sexta-feira, 23/02/2024
Escritor Marcelo Ribeiro
Escritor Marcelo Ribeiro

Marcelo Ribeiro em Dois Tempos

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Por Léo Mittaraquis (*)

                                                                       “Quando escrevo,

                                                                        respiro a solidão

                                                                        dos que ainda se calam

                                                                        por dever de ofício”

                                                                                                                                                            Marcelo Ribeiro

 

Marcelo Ribeiro é médico, nasceu em Aracaju, Sergipe, em 1949. É membro da Academia Sergipana de Medicina e da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, dentre outras instituições. Escritor prolífico, firmou-se um dos nomes mais importantes da literatura em Sergipe e no Nordeste. Meu artigo crítico desta semana revisita duas de suas obras.

O título nada traz de original. Eu o sei e folgo por isso. Tenho horror à pretensão à originalidade. Pouca coisa, muito pouca coisa no mundo, pode ser considerada original. E, creio, estou em uníssono ao autor, nestas mal traçadas letras, a ser criticado: Marcelo Ribeiro – poeta, cronista, novelista. Sua lavra é única em muitos sentidos, mas bebe em águas diversas. Não esconde, por exemplo, sua grande admiração por Manoel de Barros, poeta pantaneiro. Há de se notar algumas aproximações, porém, não é assunto para agora.

Num acesso de preguiça extrema, decidi por reproduzir, aqui, em dois tempos, considerações sobre dois livros de Marcelo Ribeiro: “Quem não sabe ler, leva carta pra morrer” e “Nem que seja só – Torquato Neto & Tropicália”.

Não só por preguiça, confesso. Também porque minha opinião não mudou quanto aos dois livros desde que os li.

 

PRIMEIRO TEMPO

 

LUÍZA, UMA EPOPEIA DO CABRUNCO – A PROPÓSITO DE “QUEM NÃO SABE LER, LEVA CARTA PRA MORRER”

Eleger, como personagem principal da obra literária, como alma em torno da qual translada o mundo do autor, alguém dentre os tantos e únicos em si, que compõem o universo de gente humilde, não é, decerto, algo incomum.

Porém, mesmo às mãos de um escritor e poeta calejado, como Marcelo Ribeiro, constitui-se, a meu ver, notável tour de force. Exige-se a maestria do bem aplicar às devidas proporções, na qual o pitoresco deve escapar, com elegância, ao caricato. Tranquilizo, nesse sentido, o leitor: Marcelo logra pleno êxito.

Contudo, é também considerável esforço, ainda que em menor magnitude, quando comparado ao ato mesmo da criação, o pôr-se a ler pelo viés crítico – impulso temerário, desavergonhadamente disfarçado de abordagem analítica racional.

Tanto mais quando o título da obra é, também, um alerta técnico e moral, devidamente recoberto pelo doce verniz da ironia: “Quem não sabe ler, leva carta pra morrer”.

Mais ainda pela dimensão epopeica da obra, vale dizer, pela capacidade do autor em nos envolver numa sucessão de eventos extraordinários, de ações gloriosas, retumbantes, provocando a admiração, a surpresa, o maravilhar-se.

Nesta cria recente de Marcelo Ribeiro, o rebuliçoso núcleo, a promover deliciosos abalos sísmicos nas searas gramatical e moral [e há uma sem outra?], a fornecer linguajar muito bem aproveitado pelo escritor, é Luíza, personagem no qual, já de batismo, pespegaram-lhe, mediante nome, a sina. Em sua origem nórdica, renascida nordestina, Luíza é nome a carregar honrosos significados: “combatente gloriosa”, “ilustre guerreira”…

Não por acaso, creio, que, já a primeira narrativa, transcorra por longa e insone jornada noite adentro. Falta de sono? Oh, sim, batalha das batalhas. Insônia, impiedosa deidade que, nos corações e mentes, cultiva o pesadelo das noites em claro. É na cama, campo de disputa, que Luíza luta.

