sexta-feira, 14/01/2022
Está aberta a temporada de compras, estamos na Black Friday Arte: Rose Garcia

Caso não tenha, não gaste

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Luiz Thadeu (*)

A nova religião do mundo moderno é o consumismo. Toda hora somos bombardeados pelas mídias para comprar, comprar e comprar. Nestes  tempos em que Papai Noel é mais importante que Jesus Cristo, o filho de Deus, e se tornou o símbolo do Natal, tudo é comércio, são tempos mercantilistas.

Os comerciais de TVs e internet estão aí a nos incentivar a comprar o que às vezes não precisamos, fazendo girar a roda do endividamento desnecessário. Assim funciona a indústria e o comércio desde que o mundo é mundo.

Está aberta a temporada de compras, estamos na Black Friday, mais um modismo importado dos americanos. A nação mais consumista do planeta é mau exemplo para o mundo.

Tradicionalmente, nos Estados Unidos, a Black Friday acontece na sexta depois do Thanksgiving – o dia de Ação de Graças. A quinta celebra a gratidão dos estadunidenses por tudo de bom que aconteceu durante o ano.

Na terra do tio Sam, a expressão “Black Friday” foi usada pela primeira vez em 24 de setembro de 1869. Originalmente, o termo, que em português significa “sexta-feira negra”, se referia a um evento diferente. Na ocasião, dois especuladores tentaram tomar o mercado do ouro na Bolsa de Nova Iorque. Isso fez com que o governo precisasse intervir, elevando a oferta de matéria-prima e, consequentemente, fazendo com que os preços caíssem.

Hoje, a Black Friday é uma das principais datas para venda online e offline, mas só ganhou esse status em meados dos anos 2000. Nos EUA, desde então, todos os anos, imensas filas se formam para garimpar descontos, muitas vezes, ainda, na noite da quinta – já que muitas lojas abrem meia-noite.

A tradição norte-americana desembarcou no Brasil em 2010. Para se ter uma ideia da dimensão, no evento do último ano, o varejo online brasileiro faturou R$ 3,2 bilhões, segundo levantamento da consultoria Ebit/Nielsen. O número é 23,6% maior ao registrado na Black Friday de 2018, quando as vendas totalizaram R$ 2,6 bilhões.

Por aqui a Black Friday ganhou força coisa de uma década. No início, alguns comerciantes espertalhões, dobravam os preços dos produtos antes, depois davam falsos descontos, na tentativa de ludibriar os consumidores. Com o tempo, essa prática mudou. O problema é que grande parte da população brasileira está endividada. Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo( CNC), o número de brasileiros endividados bateu recorde histórico no levantamento feito pela entidade desde 2010. No mês de julho, eram 71,4% do total dos consumidores que carregavam alguma dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).

Segundo a entidade, os números elevados são reflexo direto de uma junção de fatores ruins da economia. A equação inclui o momento de inflação elevada, a redução dos estímulos sociais criados durante a pandemia do coronavírus e os níveis ainda altos de desemprego. São itens que diminuem o poder de compra e deterioram os orçamentos domésticos.

Mas como o brasileiro não pode ver a palavra “promoção”, que logo se anima a comprar, comprometendo não somente o sobrecarregado orçamento doméstico, mas também o futuro, pois são dívidas parceladas para o ano que ainda nem começou, muitos vão passar o ano de 2022, que bate às portas, pagando dívidas, que bem pensado, não deveriam fazer. Diria que é cultural nosso nível de endividamento. Ainda são tímidas as iniciativas de ensinar economia doméstica nas escolas, que deveria ser matéria obrigatória em todas as séries. Saber lidar com dinheiro é obrigação, pois ele faz parte de todas as fases de nossa vida.

Já repararam como todos ficam ricos nas época das festas de final de ano? É confraternização, presentes para amigo invisível, ceia de Natal, roupas novas, reforma da casa, gasta-se como se não houvesse o amanhã. Gente, o que vai acabar é o ano, e não o mundo.

O melhor desconto da Black Friday é aquele em que você não compra o que não precisa comprar e economiza 100%.

Ouvi diversas vezes de minha saudosa mãe Maria da Conceição: “Caso não tenha, não gaste meu filho; festa passa, dívida fica”.

Conselho e caldo de galinha não fazem mal à ninguém, fica a dica.

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Luiz Thadeu Nunes e Silva, engenheiro agrônomo, palestrante, cronista e viajante: o sul-americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 143 países em todos os continentes.

 

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