quarta-feira, 19/06/2024
Amalia Rodrigues, a Rainha do Fado Foto: Prefeitura de Oeiras/Portugal

Nem às paredes confesso

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Parte de minha infância, fui criado num bar. Na verdade, no Bar e Mercearia São José, hoje uma residência, ainda da família, na esquina entre as ruas Senhor do Bonfim e Mizael Vieira, 188. O estabelecimento, muito frequentado por políticos, esportistas e populares, pertencia ao meu saudoso pai, José Almeida Monteiro. Ali, embora não houvesse aparelhos de som na forma como conhecemos hoje, seja por rádio ou à capela, acompanhado por violão, sempre se curtia o melhor da música brasileira dos anos 50, 60 e 70.

Pois bem, num fortuito encontro de família, na casa de minha sogra, dona Lindete, em Lagarto-SE, num final de sábado, regado a petiscos e cerveja, eis que meu cunhado, Marcos Paulo, nosso DJ de ocasião, nos brindou com uma seleção de canções que me fez lembrar aquele velho e bom tempo de infância, na companhia paterna, em seu ambiente de trabalho. Rolou de tudo um pouco, de Agnaldo Timóteo (1936-2021) a Núbia Lafayette (1937-2007). Entre as canções, destaco uma, que eu, particularmente, gosto muito, “Risque” (1952), de autoria de Ary Barroso, famosa na interpretação de Altemar Dutra (1940-1983), aliás, o cantor predileto de meu saudoso pai.

Mas o que dominou mesmo aquele afável encontro familiar foi a canção “Nem às paredes eu confesso”, que caiu nas graças de minha sogra, repetindo seu refrão não somente com galhofa (viúva, dando a entender que havia um pretendente em vistas), mas também com o jeito divertido que lhe é característico, e com uma boa e deliciosa caipirinha, então. Virava e mexia, todos, ao seu tempo e modo, tirava uma onda com a frase título da música, inclusive com trocadilhos do tipo: “Meu candidato nas próximas eleições municipais? Nem às paredes confesso”. E lá se foi noite adentro.

Eu, particularmente, jurava que essa canção fosse de Nelson Gonçalves (1919-1998). E de fato ele a interpretou pela primeira vez em 1969, ficando para a história. De igual modo, Roberto Carlos (1989) e Bibi Ferreira, falecida em 2019 (Álbum Histórias e Canções, de 2017). “Nem às paredes eu confesso” é um fado de autoria de Artur Ribeiro / Maximiano de Sousa e Ferrer Trindade, gravado em 1957, em Lisboa (Portugal) e famoso internacionalmente na voz de Amália Rodrigues.

Conhecida como a Rainha do Fado, Amália da Piedade Rodrigues viveu 79 anos, entre os anos 1920 e 1999, tendo nascido em Pena, Portugal. Dona de uma belíssima voz e conhecida por uma profunda performance nas suas interpretações, Amália levou o fado a ser conhecido internacionalmente, atuando como cantora, mas também como atriz, iniciando sua vida artística em 1940, com atração musical de uma peça teatral. Ela teve uma marcante passagem pelo Rio de Janeiro, onde atuou no Casino Copacabana e fazendo parcerias importantes, a exemplo de Fernando de Freitas e Frederico Valério. Fez sucesso, também, nos Estados Unidos, com gravações e encenações importantes, seja no teatro, seja no cinema. Foi uma grande difusora da cultura portuguesa, sobretudo de sua lírica e língua pelo mundo.

Além da célebre frase que dá título à canção, destaco outros trechos ricamente poéticos e profundos, a exemplo de “Sem que eu te peça / Nem me dês nada que ao fim / Eu não mereça”. Trata de uma letra e uma melodia que se encaixam perfeitamente em qualquer idioma. Mas, no português falado no Brasil caiu como uma luva. Se lá, é o fado, aqui, pode ser um samba-canção, uma linda seresta, ou mesmo, se considerarmos o tempo presente, uma boa sofrência, no melhor que esse estilo pode nos brindar, afinal, há canções, como esta que inspirou o presente texto, que além de atemporais e universais, têm a capacidade de nos encantar.

 

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Sobre Claudefranklin Monteiro

Claudefranklin Monteiro Santos
Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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