Bate-se, plena de ira, de desejo carnal, de impaciência. E a trilha sonora, tão essencial à estruturação dessa peça matizada de incidentes, é constituída pelo descontínuo e tonitruante tráfego caminhoneiro. E deitada insone que se preza, tem de ser agourada pela presença, real ou imaginária, duma coruja a piar, “a furar o escuro da noite”.

É de primeira que Marcelo Ribeiro demonstra, mais uma vez, saber lavrar sob o signo da pertinência. A valer-se de inconveniente vigília a acossar Luíza, Marcelo a apresenta. As duas sentenças entrelinhadas, «Esta é Luíza» e «Eu sou Luíza», evitam a descrição antropológica, distanciada, bem ao gosto dum François Laplatine, mas, que, neste caso, resvalaria para o maçante.

O leitor [posso afirmar, pelo menos, por mim], torna-se sabedor íntimo sobre quem é Luiza. Corpo e alma radiografados com raras habilidade e delicadeza. Sem excesso de mística e nem de gordura.

A segunda narrativa, de nome “Luíza”, não apresenta a mulher mais uma vez. Desnecessário. Nos vemos, isso sim, diante do evento, a título de ponto de partida, que provocará as ondas espaciotemporais subsequentes. Estas que trarão, nas águas da existência, a significação maior, humana, diária, por vezes espantosas do contagiante ‘thauma luizaniano’. Luíza, imersa em sua vida, e a perscrutar as demais sem pretensão ao profundo. O conhecer Luíza, o conviver com Luíza, o [re]conhecer o mundo mediante aqueles olhos livres.

Luíza também rebatiza: antigas culturas nos proporcionaram meios de compreendermos, inclusive numa perspectiva transcendental, o alto valor de dois significados: do nome e do ato de nomear. A recordar Foucault, em “As Palavras e as Coisas”, Luíza é hábil na arte da linguagem, em “fazer signo e de significar, ou seja, de nomear”.

Luíza nomeia as pessoas com as quais, em diferentes situações, se defronta. Na verdade, renomeia, subsume nomes de batismo e registro numa identificação mais ampla, mais instrumental, denominando aquele e aquela de acordo com as características, a seu ver, inerentes e intransferíveis. E o faz pelo assuntar do jeito e do falar das pessoas. Não pretende ultrapassar o aparente. O logos, como diria Heráclito, fala a Luíza. O discurso diz, por ela, o que coisas e pessoas são.

Com o título “Frustração”, a terceira narrativa é mais uma armadilha de visgo para arisco pássaro ledor como eu. Às primeiras linhas, deparo-me com “Segunda Guerra Mundial” e “Lupicínio Rodrigues”. Seria de bastar para manter este velho leitor, aqui, docemente emaranhado nos fios da bem urdida trama prosadora de Marcelo Ribeiro. Linhas abaixo, dou de cara com um nome muito querido: Ezequiel Monteiro. Devo sustar as lágrimas que lentamente assomam? Não, não… Sou tomado pela melancolia. Lembro do semblante grave do autor de “Contos de Jornal”, livro meio que de contos, meio que de crônicas. Entre os maravilhosos escritos de Ezequiel, neste livro, nutro predileção por “Menino Regressivo”, refinada alusão a “Ulisses”, de Joyce.

Marcelo Ribeiro, o poeta, o escritor, o memorialista… Patentes que se confundem.

Por falar em memória, Marcelo registra, no cartório poético e literário, o nascimento de Luíza, a anti-amélia: “Sua vida seca, dura e áspera hipertrofiou a independência e altivez inatas, embora circunstancialmente sufocadas pelo meio em que foi jogada no mundo”.

Os acontecimentos que, em seguida, nos são passados, legitimam à larga o título “Frustração”, esse sentimento de insatisfação, de contrariedade, causados pela não concretização dos desejos. E se manifesta mediante várias situações: cuidar de crianças e da roça, por isso não estudar; encher a cara e, bêbeda, apalavrar venda da própria casinha por mixaria…

Mas, a Vênus Luíza não se deixa derrotar. Volta por cima, emerge, boticcelliana, sobre as ondas do tempestuoso, escuro como o vinho, oceano das doloridas memórias, merecedora das mais altas honrarias.

