segunda-feira, 21/09/2020
Professor doutor Lysandro Borges da UFS: "Sergipe é uma experiência ao vivo"

Covid-19: “Sergipe é uma experiência humana ao vivo, porque contraria as estatísticas”, diz Lysandro Borges

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“Sergipe é uma experiência humana ao vivo, porque está contrariando as estatísticas de todos os casos relacionados à covid-19”, diz Lysandro Borges, professor do curso de Farmácia  da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e doutor em Bioquímica, ao se referir a três fatores que têm contribuído para a redução no  número de casos e mortes pela covid-19: os linfócitos T, a imunidade de rebanho e a adesão do uso da máscara, principalmente na Grande Aracaju. Os linfócitos T são células de defesa, que atacam algo estranho que chega ao organismo.

“As pesquisas demonstraram que essa célula já está apta a atacar o SARS-COV-2, vírus causador da covid, sem nunca ter tido contato com ele” diz Lysandro Borges. A taxa de circulação do vírus que, entre abril e maio, era de 4.5, hoje está em 0.7, índice medido pelo Covid Analytics, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC) e UFS.

Mas mesmo assim, Lysandro diz que a população não pode relaxar e deve manter o distanciamento social, usar máscara e higienizar sempre as mãos, lavando-as com água e sabão ou usando álcool em gel. Ao mesmo tempo, a equipe de Lysandro segue com pesquisas sobre covid-19. Na sexta-feira, foi concluído um inquérito de soroprevalência  pioneiro em todos os presídios sergipanos, cuja população é de 5.800 internos.

“Desconheço algum trabalho semelhante no nosso país”, disse Lysandro. A equipe de Lysandro já conseguiu publicar um artigo na revista da Organização Mundial de Saúde (OMS), sobre inquérito de soroprevalência da covid-19 no Estado de Sergipe. Para ler o artigo, em inglês, clique aqui.

Nessa sexta-feira, o professor Lysandro conversou com o Só Sergipe.

SÓ SERGIPE – O índice de contaminação por covid-19 está em 0.7 em Sergipe. O que levou a esse número significativo?

LYSANDRO BORGES – Há alguns fatores relacionados a isso.  Primeiro, foi uma publicação recente que mostra que metade da população, tendo contato pela primeira vez com o Sars-Cov-2, o vírus causador da covid-19, já tem células de defesa aptas a atacarem o vírus, que é o linfócito T. Então, isso é algo inédito que foi comprovado. Ou seja, uma pessoa que nunca teve contato com o vírus da covid-19, tem condição celular de destruí-lo.  O segundo ponto é: como o Estado de Sergipe fechou muito precocemente e só perdia para Tocantins em número de casos e óbitos, por muito tempo deu a sensação de que o vírus circulava pouco no Estado. E aí houve uma flexibilização muito grande e muitas pessoas se contaminaram. Tivemos o pico no dia 17 de julho e naquela data houve o máximo de exposição do vírus. Consequentemente, logo em seguida, no mês de agosto e agora culminando em setembro, temos uma grande parte da população já com anticorpo de memória que é o IgG (imunoglobulina do tipo G), o anticorpo que mostra que a pessoa já teve contato com o vírus e está recuperada.  Não quer dizer que ela não vá pegar de novo, mas a chance do vírus circular nessa pessoa é baixa. O nome disso é imunidade de rebanho. Uma fase importante, na descrição da literatura diz que imunidade de rebanho se atinge com 60%. Você pega o gado, por exemplo, com um vírus novo, se você vacina 60% do gado, o vírus para de circular. Eles acreditaram que com o ser humano era a mesma coisa, só que não é. O estudo europeu conduzido por Portugal, Inglaterra, Espanha e Itália, mostrou que com 20% da população tendo contato e tendo anticorpo de memória, já temos um freio da infecção. Então, imagina: em abril, quando fizemos o inquérito de soroprevalência, nós tínhamos 7% de IgG. Então, abril, maio, junho e julho, se cada mês foi 7%, temos em torno de 30% da população sergipana com IgG. Isso é uma hipótese e pode ser muito mais. É natural e as pessoas não entendem e se perguntam: está tudo aberto, flexibilizado e como não aumentam casos, nem óbitos? Por estes três fatores: o linfócito T, como acabei de explicar, a imunidade de rebanho e a adesão do uso da máscara, principalmente na Grande Aracaju. Nos interiores menos. Por isso que agora, nós temos o aumento do número de casos nos interiores, pela não adesão do uso da máscara.

