a sua língua. Da mesma forma que se uma pessoa estiver repleta de gratidão dentro de si, a sua língua irá testemunhar o que há em seu interior. Não há como esconder algo que ronda o nosso interior. Você é sempre tomado por aquilo que habita em sua casa. Cuide do seu interior, é a sua primeira casa!

No Nahjul Balaghah temos dois ditos: “Sempre que uma pessoa oculta algo em seu coração, isso se manifesta através das palavras fortuitas de sua língua e das expressões do seu semblante.” E também: “O homem se esconde sob sua língua”.

Tal mensagem casa perfeitamente com as citações dos Evangelhos ao estar escrito que “a boca fala daquilo de que o coração está cheio.” Ou ainda: “Pelos seus frutos os conhecereis.”

Para sermos mais sábios devemos estar atentos para o que está morando em nosso íntimo. O que você tem alimentado dentro de você? O que você alimenta poderá te tornar uma pessoa tola ou uma pessoa sábia.

Referências:

BÍBLIA – Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito – Entrevistas com Bill Moyers. São Paulo:Editora

Palas Athena, 1990.

GRACIÁN, Baltasar. A Arte da Prudência. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2006.

GUÉNON, René. A Crise do Mundo Moderno. Criciúma: Convivivm Editorial, 2021.

TALEB, Iman Ali ibn abi. Nahjul Balaghah, o método da eloquência. O Príncipe dos Fiéis Iman Ali ibn abi Taleb. Tradução: Samir El-Hayek. 2ª Ed. São Paulo: Centro Islâmico no Brasil, 2010.

[1] Aqui eu cito o Campbell em O Poder do Mito e o René Guénon em A Crise do Mundo Moderno. Recomendo a leitura de ambos os livros.

[2] Baltasar Gracián possui os seus aforismos no livro A Arte da Prudência.

[3] Na Bíblia a maior parte das citações observadas nesta pesquisa estão em Tiago e em Provérbios.

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Sobre Nilton Santana

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Nascido em Aracaju, professor de História, membro da Loja Estrela de Davi e amante dos estudos sobre religiosidades e mitologia

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