E então chego, feliz com leitura tão da boa, à quarta narrativa, “Três por quatro”.

Os dois primeiros parágrafos compõem seu retrato falado. Calete,

indumentária, ritual de maquiagem, vazões oníricas…

Luíza, a convite dos patrões, vai a Recife, até Nova Jerusalém, assiste à Paixão de Cristo. Dá-se a catarse, fenômeno tão bem explorado pela clássica cultura grega: Luíza sofre ao lado do Filho do Homem, durante a tragédia encenada.

Ao voltar para Sergipe, ainda sob efeito do “explícito” sofrimento pelo qual passou o Nosso Senhor, cai de cama, purificada e enferma.

“Casamento”, a quinta narrativa, é um renascimento existencial. Contudo, o vir à luz pela segunda vez não se dá de maneira fácil, menos dolorida. Pelo contrário, é à torquês, rediviva pela extração de si por si do insalubre contexto em que se afundava. A venusiana Luíza torna-se seletiva, tática e estratégica. Mediante a própria experiência, habilita-se, devidamente certificada pelas agruras e suavidades física e mentalmente processadas, a traçar, com perícia, perfis femininos.

Tão hábil quanto, além de cavalheiro, põe-se Marcelo a permitir, como diria Steinbeck, que a história apenas escorra.

A sexta narrativa, “Liberdade e desejo”, ao contrário do que poder-se-ia especular, não é uma apologia ao comportamento tipo “banda voou”. O escritor concede palavra a uma Luíza [embora fogosa, sequiosa, no que concerne ao namoro, ao sexo] equalizadora. A buscar equilíbrio, dentro do possível, entre a atávica pulsão pagã e a razão de fé. A apaixonada e devota ao filho de Afrodite, soube, ainda assim, honrar a si, a administrar impulso, trabalho e reflexão.

“Treta”, sétima narrativa. A eficiência bem recebida, com simpatia, pelo leitor, do híbrido relatar, tão bem explorado por Marcelo, é forte aspecto notado nas sete páginas componentes. Um complexo mundo feminino, representado por ajuntado de conversaria, expõe dramas humanos dos mais diversos, todos a girar em torno dum eixo tragicômico. Mas a massa presencial das falantes não fermenta de súbito animada por aparecer gratuito. Se sabemos dessas vidas, é porque Luíza conta, relembra, revela. E o faz em louvor à satisfação à qual sente-se obrigada a dar à doutora que lhe deu emprego. É divertido e interessante a confissão enquanto ardil usado para conseguir o trabalho.

“Intuição”, a oitava narrativa em torno da mulher de batom. Douta, por ser ciente da sua ignorância, no tocante às letras, principalmente, afina cordas e lâminas da percepção instintiva dos dados imediatos, elabora sua posição no mundo e, sendo a fêmea pegadora de “rato” que é, estabelece “leis naturais”, no ato permanente de responder aos anseios do corpo e às obrigações para com sua fé.

Como se fosse pouco, defende a ativa vida sexual como fator salutar em todos os aspectos. Prescreve, à sua maneira, boticária do amor e do prazer, recorrência sistemática ao “divirtimento”. Para tanto, é necessário, evidentemente, a parceria bem combinada entre mulher e homem [o “rato”]. Nesse sentido, prossegue num hilário discurso classificatório. A mim coube o rir e rir: o escritor, pela boca de Luíza, exercita uma taxiologia dos homens a partir das suas condições e características sexuais.

“Jovina”, assim intitulada a nona narrativa, traz o nome da irmã querida de Luíza. Marcelo recria personagem e universo. Jovina, mana querida da analfabeta Luíza, é gente letrada, humanizada pela poesia. Sabedora de que a “beleza salvará o mundo”. Se não todo o mundo, ao menos o dela e o da irmã Luíza. Por isso leva ao conhecimento da impetuosa e excitada morena, com delicada paciência, a mínima ilustração: “Oferecia-se como instrumento para lhe arejar o espírito, ampliar a visão do mundo, não a deixar restrita ao lavor e à cama”.