SS –  Eu gostaria que o senhor explicasse mais sobre o linfócito T, que temos no organismo.

Lysandro: “Precisa estudar mais”

LB – Essa é a célula de defesa do nosso organismo. Ela ataca tudo que é estranho. As pesquisas demonstraram que essa célula já está apta a atacar o SARS-COV-2 sem nunca ter tido contato com ele. Por quê?  Porque existem outros coronavírus no meio ambiente. Um exemplo clássico que nós temos são os coronavírus dos cães e gatos. Se uma pessoa tem um animal doméstico, por exemplo, ela pode entrar em contato com esses coronavírus, as células de defesa se expõem a esse vírus e quando entra em contato com SARS-COV-2 ela pode estar preparada para atacá-la.  Foi uma descoberta inovadora que veio explicar muitas coisas: porque pessoas entram em contato e não desenvolvem nada. Fazem exames e não dão nada: o pai, a esposa, o irmão tiveram e aquela pessoa não teve.

SS – Quem tem cães e gatos pode, talvez, não ter a covid-19, porque já tem o linfócito T?

LB –É uma hipótese. Tem que estudar isso, porque esses animais têm os próprios coronavírus deles.

SS –  Obviamente que as regras de higiene, como usar máscara e lavar bem as mãos são atitudes positivas. Mas, e de agora em diante?  Elas terão que permanecer?

LB –  Exatamente. O mais importante, e que as pessoas também não se dão conta, é que com a covid-19 melhoramos a nossa higiene das mãos e prevenimos outras doenças, viroses. Esses hábitos vão reduzir drasticamente outras doenças e a longo prazo veremos a redução de outras viroses.  Enquanto não tivermos a vacina, estas medidas: usar máscara, álcool em gel e quem puder, o distanciamento social são fundamentais.

SS –  Nós estamos tendo flexibilização. O Governo está no caminho certo?

LB – Estamos no comitê, eu faço parte. Estamos há sete semanas sem aumento de casos e óbitos.  Embasado na ciência é que se toma essas decisões. Mas se começar a aumentar o número de casos e óbitos, voltamos à estaca zero: começa a fechar tudo novamente. Como aconteceu nos Estados Unidos, onde mil estudantes foram infectados na reabertura das universidades. Nossa maior preocupação é escola e universidades, quando reabrirem. A criança é assintomática e transmite muito. Na Inglaterra a campanha é “não mate sua vó”, mostrando que criança e adolescente pegam, não sentem nada, mas contaminam o grupo de risco. O maior problema é esse.

SS – Às vezes, as pessoas imaginam que flexibilização dá a entender que a pandemia acabou.

LB – Com a flexibilização, o mais importante é que as pessoas entendam que a pandemia não acabou. Tenho visto pessoas parando de usar máscara, aglomerando, com aquela sensação de que acabou. E, na verdade, não acabou.  Fazendo uma analogia: somos um paciente saindo da UTI, mas podemos voltar; a doença está presente, porém sendo tratada. Se as pessoas não fizerem a sua parte, nós teremos uma segunda onda.

SS – Então, ainda é prematuro, mesmo com os dados animadores dos estudos, dizermos que  aqui em Sergipe chegará logo logo o tempo em que não teremos mais covid-19?

