quarta-feira, 28/10/2026
Plataforma Petrobras
Plataformas da Petrobras, que estão sendo descomissionadas, poderão ser usadas pela SAP na exploração da silvinita Foto: Ascom/Sedetec

Potássio offshore em Sergipe: megaprojeto prevê investimento de R$ 11,5 bilhões

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A South Atlantic Potash prevê produção equivalente a 14% do consumo brasileiro e identifica potencial de 3,5 bilhões de toneladas de silvinita no litoral de Aracaju

 

Por Antônio Carlos Garcia (*)

 

A South Atlantic Potash (SAP), empresa brasileira do setor de mineração com sede em Aracaju, prevê investir entre US$ 2,1 bilhões e US$ 2,3 bilhões, equivalentes a R$ 10,5 bilhões e R$ 11,5 bilhões, na exploração de potássio offshore no litoral da capital sergipana. O projeto tem potencial geológico estimado em 3,5 bilhões de toneladas de silvinita e prevê produção inicial de 2 milhões de toneladas de cloreto de potássio por ano. Esse volume poderá atender aproximadamente 14% do consumo brasileiro do fertilizante, reduzindo a dependência das importações.

Os números foram revelados pelo CEO da South Atlantic Potash, Bonzi Yokomizo, ao Só Sergipe. Segundo o executivo, o empreendimento poderá chegar à pré-operação ou operação em um prazo de 50 a 60 meses. Caso o cronograma seja cumprido, o início das atividades poderá ocorrer entre o fim de 2030 e 2031.

O projeto é escalonável. Embora a capacidade inicial prevista seja de 2 milhões de toneladas por ano, a produção poderá ser ampliada gradualmente e ultrapassar 10 milhões de toneladas anuais de cloreto de potássio.

O CEO da South Atlantic Potash, SAP, Bonzi Yokomizo
O CEO da South Atlantic Potash, SAP, engenheiro de minas, Bonzi Yokomizo, diz que o começo da exploração deve começar em 60 meses

 

O empreendimento ainda depende de sondagens confirmatórias, licenciamento ambiental, estudos de viabilidade econômica e decisão final de investimento.

De acordo com Bonzi Yokomizo, engenheiro de minas, com mais de 40 anos de experiência internacional,  a empresa fundada em setembro de 2015, tem outros quatro sócios.

Reduzir importações

O Brasil importa mais de 96% do cloreto de potássio que consome, segundo dados apresentados pela South Atlantic Potash. O mineral é uma das principais matérias-primas utilizadas na fabricação de fertilizantes. Essa dependência expõe o agronegócio brasileiro às oscilações internacionais de preços e aos riscos de abastecimento.

De acordo com Yokomizo, a produção projetada para Sergipe poderá substituir importações equivalentes a US$ 600 milhões a US$ 800 milhões anuais, dependendo das cotações internacionais. “O ganho mais importante é a segurança de abastecimento, reduzindo a dependência do Brasil de importações do fertilizante em cenários de choques no mercado externo”, afirmou o executivo em informações divulgadas pela empresa.

O percentual de participação no consumo nacional considera uma demanda de aproximadamente 14 milhões de toneladas anuais. Entretanto, essa proporção poderá variar com o crescimento do mercado brasileiro.

Condições favoráveis

A South Atlantic Potash analisou dados geológicos de toda a costa brasileira antes de selecionar quatro alvos de interesse. Entre eles, a região do Baixo Mosqueiro, em Aracaju, apresentou condições favoráveis à exploração mineral. A empresa adquiriu um banco de dados da Petrobras, com informações de levantamentos sísmicos e perfurações realizadas ao longo de décadas.

Segundo Yokomizo, a área escolhida fica a aproximadamente 20 quilômetros da costa. Nesse trecho, a lâmina d’água tem profundidade média de apenas 30 metros. Os depósitos minerais, porém, estão localizados cerca de 2,5 quilômetros abaixo do leito marinho.

Além das características geológicas, a proximidade com a infraestrutura portuária, rodoviária e energética contribuiu para a escolha. O executivo explicou que essas condições poderão reduzir a complexidade tecnológica e os custos de implantação e operação.

Consultoria canadense

A South Atlantic Potash contratou a Wood Engineering Canada, consultoria canadense de engenharia, para desenvolver estudos conceituais do empreendimento. O trabalho contempla avaliações geológicas, técnicas, logísticas, ambientais e econômicas. A empresa também realizou estudos internos para modelar os recursos minerais identificados.

A SAP delimitou nove alvos exploratórios de silvinita no Baixo Mosqueiro. Segundo informações da companhia, mais de 200 poços perfurados para exploração de petróleo e gás contribuíram para ampliar o conhecimento geológico da região.

Quatro desses poços atravessaram o Membro Ibura, da Formação Muribeca, e confirmaram a presença do minério. Em um deles, identificado como 1-SES-003-SE, foi encontrada uma camada de 27,5 metros de silvinita.

A companhia possui cerca de 189 mil hectares autorizados para pesquisa mineral, segundo informações atribuídas à Agência Nacional de Mineração (ANM). Entretanto, novas sondagens serão necessárias para confirmar a extensão, a qualidade e a quantidade economicamente recuperável dos depósitos.