Um quê de Weltanschauung joviniana. Instrumento para tanto? Ora, os poetas! Com predileção pelo matuto, que nem elas duas, Manoel de Barros e suas “ignoranças”.

Luíza, por vezes, ela tão pulsional, resiste às líricas licenças e racionaliza, recusando-se a aceitar situações impossíveis descritas em versos. E, sem que se desse conta, Jovina caiu nas boas graças de Suzy, a cadelinha. Ao ouvir, declamadas e explicadas, palavras tão a si familiares, Suzy passou a acompanhar tais conversas com grato interesse.

A cachorra apreciando poesia? Oh, sim. É o universo pessoal, porém compartilhado, finamente elaborado por Marcelo. Nesse campo, tudo o quanto existe toca e canta sob regência do escritor demiurgo. Cenários pautados pela cotidiana banalidade mesclam-se com outros em que algo de realismo mágico descentraliza o foco, às vezes, excessivamente racional do leitor, numa inconsciente tentativa de reorganização não autorizada do andar das coisas.

“Um mundo de quintal” [“Eu tenho um ermo enorme dentro do olho”, Manoel de Barros]. Se o escritor brilha no comando do seu universo, por ele criado, logra êxito, também, ao demonstrar sensível competência de interpretar o alheio, tão complexo quanto, construído por outro poeta: Marcelo nos oferece, em boa embalagem e excelente conteúdo, o mundo do Manoel de Barros. É quando percebemos que a nona narrativa, “Jovina”, opera como nota introdutória, como uma síntese ritualística de iniciação.

Quintalesca nomenclatura é coisa dos dois competentes “emes”: Manoel e Marcelo. Este último não dana a explicar o primeiro. Não é menino bobo, não há de meter mãos pelos pés. “Um mundo de quintal” é hábil exercício de metaverbalização. Nós que nos viremos para tornarmo-nos dignos do poder de ver, ouvir, apreender e compreender. A chave é a compaixão. Esse sentimento benévolo e solidário manifesta-se pleno em Marcelo Ribeiro. Vale dizer, no caso aqui, sua lavra abraça, convida, senta-se à mesa conosco, compartilha a mesma garrafa de vinho… E mais uma.

Ou uma cachacinha. É uma poética da paciência, do compreender, do pragmático ao abstrato, o que seu leitor é e o que pode passar a ser após comer e beber das palavras, das [im]possibilidades da língua, da escrita. Marcelo faz-se digno de transitar pelo quintal do sinhô Manuel. Tem a permissão do amigo poeta, de desimperaltada infância, de sentar-se no mesmo banco, de saber dos mistérios…

Ora, sim, certo, tudo muito bonito, como diria Erza Pound, mas, e quanto à Luíza? Hum… Embora não citada por explícito, la donna libidinosa paira sobre as linhas. Seu suor, seu batom, seu dizer, estão ali, bem ali. Deidade merece pompas e circunstâncias. A ela, a música, a recitação encomiástica.

Na décima primeira narrativa, “Secura de Vidas”, a incandescente luzivenusiana é homenageada por menestrel de altitude. Resumo biográfico muito bem deitado em versos. Marcelo, com muito jeito, dá o alerta: se há vidas severinas, há, no conversor transmutante do escritor, igualmente, um viver graciliano. À Luíza é apresentada obra de primeira linha, o cordelista convidado fala-lhe, pondo-a, em certa medida, mais elevada que Fabiano: mais mulher, por ser mulher; bem mais homem do que ele.

As duas narrativas seguintes, “Suzy” e “A vida que poderia ter sido”, tratam da vida e da morte da cadela Suzy. Quanto a estas não me alongarei. É frouxidão, confesso. Basta a imensa e profunda dor que os eventos me fizeram sentir no coração e na alma. Já me debulhei em lágrimas. Me doeram e dilaceraram porque são muito bem elaboradas. Construção cortante e delicada. Diante dessas duas histórias, não sou tão forte como Luíza e sou ainda menos homem que Fabiano. Exumaram, em mim, remorsos nem tão mortos, nem tão esquecidos. Sei, contudo, que mais adiante, as lerei, e o farei mais de uma vez.

