terça-feira, 27/10/2020
Ronildo Almeida, presidente da Fecomse: "Que retomada?"

“Prefiro estar quebrado, desempregado e vivo”, garante Ronildo Almeida, presidente Fecomse

“Prefiro estar quebrado, desempregado e vivo”. A afirmação é do presidente da Federação dos Empregados  no Comércio e Serviços de Sergipe (Fecomse), Ronildo Almeida, que integra o Comitê de Retomada da Economia (Cogere), ao comentar que muitas empresas desrespeitam os decretos governamentais que  determinam o fechamento e distanciamento social, devido à pandemia da covi-19. Ele criticou, também, o fato dos ônibus continuarem  a circular pela cidade  superlotados. Embora não tenha um número específico de vítimas fatais, ele disse que comerciários estão morrendo em Sergipe vítimas da doença. Ronildo lamentou que o setor patronal não informa o número de comerciários doentes da  covid-19. Sempre voto vencido nas reuniões do Cogere,  Ronildo diz que a economia nunca parou, porque diversos setores continuaram funcionando normalmente ao longo desses 100 dias, e tudo não passa de uma propaganda negativa. O sindicalista elogiou o governador Belivaldo Chagas por estar sendo firme ao determinar o fechamento dos shoppings centers e quando, literalmente, “peitou” o empresariado local. Ao mesmo  tempo, afirma que, como sindicalista, “não quer que as empresas quebrem e não quer que os empregados morram”. Ronildo também criticou o governo Jair Bolsonaro  na entrevista que concedeu ao portal Só Sergipe. Confira.

 SÓ SERGIPE – Como o senhor avalia a economia sergipana? Houve realmente uma paralisação, mesmo com alguns setores funcionando?

RONILDO ALMEIDA –  Na verdade, se formos recapitular os fatos, vamos ver que é tudo meio confuso na retomada da economia. A economia nunca parou, e isso é propaganda negativa. Eu pergunto: parou para quem? Porque as empresas ditas essenciais continuaram trabalhando normalmente e faturando: farmácias, supermercados, casas de peças, material de construção, concessionária de veículos que abriu as oficinas. Isso sem falar das que abriram por conta própria, as feiras-livres, tudo isso. Essa retomada da economia, a que o patronato tanto reclama, é algo para criar um impacto na opinião pública. Se formos olhar em percentual, é alto o índice das empresas que estão trabalhando. Transporte, postos de combustíveis, tudo trabalhando. Então, a economia continuou. Agora, existiu um movimento no setor do comércio, porque parte dele estava fechado e vemos, por exemplo, esses ramos de atividade funcionando. Só não vê por demagogia ou hipocrisia.  Muitas empresas abriram à margem dos decretos, na clandestinidade.

Calçadão da avenida João Pessoa, centro de Aracaju

SS – Em que pontos da cidade, por exemplo, as lojas estão abertas?

RA –  Na cidade em geral. Você chega nas áreas dos calçadões, no centro, e vê lojas abertas com a história de delivery, que não existe. Vemos ônibus superlotados, a contaminação desenfreada, o número de mortes crescendo, por mais esforço que o governador tenha em criar novos leitos. Estão colocando o dinheiro acima das vidas. Por outro lado, o problema sobre o isolamento social a população tem uma parcela de culpa. Tem uma parte da população saindo às ruas para não fazer nada, só passeando. Isso é público e notório.

SS – A economia não está sendo retomada?

RA – Retomada, não.  A economia já foi retomada lá para trás. Parte que nunca parou, mas há uma grita nas escolas públicas e particulares, e shoppings. E apesar da pressão muito grande, o governador Belivaldo Chagas está conseguindo manter fechados. São elogiadas as posições do governador, apesar de não ter decretado lockdown que era a proposta do movimento sindical de forma geral, em Sergipe, até por conta das dificuldades na saúde.  Apesar de ter conseguido abrir novos leitos de UTI, as pessoas estão morrendo e há dificuldade em atendê-las. Está estourado o atendimento.

SS – No Boletim Epidemiológico os números de infectados e mortos sobem cada vez mais.

RA – É um número altíssimo, porque um dia desses nós tínhamos dois casos de covid-19: de uma mulher que veio da Espanha, depois estourou. O distanciamento é o melhor remédio, mas em nenhum momento foi feito um distanciamento rigoroso aqui em Sergipe.  Hoje, vemos Aracaju, Barra dos Coqueiros, Socorro e São Cristóvão  que já estão estourando com casos de covid-19. É crítico, inclusive da rede pública não suportar. A rede privada está toda ocupada.  Está faltando leitos, há pessoas procurando vaga. Estamos com um problema sério, mas preocupados com a retomada da economia que nunca parou. Só parte dela parou.

