quinta-feira, 22/10/2020
Alberto Almeida, presidente do Setransp: falta apoio nas três esferas de governo

Setor de transporte perdeu 14 milhões de passageiros em Aracaju com a pandemia

De março a julho deste ano, o setor de transporte coletivo de Aracaju perdeu 14 milhões de passageiros, um percentual de 60% se comparado a igual período do ano passado, quando ainda não havia a pandemia da covid-19 na capital. A  comparação é do presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Município de Aracaju (Setransp), Alberto Almeida, ao acrescentar que, a partir de agora, a situação tende a se agravar. “Para os próximos meses, teremos uma situação muito difícil  pra o setor, pois a previsão é que não cheguemos nem em 60% da demanda que tínhamos em dezembro do ano passado”, disse Alberto. Some-se a isso, segundo ele, à falta de apoio dos governos federal, estadual e municipal nesse período de pandemia. “As gestões precisam dar atenção ao setor. O transporte é um direito social, direito do povo, do cidadão, mas vivemos sem apoios”, disse o presidente do Setransp que, agora, a partir do início da retomada econômica se lança,  junto como os demais empresários do setor, num novo desafio: pagar as dívidas acumuladas de março até agora. Os três grupos empresariais que há anos são responsáveis pelo setor de transporte de passageiros em Aracaju e região metropolitana somam dívidas. mas Alberto Almeida se esquiva em revelar valores. No entanto, destacou que com a volta das atividades, os encargos sociais das empresas começam a ser somados e o empresário terá que  acrescentar  os débitos recentes. Diz que felizmente nenhum colaborador  morreu de covid-19, mas não informa quantos ficaram doentes e  tiveram de ser afastados. Com a volta gradativa ao trabalho, não será difícil ver ônibus superlotados, contrariando todas as normas de distanciamento social existentes para conter o avanço da covid-19, potencializando  ainda mais os problemas em um segmento que nenhum governo municipal de Aracaju ao longo de sua existência, não se saber o porquê, teve competência para fazer o processo licitatório. O atual prefeito, Edvaldo Nogueira, prometeu a licitação o ano passado, mas foi só uma promessa.

SÓ SERGIPE – Qual o balanço que o senhor faz do setor de transporte coletivo de março até agora, com as medidas restritivas do Governo do Estado e Prefeitura de Aracaju, no combate à covid-19?

ALBERTO ALMEIDA –  O setor de transporte foi um dos mais afetados nos últimos meses, devido à pandemia da covid-19. O coronavírus começou a circular no mundo e em menos de três meses agravou bastante uma crise que já existia dentro do transporte público coletivo há anos. A SMTT determinou  a volta da frota em 80%, com uma demanda que chega a 40%. A nossa preocupação é que mesmo com esse aumento, não seja suficiente para combater ou diminuir a contaminação. O aumento de frota gera um desequilíbrio muito grande no setor e como já foi dito, esse desequilíbrio já vinha sendo causado. Agora ele está agravando muito mais, gerando para os próximos meses uma situação muito difícil para o setor de transporte. A previsão para o setor de transporte é que não cheguemos nem em 60% da demanda que tínhamos em dezembro. É preciso que se tenha várias ações, que sigam agregadas ao aumento de frota, como já tem sido feito, que é:  diluição dos horários de entrada das atividades comerciais, priorização nas vias públicas, gerando maior velocidade comercial e automaticamente gerando maior disponibilidade no transporte.

 SS – Quantas empresas atuam em Aracaju e região metropolitana e, de forma geral, em que situação financeira se encontram atualmente?

AA – Atualmente, são três grupos, com uma frota de 501 veículos. A situação não está fácil, afinal, em Aracaju a nossa única forma de captação de recursos é a tarifa. As gestões precisam dar atenção ao setor. O transporte é um direito social, direito do povo, do cidadão, mas vivemos sem apoios dos governos federal, estadual e municipal.  É necessário que nos olhem de forma diferente, pois a partir deste mês, agosto, teremos aí uma situação muito mais pesada, porque as dívidas desse período foram acumuladas e vão ter que ser pagas agora. Então de agosto a dezembro, aquilo que deixou de ser pago, como impostos, fornecedores, terá que ser feito.