Poder, como reconhecimento da autoridade e da moral com as quais alguém é investido, é coisa bem entendida, até pela mente mais simples. E eis que, de repente, Luíza é promovida: funcionária do consultório médico. Na décima quarta narrativa, “A funcionária”, não obstante atuar, então, num lugar de ciência, onde predomina o ato de interpretar a linguagem da biologia em cada corpo feminino examinado, não abre mão do procedimento ritualístico, do convocar das forças espirituais positivas contra as negativas, manifestadas mediante ação nefasta dos “vizinho cu de chumbo que bota oio”. Enverga uniforme, doravante. Leva a sério a diferenciação, a simbologia, a concessão de posto. Ante tal responsabilidade, não fez feio, reafirmando sua natureza de ser grata, zelosa e fiel.

Em mãos inábeis, o preâmbulo da décima quinta narrativa, “Religião e Sexo”, tornar-se-ia, para minha decepção, mero panfleto. O que, felizmente, não acontece. Marcelo, também dotado de lastro clínico, sabe dosar bem o grau de indignação no que toca a situação trágica do sertanejo “diante das agruras”. Realidade climática inclemente, fator ideal para o cultivo concomitante do desespero infernal e da fé inabalável na proteção divina, a conjuntura descrita leva em consideração a injustiça, a pobreza, a violenta imposição dos interesses dos abastados sobre os humildes desprovidos de quase tudo.

Dada ciência ao leitor, cumpre narrar o papel de Luíza nesse contexto, levando em consideração ser ela também uma sertaneja acossada por dissabores semelhantes. Todavia, é indiscutível que, nela, o místico e o visceral atuam com força redobrada. Um esforço sincero em contemplar ambas as possibilidades. Diz respeito ao sentimento religioso, que prevê, no caso, a purificação mediante a sublimação dos desejos carnais e, também, o natural, atávico clamor do sexo.

Luíza, fogo e paixão, também é crente, é devota, “apegada a Deus”. Mas não reconhece a instituição religiosa, a Igreja. Respeita as “leis divinas e as leis dos homens”. Porém traçou seu próprio caminho, numa perspectiva sincrética, a qual lhe permite incluir cultuar a rainha das águas.

Como já assinalei mais acima, o sexo, a “lambada”, na concepção de vida de Luíza é, lembrando, aqui, Jean-Pierre Vernant, “restauradora e curandeira” no que concerne às necessidades do corpo e, em certa medida, do espírito. Quando em falta, “o sofrer é grande. Fica impaciente. Um maltrato”.

Lampião e Maria Bonita, emblemática dupla, inseparável do imaginário popular sertanejo, são os notáveis coadjuvantes da décima sexta narrativa. Luíza, à cata de nome para um casal de cágados que adotara, resolve-se por aqueles. Coerente, entendendo o sexo como motor central dos eventos pelo mundo, atenta para esse aspecto da quelônia convivência.

Impressiona-se e brinca ao comentar o jeito do «divirtimento” dos retráteis animais. Enxerga, ao mesmo tempo, vantagens em criar bichos que ficam quietos na maior parte do tempo. Nesses tímidos representantes de um passado habitado por gigantes monstruosos, Luíza, talvez, veja um jeito de vida boa e simples, condições pelas quais já se revelou radicalmente afeita. Em tempo: a história dos cágados traz um quê de incidental cômico e curioso ao longo da composição que dá corpo ao livro. Mas não fica deslocada. Na minha opinião, atua quase como uma pausa. Um vagar, um desocupar-se, por instantes.