SS – Qual setor do comércio com maior público?

RA – Tecidos e confecções. E aí, há uma grita geral, inclusive com a questão do shopping como já disse.  A retomada da economia é importante sim. Sergipe não é mais aquele último estado que deveria ser, com o menor número de infectados e mortos. Não é,  e lamentamos profundamente. Não queremos o fechamento de empresas, mas temos que preservar vidas.

Ronildo Almeida:  “Comerciários morrem” Foto: ASN

SS – O senhor sabe se morreram comerciários vítimas da covid-19? Tem algum levantamento?

RA  – Tivemos comerciários, mas o setor patronal nega até as contaminações.  Nós temos uns companheiros na base do comércio, mas é uma dificuldade imensa para pegar as informações, e ele (o patronato) se recusa a informar. Sabemos de duas mortes de funcionários do supermercado Extra, temos contaminação no Bompreço, GBarbosa, mas eles colocam como suspeitos. E os empregados não vêm tendo o apoio devido por parte das empresas. Porque quando coloca empregado como suspeito, seria de bom tom a empresa levar o empregado ao médico, fazer os testes. Mas não, eles dizem: ‘é suspeito vá para casa’. E é só isso? Já teve morte em empresa no centro da cidade. Agora, a informação é complicada, porque se esconde os fatos. Como é que não vai contaminar, com empregado submetendo-se a ônibus lotados pela manhã? Fui à empresa GBarbosa, na Atalaia, e lá só tinha uma vasilha de álcool em gel. As empresas estão economizando até o álcool. Na portaria, você limpa a mão, mas pega o carrinho, espirra perto dele, pega na cesta e fica lá a manhã inteira e não tem um álcool sequer lá dentro.

SS – O senhor procurou o setor patronal de supermercados para abordar isso?

RA – Eu fiz uma reunião com o setor e eles reclamaram que estavam gastando com álcool. Esse é um comentário infeliz, até porque quem paga aquele álcool é a majoração de preços na prateleira, ou seja, nós que compramos. Isso é cinismo de uma empresa colocar que está gastando. Quem está gastando é o povo.  Então, essa retomada da economia vemos com preocupação.

SS – Na última reunião do Cogere, qual foi seu posicionamento?

RA – Todos que fazem parte do conselho sabem que minha posição era o lockdown, mas o governador colocou que a essa altura do campeonato não resolve mais. Mas, mantemos a nossa posição porque a situação  é preocupante. Aí você me pergunta: e o desemprego? Vai ter desemprego, quebradeira, vai ter tudo. Mas eu prefiro estar quebrado, desempregado e vivo. Não estou sendo demagogo.

SS –O senhor fala que prefere desemprego e estar vivo, mas o senhor é dirigente sindical e não está e nem ficará desempregado.

RA – Nós temos que entender que nas suas profissões cada um sofre o momento. Eu sou comerciário. Temos certeza que jornalista sofre aqui em Sergipe, até pelo número de empresas do ramo que são poucas. E no comércio, a pessoa mais madura sofre discriminação. Você não pode se espelhar na miséria querendo que ela chegue para você.  Nós temos que procurar alternativas e elas são as responsabilidades sociais dos governos estaduais, municipais, federal e empresários, todos juntos. Devemos criar uma ajuda  para o pessoal desempregado, estamos todos sofrendo, cada um de um jeito. Quem tiver sensibilidade, cutuca na alma. Nós entendemos que tem gente passando sérias dificuldades.

Motoboys fizeram protestos em todo o país

SS – Os donos de bares e restaurantes sofrem bastante.

RA  – Bar, garçons, táxis e Uber diminuíram. Os motoboys que fazem entregas por aplicativo pararam,  na semana passada, porque estão sofrendo.  Mas esse momento de sofrimento não é só de Sergipe, é do Brasil e do mundo. Locais que abriram o comércio tiveram que fechar. É muito complicado, porque não existe uma receita para resolver essa doença. O mau chegou e não sabemos o efeito colateral dessa doença.  Tudo é superficial e os cientistas seguem pesquisando.

SS – E a todo instante vemos pessoas doentes com a covid-19. Aí é que se sente o peso dessa doença, bem próximo de nós.

RA – Por que isso? Não tivemos o cuidado necessário no momento exato, o povo está nas ruas se contaminando e contaminando os outros. Isso é público e notório. Agora, adianta procurar culpado a essa altura do campeonato?