 

SS – De quanto foi a queda no número de passageiros nesse período? Gostaria de saber quantas pessoas eram transportadas antes da pandemia, para estabelecermos uma comparação e sabermos o percentual de queda.

AA – Desde o começo da pandemia, o sistema de transporte tem feito ajustes diários, acompanhando a evolução e o deslocamento dos passageiros. De março até o último dia de julho, foram mais de 9 milhões de deslocamentos. Se comparado ao ano passado, tivemos uma queda muito grande, já que no mesmo período tivemos 24 mil deslocamentos. Uma queda de mais de 60% com perda de 14 milhões de passageiros.

 SS – Houve demissões de motoristas e outros colaboradores?

AA – Movemos esforços para evitar demissões se utilizando das medidas provisórias, que reduziram jornadas e salários. Dessa maneira, a gente pôde trazer novas funções, como os agentes comerciais, que têm trabalhado em bairros e terminais, vendendo recargas, orientando pessoas, aferindo temperaturas, ou seja, somando na luta contra o coronavírus. Da mesma forma, procurando não demitir, as empresas vêm qualificando e promovendo internamente seus funcionários, para funções de motorista, agentes comerciais e outros.

 SS – Quantos colaboradores das empresas foram diagnosticados com a covid-19? Houve algum óbito?

AA – Não houve óbito, felizmente. Contudo, todos os profissionais que tiveram sintomas, foram afastados imediatamente e assistidos por suas respectivas empresas, através de acompanhamento do departamento médico e de recursos humanos.

 SS – O senhor vem dizendo que o setor não recebeu nenhum apoio com aporte financeiro ou isenção de impostos, como ocorreu em outras capitais. Houve muitas tentativas de diálogos com o governo municipal ou estadual nesse sentido? O que os governos alegaram para não ajudar o setor de transporte?

AA – Acredito que reforços de ações públicas no setor de transporte coletivo seriam primordiais para o momento. Não falo apenas de faixas exclusivas, mas semáforos para sincronizar o trânsito e que deem preferência aos ônibus, além de financiamentos que deem valorização ao setor. O transporte público é responsabilidade de toda a sociedade. Em Aracaju, como foi dito, a única fonte de receita vem do passageiro pagante, que paga por si e por todas as gratuidades. Nós temos aí, nos últimos 5 anos, mais de 16 milhões de passagens subsidiadas pelo próprio povo. E o setor de transporte não pode ser visto por esse ponto. Ele tem que ser visto de forma global, com fonte de financiamento, corredores exclusivos, tudo aquilo que prioriza sua circulação, além de linhas de financiamento para as passagens e para o transporte público e linhas de financiamento para investimentos para o ônibus também.

 SS – Sua previsão é de que o setor, até dezembro, não chegue a 60% da demanda que tinha. Gostaria que o senhor explicasse o porquê dessa previsão.

AA –Mesmo que haja mudanças no fluxo de passageiros e haja horários específicos, é preciso lembrar que em toda ação de desenvolvimento econômico da cidade é necessário pensar previamente no serviço de transporte, na mobilidade.  Teremos um encargo muito grande para o setor de transporte neste mês de agosto, principalmente por conta das dívidas prorrogadas durante o início da pandemia.  Não houve apoio ao setor com aporte financeiro ou com isenção de impostos para esse momento, como aconteceu em outras capitais. Mesmo assim, o setor seguiu movendo esforços e mantendo ações de prevenção, inclusive abrindo oportunidades, como para agentes comerciais, no sentido de incentivar o uso do cartão eletrônico ao invés do dinheiro (objeto altamente contaminante). Após a abertura do comércio e de suas atividades produtivas, você vai ter um espaço de tempo até que as pessoas voltem a consumir, voltem a andar e voltem a circular. Somado a isso, você tem as demissões, já que os números chegam a quase 25 mil postos de trabalhos vagos. Em uma conta rápida, você pega essas pessoas que não estão circulando, que não estão trabalhando mais e que já não fazem mais parte do ciclo produção – consumo (pessoas que vão deixar de comprar), você também terá as atividades que vão deixar de ser realizadas nas empresas e vão ser realizadas em casa. Ou seja, toda essa mudança de comportamento da população com a falta de dinheiro e com a falta de emprego, além da queda de postos de trabalhos, poderemos ter a queda de mais de 60% como já disse antes.