Em tom de reflexão socioantropológica, mas, preservando o lirismo, a firmar divisas entre campo de ciência humana e a literatura, a penúltima narrativa, “Boa Noite, Cinderela” traz o melhor das possibilidades oferecidas pelos gêneros crônica e ficção. Mais uma vez, o traquejo memorialista, documental, de Marcelo Ribeiro nos contempla de forma generosa. O périplo cobre, numa síntese abrangente, nossa formação nacional [o que implica na cultural] sob a ótica da música e da religião; da crítica social, da distorção intelectual da realidade a descambar em preconceito.

Para, mais uma vez, deixar claro sobre o quê e quem se trata “Quem não sabe ler, leva carta pra morrer”, coisa de oito páginas mais adiante, ressurge Luíza. Tudo o que fora dito antes revela-se como pano de fundo para o evento memorável que irá coroar uma fase da vida dessa incomum personagem criada a partir do meio mais comum.

Todo escritor sabe que é ao final da exposição de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados, reais ou imaginários, que dar-se-á o veredito do leitor. Recordo de Borges revelando que iniciava seus contos pelo começo e pelo fim. Depois resolveria o meio. O bardo argentino sabia bem das armadilhas. Uma má conclusão pode ser o fim do reconhecimento ao escritor como escritor. Morre-se na praia, como dizem.

Marcelo Ribeiro conclui seu livro de maneira feliz. A última narrativa, “Cupim 19” aborda o fenômeno da pandemia. Luíza, como sempre, nomeará a coisa como a coisa merece: cupim.

Metáfora das mais acertadas. Comendo de dentro para fora, invisível, por vezes letal, o coronavírus solapou grande parte das instituições, remodelou comportamentos, aterrorizou os espíritos mais serenos, desafiou a ciência ao extremo, inspirou discursos apocalípticos e populistas. Impôs distâncias.

Sim, Luíza, mais uma vez, exibe perícia semântica. Entre o que é ficção e o que é realidade, Marcelo retrata a mulher que decide “tomar as rédeas do destino”. Nela, ainda que haja a batalhadora, a insubmissa, há, também, a pessoa boa e generosa.

 

SEGUNDO TEMPO

 

NUNCA SERÁ SÓ… — A PROPÓSITO DE “NEM QUE SEJA SÓ”

Exumar terríveis dores de consciência. Mediante leitura atenta, eis minha percepção de “Nem que seja só”, do poeta, cronista, pesquisador e memorialista Marcelo Ribeiro — Os “títulos” são mais que justos e legítimos. E Marcelo os traz, sem ostentação, heráldicos sob o signo da verdade e da honra.

Voltando à obra: creio que, do que li, até agora, da produção de Marcelo, esta é a que ele mais se dedicou a compor cuidadosas construções frasais, às quais agrega-se, de imediato, um bem aplicado verniz filosófico, emprestando ao livro, de forma elegante, leveza estética e densidade de exposição dos dados e dos argumentos. E, então, sim, Marcelo exuma, vale dizer, retira das insuspeitas galerias subterrâneas da história, o que se encontrava guardado, desfigurado, maquiado, escondido.

Marcelo Ribeiro não nos relata um acontecido de forma distante, com imparcialidade pedante, num “toma aí, e veja o que acha”. O autor se compromete, se envolve, toma partido, mas, de maneira honesta, contando o que foi do jeito que foi.

Isso quer dizer que não interpreta? Maneira alguma afirmo tal disparate. Marcelo o faz e, como bem orienta a Crítica da Razão Literária, se interpreta o faz contra alguém ou contra alguns. O sentido do que se ouve, do que se lê ou vê [ou todas essas possibilidades ao mesmo tempo], de acordo com cada um, do modo como se vê as coisas do e no mundo, seja sempre contraposto a outros sentidos. É uma tomada de posição.

Em todo o livro, duma forma equilibrada, manifesta-se as atitudes, as opiniões do escritor diante das situações descritas. E o que poder-se-ia considerar, numa desavisada percepção, como mera digressão é, em verdade, composição de contextos que bem fundamentam, como de certa forma este crítico aqui já observou mais acima, o que é mencionado, denunciado, revelado.