Covid-19: números de casos e mortes em queda

LB – Olha, o mês-chave que é outubro.  Na literatura descreve-se o seguinte:  esse anticorpo de memória, da imunidade de rebanho,  dura em torno de três meses. Vamos supor: julho, agosto e setembro: nós estamos estáveis em número de casos e de óbitos, cada dia reduzindo mais. Se até final de outubro não tivermos uma segunda onda, provavelmente, se houver um aumento no número de casos, será muito incipiente. Lembrando que na Europa já está ocorrendo a segunda onda, porque o pico deles foi em abril. Fazendo as contas: maio, junho, julho, agosto, quatro meses. Quando isso estourou? Setembro, porque a imunidade segurou quatro meses.  Na verdade, em Sergipe somos uma experiência humana ao vivo, porque está contrariando todas as estatísticas dos casos relacionados à covid-19. Outubro é o mês-chave. Se até o final de outubro não tivermos uma segunda onda, um aumento de óbitos e casos, provavelmente, nós conseguiremos segurar. Vai continuar tendo casos, pessoas nas UTIs, mas em número pequeno, de você dizer, zero caso em janeiro, fevereiro. Mas até lá, teremos casos sim.  Porque aqueles idosos, as pessoas mais medrosas que ainda estão em casa vão começar a circular, se expor novamente. É a hora dessas pessoas se infectarem. Mas estamos vendo que, tanto na Europa como aqui, a letalidade diminui. Agora, nessa segunda onda na Europa, não há aquela mortalidade que tinha na Itália ou na Espanha. É provável que no Brasil se continue nesse perfil.

SS – O senhor acredita que, mantendo essa situação em Sergipe, o Estado entre para a literatura médica de forma bastante positiva?

LB – Claro, com certeza. Só o nosso grupo tem em torno de 14 publicações a serem mandadas para revistas internacionais. Nós finalizamos hoje (sexta-feira, 11), o trabalho em todos os presídios sergipanos e somos pioneiros.  Nosso grupo foi o único a ir nos presídios fazer o soroprevalência, saber quantos infectados há nos presídios. Então, tudo isso é novidade, pioneirismo.

SS – O senhor diz que somos o único grupo no Brasil que fez o inquérito de soroprevalência em presídios?

LB – Sim. No Brasil, com essa amplitude, eu não li nada a respeito.  E lembrando que a Universidade Federal de Sergipe (UFS) está em sétimo lugar no ranking das melhores do Brasil.

SS –  Sobre o inquérito de soroprevalência nos presídios sergipanos, que conclusões se chegou?

LB –  Temos já a circulação do vírus e muitos recuperados, entre 5.800 apenados. Já há grande quantidade de recuperados. E não ocorreu agravamento, nem mortes. Muita sorte deles e a ciência. A maioria dos nossos apenados são jovens. Não há preso de 70 ou 75 anos. Como a doença no jovem agrava menos, essa também foi uma vantagem.

SS – E quando esse artigo, com o inquérito sobre a situação dos presídios sergipanos, deve ser publicado?

LB –  Nós vamos divulgar  o estudo para o governador no dia 14. Vamos mandar para as revistas  e eles levam em média 15 ou 20 dias para analisar. E para fazerem a publicação demoram um pouco. Vamos mandar para Science ou Nature.

SS – Esse trabalho de vocês pode melhorar o ranking da UFS?

LB –  Claro. Toda publicação vai alavancando. A UFS publicou muita coisa em relação à covid-19. Conseguimos publicar o artigo na revista da Organização Mundial de Saúde (OMS), um inquérito de soroprevalência da covid-19 no Estado de Sergipe.

UFS:  sem investimentos

SS – A UFS não fez estudos com vacinas?

LB –Aqui não, embora tenhamos professores desta área.  Como aqui na UFS, infelizmente, não temos investimentos há muitos anos, é impossível trabalhar. Conseguimos realizar esse trabalho através da verba que veio dos Ministérios Públicos Federal, Estadual e do Trabalho. Sem  a verba deles, não teríamos feito nada. É muito difícil sem dinheiro.

SS –  O que será feito, ainda, de estudos sobre a covid-19 aqui em Sergipe?

LB –  Nós estamos terminando pesquisa com os quilombolas, fizemos em seis povoados e faltam cinco. E o estudo deles é importante. Há a publicação, também, dos índios Xocós, e vamos fazer nos asilos. Nossa próxima etapa agora, provavelmente, será na próxima semana.  E faremos pesquisa com motoristas e cobradores de ônibus.

 

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