SS – Há estudos da Universidade Federal de Sergipe (UFS) dizendo que o pico da doença será neste mês de julho.

RA – Isso, no final da quinzena de julho. Agora, nós vamos suportar? O governador foi muito aberto a nos dizer que está com dificuldades para reposição de alguns produtos de saúde. Todos os Estados estão com dificuldades. É pandemia, algo que o mundo não esperava. E é um correndo atrás do outro. Eu tenho certeza absoluta desse pico, embora torça que não se concretize. Por mais que não queiram dizer, mas estamos no caos. A saúde está um caos. Não posso criticar o governador por incompetência, pois ele está sendo competente. Inclusive quando resistiu aos gritos dos empresários ao criticarem dizendo que ele não tinha planejamento. Ele enfrentou o deputado federal Laércio Oliveira e foi uma postura de coragem. O governador está com toda equipe dele trabalhando, não posso negar isso. Tenho divergências no lockdown, mas Belivaldo tem trabalhado muito. Pelo empresariado, o comércio não era nem para ter fechado. Ele peitou. Imagine o lobby das grandes empresas.

SS – Mas o empresariado segue firme querendo que abra o comércio.

RA –  Todos querem, porque amanhã, parece que estou  vendo, nos palanques, políticos acusando uns aos outros pelas mortes no Estado de Sergipe e no Brasil.

SS – É uma situação muito difícil para vocês que compõem o Cogere e para o governador,  porque  há pressão de todos os lados. O senhor já defendeu lockdown e foi voto vencido, outros querem a abertura do comércio  e  o governador ali no meio. O  governador fica numa situação difícil, porque empresários reclamam da morte de CNPJs. Mas as pessoas seguem morrendo todos os dias da doença.

RA – Sou voto vencido. Vida não tem preço. Hoje estão morrendo nossos conhecidos. E quando chega a morte aos parentes? Eu perdi  um tio para a covid-19.  Aí o camarada diz, mas ele tinha 80 anos. E com 80 anos tem que morrer é? Já pensou?  E as criancinhas e jovens que morreram? Está morrendo todo mundo. O problema é sério, não só a questão da abertura, como também de mortes. Na próxima semana será o pico e chegaremos a 1  mil mortes por covid-19 no Estado.

SS – Muitos empresários ajudaram, adquirindo respiradores, mas seguem firmes reivindicando a abertura gradativa das atividades.

RA – Para criar mais tumulto e mais mortes.  Não ter grandes concentrações preserva vidas. Não somos contra os empresários, não queremos que ninguém quebre. Eu, como sindicalista, não quero que as empresas quebrem, mas não quero que os empregados morram.

SS – Se as empresas quebram, os comerciários não têm onde trabalhar.

RA – E se o empregado morre, é problema para a família. Hoje temos material humano sobrando. Temos que ir com muita cautela, porque estamos falando de vida. Se eu disser, abram as lojas todas, a família do comerciário vai dizer que sou safado que fiquei do lado dos patrões.  E tem o outro lado do desemprego. Eu tenho que estar preparado para a crítica, mas tenho que ter minha consciência e responsabilidade. Se você pergunta: é melhor dar baixa no CPF ou no CNPJ? Vamos torcer que as coisas abrandem.

SS –O que complica mais ainda é ter um governo federal que está na contramão de tudo, da ciência, etc.

RA – Não está tendo a responsabilidade com  seu povo. Tem que criar políticas de preservação à vida. Ele faz o contrário e agora diz que não é para usar máscara. Fruto de uma pessoa que não tem o raciocínio perfeito, só pode ser. Que vai de encontro à Organização Mundial de Saúde (OMS), à medicina. É muito complicado. Vemos a contramão da história, disse que era uma gripezinha. Agora, diante de tanto escândalo, ele está mais quieto.  Até hoje não admito um presidente tão despreparado. Eu não votei nele, mas torço para dar certo, no entanto é difícil dar. Quem sofre  somos nós. Eu tenho um amigo que é tão bolsonarista que  tomou cloroquina por conta própria e o coração dele disparou, parecia uma tó-tó-tó  e foi preciso ir para urgência médica para colocar o coração dele em ordem. Você veja o nível  de irresponsabilidade de um presidente da República.   Já pensou,  eu Ronildo dizer aos comerciários que tomem este ou aquele remédio. Eu não sou louco.  Agora, um presidente da República com uma postura dessa, não sei se é ingenuidade ou maldade. De tudo quer fazer um palanque político. É tanta merda que faz,  parece que precisa fazer uma maior para encobrir a menor. Ele está se destruindo.

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