Destacara eu, às primeiras linhas, o cuidado formal com o qual Marcelo Ribeiro produziu o texto. O autor é notório conhecedor da língua portuguesa. Transita bem pelo linguajar popular e pelo tecido complexo do discurso adloquial, aqui e ali, sem, contudo, incorrer no rebuscamento gratuito.

Marcelo também é poeta, não nos esqueçamos. Domina, como poucos, aos estados metálicos, físico-químicos de rigidez, de maleabilidade, de inércia, sabendo, muitíssimo bem, aplicar a força motriz sob medida exata. É de conhecimento de todos nós que tivemos e temos algum contato proveitoso com os clássicos: quem bem domina a palavra, domina os fatos – sejam os pertencentes à mais comum realidade operatória, sejam os revisitados pelo escritor.

O núcleo duro de “Nem que seja só” é a breve, todavia marcante, existência de Torquato Neto no cenário político-cultural dos anos 50 e 60. Décadas emblemáticas, queiramos ou não.

As coisas ocorrem entre o Rock’n’roll da Poesia, a Poesia Concreta e o movimento Tropicália. Ou seja: pós-guerra da Coreia, bipolarização ideológica e consequentemente guerra fria; guerra do Vietnam e revolução cubana.

O Brasil contribui com a inauguração de Brasília e com os “anos de chumbo”. Há muito mais, evidentemente. Cito, em retalhos, pequenas partes de imenso cenário.

Marcelo Ribeiro o sabe muito melhor do que eu. Ele viveu, diretamente, o que eu soube pelos livros e pelas pessoas.

Portanto, é a composição narrativa do autor que é interessante, acima de tudo, nestas pobres linhas que traço. Sua veia de pesquisador, investigador, desentranhador de coisas olvidadas, enfiadas, varridas para baixo do tapete, recontadas, reescritas, o leva a percorrer e desenredar labirintos.

Na leva de tantas e tantas quase perdidas ocorrências — pois, ignorar, esquecer, também é perder —, velados pontos ao longo da trama do tempo e do espaço, é provável que emane, dos acontecimentos, “uma estranha energia das coisas quando elas precisam acontecer, mas não é incomum fazer-se raridade a ela apor o mérito devido”.

Marcelo cuida de que o fenômeno ocorra livremente. E tudo o que pode ser e foi observado por Marcelo recebeu, deste, o valor ao qual fez jus. A Tropicália é descrita numa fascinante dinâmica: “No longo e sinuoso caminho, não se mostraria firme o amor como começara. Tisnou-se o mar de água clara, alva, muito clara. Por outros mares de loucura, foi”. Pois é: a cambraia viu-se em trapos e manchada, o vermelho não mais era apenas do cravo, senão, da mágoa, do inferno interior e do ressentimento.

Marcelo Ribeiro deita e rola dentre paráfrases competentes, oportunas, bem encaixadas. Fez o dever de casa: ouviu e leu as letras; ouviu e leu depoimentos… Enxergou entre as linhas e entre os acordes. Soube compreender quando o compositor e cantor baiano disse sim ao sim e não ao não. Caetano não bebeu, sem refletir, o anarquismo-cocacólatra. Tipo: derrubem prateleiras, sim; porém, não as minhas. “Auto exigente, perfeccionista e imodesto, não admitia ser mais um; buscava trabalho forte, singular, qualidade internacional”.

Página a página, o livro de Marcelo Ribeiro é exposição de capas de vinis no sebo da memória. Pelo menos na dos que ainda a detêm. E, neste sentido, o exumar/recordar/recolocar Torquato começa no capítulo quatro. Experiente, sagaz, Marcelo, apesar de assumidamente “agoniado”, não se deixa levar pela pressa, não atropela o andar duma carruagem que já andou, já percorreu o caminho da História. Aquele poeta e compositor e, em breve, suicida, entra em cena aos poucos. A figura que se fará presente sem saber o que fazer da própria presença no mundo, o deixará, sem planejamento, traços indeléveis.

