sexta-feira, 11/09/2026
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Alguns títulos fundamentam argumentos e reflexões neste artigo Foto: Acervo Pessoal

Razão e Sensibilidade — A propósito do ato de explicar e do comover-se ante a arte literária

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Por Léo Mittaraquis (*)

 

Para Tiago Nascimento, com maior gratidão

 

Este artiguete, mais um a compor a prateleira dos desimportantes escritos meus, saltou-me do pensamento após profícua e agradabilíssima conversa com o amigo dotado do mais alto calibre intelectual, Tiago Nascimento.

O ‘amico e fratello’ questionou-me, com acerto e mestria, se, ao pôr-me a explicar o poema que concebo, estaria ou não comprometendo o livre fluxo emotivo, passional [favorável ou desfavorável] reconhecido por direito no leitor, quando da leitura e interpretação deste ante lira da minha lavra. Algo como dar um “spoiler” da história, antes que o ouvinte e legente chegasse às suas próprias conclusões.

Ou seja: valer-se da razão, da realidade operatória relacionada à produção poética [verso e/ou prosa], elimina a possibilidade de sentimento, de empatia, de exercício da subjetividade espiritual quanto à obra?

A resposta direta e que apresentei ao nobilíssimo companheiro foi: não, não elimina, não compromete. Explicar o escrito não significa negar os efeitos subjetivos, de ordem pessoal, de acordo com o perfil do leitor.

Contudo, mantendo-me, em meio ao espectro das tremendas possibilidades da palavra dita e escrita, na raia da honestidade, após insone noite a refletir sobre o tema fermentado entre taças de vinho, passei a concordar que o “risco”, ainda que mínimo, de se revestir de aridez, mediante o dissecar do poema [ou do conto, ou do romance…] é potencial, e há, sim, como diria Aristóteles, possibilidade de o risco tornar-se ato.

Existe, creio, uma, por assim dizer, oposição aparentemente inevitável entre duas maneiras de aproximar-se de uma obra de arte, seja de qual gênero for; seja de que subcampo for; sejam quais forem os agentes estruturantes envolvidos — a parafrasear Pierre Bourdieu.

De um lado, entendo que está o leitor passional, este que se abandona à obra.

Qual o perfil deste leitor? Ele lê, sente, imagina, sofre, admira, rejeita, identifica-se, odeia, estranha, emociona-se. Nem de longe se interroga [ou questiona o autor] pela estrutura narrativa, pelo procedimento retórico, pela construção do personagem, pelo regime temporal, pela função do narrador ou pela arquitetura simbólica. Ele simplesmente lê.

De outro lado está o leitor que deseja compreender.

Este segundo leitor sente-se à vontade ao interrogar a obra e o autor.

Chega, até mesmo, a questionar, de modo fundamentado, seu próprio ato de ler esta ou aquela produção. Inquire como foi elaborada, quais procedimentos foram utilizados, quais relações foram estabelecidas entre as partes do dado objeto, qual tradição [isto é, o processo dinâmico de transmissão, recepção e reinterpretação crítica de valores, formas e textos que fundam e transformam o cânone cultural] incorpora, quais recursos formais decide por mobilizar, como passa a organizar seus efeitos e por que determinada configuração produz determinado resultado.

O primeiro parece experimentar.

O segundo parece investigar.

A partir daí surge uma questão aparentemente simples: se eu compreendo racionalmente como uma obra produz seus efeitos, ainda posso ser afetado por ela?

Ou, formulada em termos mais radicais: o conhecimento técnico da produção do efeito estético destrói o próprio efeito estético?

Esta questão, penso, contém um problema filosófico de considerável alcance: se a resposta for afirmativa, toda educação estética possuiria um paradoxo fundamental: quanto mais o indivíduo compreender o fenômeno arte, menos será capaz de experimentá-lo, de usufruí-lo mediante a inclinação pura e simples de gostar ou não gostar.

Aceito, e mais ainda após vigília noturna em torno do problema, que não existe, necessariamente, de um lado, uma faculdade racional absolutamente pura e, de outro, uma faculdade emocional absolutamente pura. A perspectiva distanciadora durkheimiana, calcada no binômio “exterioridade-coercitividade, apesar de sólida e pertinente, não funciona satisfatoriamente aqui. A percepção humana é muito mais complexa.

Afirmo, então, que quando o leitor/espectador acompanha/lê, por exemplo, uma tragédia, ele, provavelmente e simultaneamente, caso tenha capital intelectual para tanto, irá assimilar a estrutura; irá reconhecer a técnica;

Irá interpretar os símbolos; irá

perceber a construção dos personagens; irá

antecipar procedimentos narrativos e, ainda assim, sofrer diante do destino da personagem.

A consciência do mecanismo não implica necessariamente a interrupção da experiência espiritual.

Diria, então, improbabilíssimo leitor, que a questão não é:

“Ou sinto ou compreendo.”

A questão verdadeiramente estética é:

“O que acontece, em mim, quando compreendo aquilo que sinto e sinto aquilo que compreendo? Como as coisas se dão neste âmbito?”

Defendo que essa formulação vem a deslocar a estética de uma oposição simplista entre racionalismo e sentimentalismo para uma concepção integrada da experiência.

A obra não precisa ser estupidamente imprensada entre o compreender e o sentir. Aqueles que criam, que leem, que assistem, que ouvem, que tocam, também não.

Não temos que nos obrigar a bater o martelo e encerrar a disquisição, virando as costas para a oportunidade de envidar salutar discussão.

Quem sabe, a maturidade estética venha a consistir, em resumo, justamente, na capacidade de conservarmos a sensibilidade depois da aquisição do conhecimento.

 

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Sobre Leo Mittaraquis

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Léo Mittaraquis é graduado em Filosofia, crítico literário, mestre em Educação. Bodegário da empresa Adega 7 Instagram: @adega7winebar

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