quarta-feira, 19/06/2024

Resposta à pergunta: Qual a fronteira entre o negacionismo e o conservadorismo?

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Por Marcus Éverson Santos (*)

 

Conservadorismo é, antes de tudo, uma postura moral e psicológica fundada na valorização da tradição, isto é, no que se mostrou perene e resistiu ao trabalho do tempo. Tal postura de valorização preocupa-se não só em preservar, mas também em transmitir às gerações futuras as conquistas e realizações do passado, um guia para que as mudanças sociais se sustentem em valores sólidos. Um conservador não é contra as mudanças como costumeiramente se diz, ao invés disso, entende que quaisquer que sejam elas jamais devemos esquecer o que se mostrou ser verdadeiro e imorredouro tanto na escala do tempo quanto a experiência humana nos permitiu conhecer concretamente. Assim, o respeito ao chão da realidade e a dúvida cética são os principais sustentáculos da postura moral e psicológica do conservadorismo.

Por ocasião da polarização política presente em todo o mundo, também aqui em nossa terra brasilis, dando conta que, no debate público, a postura conservadora tem saído do gueto e confrontado ideias que se mostraram frágeis ao teste do tempo – acuada com o crescimento do movimento conservador em todo o mundo -, a New Left tem usado uma sutil estratégia para interditar o debate público sem que pareça ser censura:  acusar qualquer opinião divergente de ser “negacionista”. Subjaz em tal estratégia um forte apelo às emoções (sistema límbico) do interlocutor para que o mesmo esqueça uso da lógica argumentativa e avance rumo ao abismo das emoções.

Com isso, ao chamar qualquer debatedor de “negacionista”, os correligionários da New Left encontraram uma maneira de provocar esquiva ou ataque por parte do interlocutor alvo. Acusar conservadores de “negacionista” alcançou o mesmo status provocativo que chamá-los de “terraplanistas”, “nazistas e “fascista”. Quando, por vezes, recebem uma resposta à altura da provocação saem acusando os conservadores de promoverem “discurso de ódio”.

Há uma ordem do discurso hegemônico enraizado nos espaços de poder que, tanto no Brasil quanto no mundo, estão em guerra híbrida contra tudo aquilo que a New Left construiu ao longo de décadas. A guerra é para silenciar qualquer discussão ou opinião que escape de suas teses. Criminalizando e interditando o importante trabalho da dialética, recurso moral e psicologicamente saudável em qualquer democracia, a imposição monológica de uma única visão de mundo beira o totalitarismo.

Para fazer com que correligionários da New Left provem do próprio veneno serei parcimonioso em concordar com o “incorrigível” Michael de Foucault quando, em seu livro “A ordem do discurso”, analisa a relação entre poder e discurso na sociedade. Publicado por volta do ano de 1971, reunindo palestras que proferiu no Collége de France, o “garoto propaganda” mais famosinho da New Left argumentava que o discurso não é apenas uma forma de expressar ideias ou transmitir informações, mas também de exercer poder e controle sobre os indivíduos. Para Foucault, o discurso jamais pode ser visto como ferramenta neutra de comunicação, ou seja, há uma ligação essencial entre discurso e poder. Palmas para o garotinho, ele acertou! A New Left ocupou todos os espaços de poder e os fez modelando os discursos de tal forma que jamais imaginou surgir coisa divergente.

Ora, gritando aos quatro ventos “negacionistas”, a atitude desesperada dos correligionários da “New Left” é sintomática. A luta contra o “espantalho retórico do negacionismo” no fundo externaliza o receio de perder o status hegemônico e totalitário erguido a décadas. Desde sempre, sua finalidade foi continuar dirigindo quais discursos deviam ou não ser autorizados a participar do debate público.

Avessos à cultura dialógica o poder do discurso monológico da “New Left” está perdendo o controle sobre a opinião pública. Sustentar a ordem do discurso monológico é decisivo para quem aspira permanecer no poder. A inversão da ordem do discurso significa, em outras palavras, perda de poder. Isso parece justificar a forma esbaforida com que a “New Left” acusa os conservadores de “negacionistas”.