Enquanto isso, à sombra da dupla superbacana Cae & Gil, outras figurinhas se movimentavam com maior ou menor timidez: Nara, Tom Zé, Capinan, Gal… Betânia tratava de si.

Mas, as brincadeiras trópico-anarco-antropofágicas são levadas muito a sério pelos governantes militares. E o tempo fechou.

Marcelo soube aproveitar muito bem o “tudo ao mesmo tempo e agora”. A realidade política da época é retratada num estilo tragicômico sem carregar nas tintas.

Em “Nem que seja só”, o fenômeno Tropicália/Tropicalismo, o buscar dum sentido existencial pela juventude politizada, o efeito devastador das constantes ondas de choque cultural — contra ou a favor, a depender dos valores e perspectivas —, os processos criativos, os conceitos de família, nação, identidade, liberdade, são coisas descritas e avaliadas não com pretensões à imparcialidade, mas, sim, com a condução segura do leme da nave na qual o capitão é o autor, dando um chega prá lá crítico, embora não violento, valendo-se dum remanso bem calculado, naquela, a outra, a Navilouca.

Torquato Neto, autor da letra da qual Marcelo Ribeiro, de forma perspicaz, extraiu o título do livro [“Pra Dizer Adeus”], ganha mais destaque no epílogo, página 69. Nada mais adequado, com o toque, sem exageros, de melancolia. Ele, Torquato, que, mal chegando ao Rio de Janeiro, já é acordado com a notícia da tomada de poder pelos militares.

Marcelo Ribeiro traça com economia e riqueza a trajetória do poeta e compositor piauiense. Sua personalidade sanguínea, sua capacidade reconhecida de compor com maestria, mesmo não sendo músico.

Alcoólatra, por vezes dotado de simplicidade extrema, a manifestar falta de senso prático, Torquato ergue bandeiras contra a corrupção, a canalhice, em nome da liberdade, contra o regime militar, mergulhando nas experiências alucinógenas.

Imolou-se rompido com o mundo.

Querem saber como, por que e quando? Leiam “Nem que seja só”, do escritor e memorialista de altíssimo calibre, Marcelo Ribeiro. Por enquanto é “apenas” um livro. Desconfio de que, para todos os que o lerem com atenção, não permanecerá somente isso.

Sou leitor da lavra de Marcelo Ribeiro, e não é d’oje. Aprendi a admirar o escritor polivalente, na linha dos que sabem fazer bem seja em qual for o gênero no qual decidem por produzir sua literatura.

E o homem, irrequieto, “agoniado” ainda teima em nos oferecer novos e deliciosos títulos. Aguardemos.

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Sobre Leo Mittaraquis

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Léo Mittaraquis é graduado em Filosofia, crítico literário, mestre em Educação. Mantém o Projeto Leitura Crítica. @leo.mittaraquis (perfil Leitura Crítica no Instagram)

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4 comentários

  1. Que beleza! Fiquei com vontade de conhecer mais do autor, sobretudo pela história da Luíza, a que fala com o logos! Parabéns, caro Léo, pelo trabalho diligente na crítica literária. Esforço raro e enorme!

  2. Gilmária Vieira da Silva

    Seu trabalho é digno de elogios. O seu comprometimento com a excelência é notável. Vocês são fontes constantes de inspiração para cada leitor. É com imensa alegria que agradeço a brilhante abordagem dos seus artigos sobre os dois livros do Marcelo. Gratidão com admiração, estimados amigos, Léo&Iara 📚!!

  3. Juliana Vieira da Silva

    Prestígio e reconhecimento merecidos na visão de um grande intelectual e escritor.

    Parabéns aos envolvidos!

  4. Marcelo da Silva Ribeito

    Beleza de texto. Emocionante. Gratificante por demais. QUE BOM QUE, NUM TEMPO DE MEDIOCRIDADE GENERALIZADA, AINDA EXISTAM PESSOAS COM SUA QUALIDADE DE INTELIGÊNCA E PERSPICÁCIA. NEM TUDO ESTÁ PERDIDO
    AVE, LÉO MITTARAQUIS!

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