terça-feira, 07/06/2022
Esplanada do Tempo

Germano Xavier lança seu terceiro livro

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Luis Osete (*)

No meio do caminho tinha um tempo. Perdido entre o sonho e o sentido, moderno, silente, ferido, dramático, implacável, escrito, presente, interminável, líquido, tinha um tempo no meio do caminho. Tinha um tempo extenso, aberto e largo, como uma infância ilimitada. Um tempo e suas lentas ondas de suplício, onde um Grande Peixe navega na peleja eterna frente aos sais do esquecimento. No meio do caminho tinha um tempo.

Estamos no meio do caminho da Trilogia do Centauro. Após a sua memorável abertura, em 2021, com a publicação d’O Homem Encurralado – coletânea de 51 poemas vertidos para o francês sob o título L’Homme Acculé pelas mãos da escritora e tradutora luso-angolana Luísa Fresta – Germano Xavier nos apresenta, neste 2022 despistador de amanhãs, a segunda parte desse instigante projeto bilíngue: Esplanada do Tempo ou La Terrasse du Temps.

Se a contagem numérica dos poemas, a sofisticada simplicidade dos versos e a tenacidade em manobrar o volante das coisas sem nome sinalizam trilhas de continuidade entre as duas obras, a obstinada investigação poética de Germano agora mergulha em outras marés. Encurralado, o eu lírico procura, à luz da cidade, a chave que dá para a imensidão. E, com a letra invertida na voz do poeta, vai nos dando notícias dos verbos, dos ecos, dos sonhos, do tempo e da sua imparável sucessão.

Este é um livro para ser lido em todas as estações, no abandono dos bancos, no chão ainda molhado, na hora mais morna, no cômodo com sombras, no colorido dos passados. É uma obra para ser estancada no centro da cidade, como um circo, ou preparada para singrar o mar, como um barco futuro. Um livro para os horizontes móveis de cada rosto, para as dobras do caminho de cada mão. Crônica humana das nossas memórias mais fundas, a poesia de Germano habita o espaçotempo de toda possibilidade.

Lembro-me de minha avó, Maria Ribeiro, aos 81 anos, indagando-me, no sofá da sala de sua casa: “Osete, quem é esse outro?”. Diante de seus olhos, o poema XI d’O Homem Encurralado, que fala de um outro | múltiplo | – e ainda mais encurralado – que regressa da jornada noite adentro. Ensaiei uma resposta, mas foi meu sobrinho Ícaro, de seis anos, atento àquele diálogo poético, quem assumiu a fala e lhe respondeu. Espantado, olhei para minha avó e ela sorriu satisfeita, contemplada com uma comunhão de palavras que eu não saberia transcrever.

Sei apenas que essa escrita germina, inquieta, mobiliza e liberta sensibilidades. É de uma força tamanha que, para ressoar os achados dessa voz que se busca em cada verso, faz-se mister atravessar as correntezas da dúvida, como tão poeticamente expressou a escritora portuguesa Regina Correia em mais um primoroso posfácio. Concordo com ela, a voz estética de Germano é “polifonia de vozes que, em dissonância poética e filosófica, se abre à harmonia de voz coletiva no eu, em tempo de indigência”.

O esforço coletivo para versejar esse tempo de homens sentidos irmana distintas sendas literárias, algumas das quais estão expressamente situadas nas epígrafes e dedicatórias, a exemplo da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, homenageada nos últimos dez textos do livro. Em seu conciso poema Atlântico, avisto a síntese poética precisa dessa travessia que une Germano, Luísa e Regina: “Mar, // Metade da minha alma é feita de maresia”.

É do mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim do encontro transatlântico desses três seres dedicados a girar a manivela dos motores poéticos que nos chegam os marulhos da segunda parte dessa jornada luso-franco-brasileira. A impressão é de que, como na vida, habitamos neste livro o limiar entre a continuidade de nossos ri-achos e a necessidade de novos começos.

Com o sabor ainda recente do amanhe(s)er encurralado, há uma tarde inteira pela frente para você, ser vivente, reger e chacoalhar a Esplanada do Tempo. E, depois, // serão somente // as coisas minhas que são suas, // o passo afundado, a vestimenta balouçante, // o vento contra, a lisura da imperfeição // à imagem de um finito futuro // como um arco-íris que não se envergou.

Que sejam bem-vindas as primaveras no meio do caminho.

 

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(*)  Luís Osete Ribeiro Carvalho é jornalista e psicólogo.

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