 SS – Daqui a quanto tempo, caso não haja nenhum recuo na retomada econômicas, as empresas estarão recuperadas financeiramente?

AA- As empresas estão com dívidas acumuladas durante a pandemia e que foram prorrogadas durante a mesma. Você vai ter uma etapa agora, em que todo mundo vai voltar a circular e a produzir aos poucos. Você tem esse período, o qual imaginamos que será dentro de, no mínimo, 12 meses para voltar à normalidade, mas não na condição anterior à pandemia. Eu acredito que daqui a 2 ou 3 anos, a gente poderá dizer que a economia volte à normalidade ou volte, pelo menos, a atender a normalidade. Vamos ter que passar pela fase de recuperação das empresas, da geração de postos de trabalho, do fechamento de ciclo consumo-produção e realimentação da produção. Nós vamos ter que viver essa outra fase, em que observaremos que o mundo não está comprando e produzindo, por isso, essa queda de dois ou três anos, com as dívidas que se acumularão nesse tempo. Quando passar isso, então você terá o retorno da normalidade.

SS – Qual deverá ser o encargo das empresas neste mês de agosto? Há muitas dívidas a serem pagas?

AA – Como falei, passaremos por tempos difíceis. Vamos viver no mês de agosto uma batalha imensa, mas não no nosso setor, mas no comércio como um todo. Porque começaremos a pagar as dívidas contraídas durante a pandemia, que começaram em março, ou seja, são tempos delicados. Estamos buscando alternativas e tentando prestar o melhor serviço possível, mas não estamos tendo retorno. A partir do mês de agosto você começa a retomar as atividades econômicas, mas você começa também a ter seus encargos mensais, e somados a isso você vai ter o parcelamento das dívidas anteriores, que foi feito: fornecedores , financiamentos de bens e imóveis, você vai ter os encargos sociais, os impostos, ou seja, tudo começa a vencer, juntando ao parcelamento e o valor do mês.  A gente acredita que a cada mês daqui pra frente, nós teremos uma conta em torno de 120% a 140% do que a gente vinha tendo.

SS – O vereador Jason Neto (PDT) cobrou, recentemente, que a frota de ônibus deve voltar em 100%, pois ele entende que 80% provoca aglomeração. Qual a previsão para ter 100% da frota nas ruas?

AA –As empresas seguiram as orientações do Governo do Estado e da Prefeitura de Aracaju. Porém, é importante pontuar que colocamos, no horário de pico, veículos acima da porcentagem recomendada para atender a população. Como falei, chegar a 100% da frota não é o que vai resolver a aglomeração. Até porque a gente tem visto em muitos outros lugares que não é só dentro dos ônibus que as pessoas estão se aglomerando. É preciso que tenha uma forte campanha de orientação e de informação para a população e, como o setor de transporte está fazendo, da disponibilização de equipamentos para higienização, álcool, lavatórios para higienização das mãos, uma limpeza reforçada dos terminais e dos ônibus… O que tem que ser feito é essa orientação, além de uma liberação das vias para circulação mais rápida, semáforos inteligentes, ou seja, priorização do transporte. Ter 100% da frota operando nesse momento agravaria a situação e o setor pode entrar em colapso pelo excesso de oferta, com a redução de passageiros.

SS –  Nesse período de pandemia, dificilmente vimos as pessoas cumprindo o distanciamento, principalmente nos ônibus. Nessa retomada é possível orientar as pessoas para que evitem aglomeração dentro dos ônibus?

AA – Desde o começo da pandemia, o sistema de transporte tem feito ajustes diários, acompanhando a evolução e o deslocamento dos passageiros. Saímos  de 70% para 80% nos horários de pico. E nos finais de semana, teremos 50%. É importante ressaltar que todas as ações e outros protocolos seguem em vigor e em funcionamento. A higienização dos carros nas empresas, a pulverização antibactericida, que vem a ajudar na eliminação dos vírus, a orientação no embarque e desembarque, pessoas orientando no sentindo embarque, assim como higienização das mãos. E por último, equipes que estão vendendo recargas nos bairros e terminais para que as pessoas não precisem circular com as cédulas dentro dos veículos e correndo risco de contaminação.

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