Petrobras e Eneva

A experiência de Sergipe na exploração de petróleo e gás poderá favorecer a implantação do projeto. A South Atlantic Potash mantém um memorando de entendimento com a Petrobras para intercâmbio de conhecimentos e avaliação do possível aproveitamento de plataformas offshore em processo de descomissionamento.

Segundo Yokomizo, essas estruturas poderão receber equipamentos de injeção de água e bombeamento da solução mineral. Outra possibilidade é utilizá-las como bases de apoio operacional. O projeto também considera uma possível integração energética com a Eneva, que opera uma usina termelétrica na Barra dos Coqueiros.

Plataforma Offshore e Fluxo Subterrâneo
Mineração usará técnica de lavra por dissolução  Imagem: IA

 

A mineração utilizará a técnica de lavra por dissolução. Nesse processo, água do mar aquecida será injetada nas camadas minerais para dissolver os sais. A solução resultante retornará à superfície e seguirá para uma unidade industrial em terra.

Depois, processos de evaporação e cristalização permitirão obter o cloreto de potássio. O cloreto de sódio separado também poderá ser comercializado. Yokomizo explicou que existe uma possível complementaridade energética entre as atividades. Enquanto a termelétrica necessita de sistemas de resfriamento, a mineração precisa aquecer a água utilizada na dissolução. As duas possibilidades ainda estão em avaliação e não representam acordos definitivos de implantação.

Sergipe já produz potássio

O novo empreendimento poderá ampliar uma atividade mineral que Sergipe desenvolve há décadas. O estado abriga o Complexo Mineroquímico de Taquari-Vassouras, em Rosário do Catete, onde funciona a única mina de potássio em operação no Brasil.

Desde novembro de 2025, a unidade pertence à VL Mineração Ltda., ligada ao grupo que opera sob a marca Stratos. A empresa adquiriu a operação da Mosaic em uma transação anunciada por até US$ 27 milhões.

mina Rosário do Catete
Mina subterrânea em Rosário do Catete – Foto: Mosaic/Adema Arquivo

 

Em 2024, a mina produziu aproximadamente 398 mil toneladas de cloreto de potássio, conforme dados divulgados sobre a operação. A nova controladora anunciou planos de ampliar a capacidade produtiva e prolongar a vida útil do empreendimento.

Yokomizo citou a experiência de Taquari-Vassouras como uma vantagem para a futura mineração offshore. Embora os métodos de extração sejam diferentes, Sergipe já dispõe de profissionais com experiência em mineração, processamento de potássio e operações de petróleo e gás.

A exploração offshore poderá, portanto, criar uma nova frente produtiva e ampliar a participação do estado no abastecimento nacional de fertilizantes.

Mercado de trabalho

A South Atlantic Potash mantém um escritório em Aracaju, com profissionais dedicados principalmente às atividades de geologia e geotecnia. Segundo o CEO, a companhia negocia a contratação de serviços para a campanha de sondagem offshore. Com o avanço do empreendimento, novas equipes deverão ser incorporadas.

De acordo com as projeções apresentadas por Bonzi Yokomizo, o empreendimento poderá gerar cerca de 5 mil empregos diretos no pico da construção, durante a fase de implantação. Quando entrar em operação, a estimativa é de 1.200 a 1.500 empregos diretos.

A intenção é priorizar trabalhadores da região, tanto em funções especializadas quanto em atividades operacionais. Entretanto, a empresa ainda não divulgou uma estimativa consolidada de empregos diretos e indiretos.

O projeto conta com apoio institucional da Agência Sergipe de Desenvolvimento (Desenvolve-SE), que atua na articulação de oportunidades de investimento. Para o diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da agência, Ademario Alves, a exploração offshore poderá ampliar a importância de Sergipe na cadeia nacional de fertilizantes.

“O apoio a projetos estruturantes na área de mineração e fertilizantes reforça o compromisso de Sergipe em atrair investimentos de alto impacto, consolidando o estado como um polo estratégico para o agronegócio nacional e gerando novas oportunidades de emprego e renda para os sergipanos”, afirmou.

Sondagens e licenciamento

A próxima etapa será a realização de sondagens offshore com recuperação de testemunhos das rochas. Os resultados permitirão confirmar as características dos depósitos e avaliar seu potencial econômico. Em paralelo, a companhia deverá avançar nos estudos ambientais e nos pedidos de licenciamento.

Depois, serão desenvolvidas as etapas de engenharia, pré-viabilidade e viabilidade econômica. Somente após essas avaliações poderá ocorrer a decisão definitiva sobre a construção. Segundo Yokomizo, a implantação das instalações industriais poderá exigir aproximadamente dois anos.

A tecnologia de lavra por dissolução dispensa barragens de rejeitos sólidos, conforme a empresa. Entretanto, exigirá controle ambiental da salmoura residual e avaliação dos possíveis impactos sobre o ambiente marinho.

Se as etapas técnicas, ambientais e financeiras forem concluídas, Sergipe poderá reunir duas frentes de produção de potássio: a mineração subterrânea de Taquari-Vassouras e a futura exploração offshore no litoral de Aracaju.

 

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