Para solver um pouquinho mais do próprio veneno, Foucault argumentava que o discurso não é apenas uma questão de palavras faladas ou escritas, ele inclui também os gestos, as práticas e as diversas formas de comportamento.  Muitas dessas práticas e comportamentos servem para reforçar o poder de determinados grupos e instituições. A New Left sabe que para manter sua hegemonia ela precisa proteger os flancos contra qualquer outra visão de mundo divergente impedindo uma nova ordem discursiva contrária a que ela própria construiu.  Temem uma nova ordem discursiva e de poder contra hegemônico na mídia, nos movimentos estudantis, no movimento universitário e, sobretudo, no movimento editorial.

O conservadorismo tem uma base filosófica, o ceticismo. Filósofos como David Hume, Edmund Burke, Roger Scruton, Michael Oakeshoatt, Russel Kirke, G K. Chesterton são tidos como conservadores por adotarem, em certo sentido, o ceticismo como postura crítica frente às ideologias políticas e sociais. É da postura filosófica desses e tantos outros nomes que decorre a reação moral e psicológica contra qualquer novidade que não tenha passado pelo teste do tempo e da realidade. É na negação da ideologia como sistema do mundo e reafirmação da realidade que encontramos as bases do conservadorismo. A postura conservadora repele aquilo que progressistas agarram com unhas e dentes. A primeira postura extrai das experiências do passado, do vivido, as bases para orientar o presente; enquanto que a segunda, para preparar o futuro, orienta-se nas expectativas do meramente idealizado.

Ao submeter qualquer plano mirabolante ao crivo da realidade, a recusa conservadora – antítese dialética vista como “negacionista”-, é colocar-se contra qualquer ideologia política e científica que ignore aquilo que o tempo mostrou não passar no teste da realidade. Acusar conservadores de serem “negacionistas” é ignorar o valor da dúvida cética para o desenvolvimento social, filosófico e científico.

Por ignorar a realidade e apostar em ideologias que não resistiram ao teste do tempo, progressistas, encegueirados com a expectativa futura de construir um mundo melhor, atacam conservadores por se sentirem incapazes de convencê-los acerca do “paraíso terrestre” planejado pelas “cabeças brilhantes de seus ideólogos”. Em vista disso, julgam os conservadores como atravancadores do progresso planejado. Ledo engano. O conservador deseja o progresso com o pé no chão; busca no passado o que passou no teste da realidade para servir de baliza às novidades. Ideologias tendem a negar a realidade.

A fronteira entre o “negacionismo” e o conservadorismo é clara, encontra-se na ordem do discurso dominante. Sem se dar conta que o chão da realidade é maior que qualquer ideologia possa querer explicar, restou à New Left (raivosa) acusar os que escaparam de suas amarras discursivas de “negacionistas” . A postura conservadora entende a complexidade do mundo. O conservador entende que não há soluções fáceis que possam ser extraídas de cabeças iluminadas. Não há como ignorar a complexidade dos problemas do mundo real. Soluções parciais que o tempo mostrou serem válidas não só devem como podem concorrer para o progresso da humanidade. A divisa entre a dúvida cética conservadora e a peja de “negacionista” é clara, mas, maquiavelicamente, os correligionários da “New Left” jamais abandonam seus fins.

Para a ordem do discurso “anti-negacionista” não é cabível pensar como Michael Oakeshott quando diz: “[..] Ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o tentado ao não tentado, o fato ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito a felicidade presente à utópica”.

 

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Sobre Marcus Everson Santos

Marcus Everson
Professor, Palestrante, Licenciado em Filosofia, licenciado em Filosofia, Mestre e Doutor em Educação: membro da Academia Maçônica de Ciências, Artes e Letras. Colunista do Portal Só Sergipe.

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