domingo, 11/10/2026
combate à dengue
O combate à dengue começa no quintal, mas exige ciência, políticas públicas e um Estado comprometido com a saúde coletiva Imagem: IA

Do Pentágono Yankee ao “Quartel-Quintal” Tupiniquim

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Por Heuller Roosewelt Silva Melo (*)

 

Há uma guerra que começa sem sirenes, sem tanques e, felizmente, sem pronunciamento de algum general diante de um mapa cheio de alfinetes vermelhos. Ela começa silenciosamente, às vezes dentro de casa, numa pequena poça esquecida, numa calha entupida, num vaso de planta, numa garrafa abandonada no quintal. Quando calor e chuva encontram as condições favoráveis, entra em operação uma das forças militares mais discretas e democráticas do planeta: o Aedes aegypti. Não possui porta-aviões, não precisa de combustível, não depende de satélite e seu sistema de inteligência é cirúrgico: basta encontrar água parada. No Brasil, o período de maior transmissão da dengue costuma ocorrer entre outubro e maio, justamente quando calor e chuvas favorecem a proliferação do vetor. Em Sergipe, portanto, o verão deveria chegar acompanhado não apenas de praia, férias e ventilador trabalhando em regime de plantão, mas também de prevenção.

O Aedes tem ainda uma vantagem estratégica que faria inveja a qualquer potência militar: não precisa conquistar território; basta encontrar uma brecha. Uma tampinha esquecida pode virar quartel-general. Uma calha pode se transformar em base logística. Um pneu abandonado, em depósito de munição. Um vaso de planta, em centro avançado de operações. E tudo isso com orçamento praticamente zero. Se algum estrategista militar resolvesse apresentar esse modelo em uma conferência internacional, provavelmente seria expulso da sala por excesso de absurdo. O problema é que o mosquito não está fazendo literatura. Ele está apenas fazendo o que sabe fazer.

Mosquito da dengue
Mosquito da dengue: todo cuidado é pouco Foto: Divulgação/Fiocruz

 

E nós também deveríamos saber o que precisamos fazer. Tampar caixas d’água, limpar calhas, eliminar recipientes que acumulem água, proteger ralos, cuidar dos vasos, trocar e esfregar regularmente a água dos animais, usar telas e repelentes quando indicados e procurar os serviços de saúde diante de sintomas. Listando assim, até parece pouco. E é justamente aí que mora o perigo: a prevenção tem a péssima mania de parecer pequena antes da epidemia, e indispensável depois dela. A vacina acrescenta uma importante camada de proteção e, agora em 2026, o Brasil dispõe de estratégia de vacinação contra a dengue que inclui o imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan, cuja oferta ocorre de forma gradual conforme as diretrizes do SUS. Mas definitivamente nenhuma vacina transforma uma caixa d’água destampada em um ambiente seguro.

Existe, entretanto, uma distinção que não podemos permitir que desapareça: responsabilidade individual não é a mesma coisa que responsabilização individual. Eu posso cuidar do meu quintal. Não posso cuidar sozinho da cidade inteira. Posso limpar minha calha. Não posso fiscalizar todos os terrenos abandonados do bairro. Posso proteger minha família. Não posso substituir o agente de combate a endemias, a vigilância epidemiológica, o saneamento, a pesquisa científica ou a rede de assistência. O mosquito, aliás, parece compreender isso melhor do que certos discursos políticos: ele não acredita em empreendedorismo individual aplicado à saúde pública. Para ele, pouco importa se você comprou o repelente mais caro da farmácia. Se existe um criadouro do outro lado do muro, a operação continua.

É justamente aqui que a sátira começa a ficar menos engraçada. Há uma corrente política que transformou o indivíduo em uma espécie de super-herói administrativo, responsável por resolver sozinho aquilo que historicamente depende de ação coletiva: cuide da sua saúde, eduque seus filhos, pague sua própria proteção, compre sua segurança, invista para a velhice e, se possível, não incomode muito o Estado. O problema é que o Aedes não acredita nessa filosofia. Ele não respeita meritocracia, não reconhece patrimônio e não aceita plano de saúde como salvo-conduto. O mosquito talvez seja o mais eficiente crítico marxista involuntário do individualismo radical: ele nos lembra, com uma picada, que existem problemas cuja escala é infinitamente maior do que a capacidade de cada indivíduo isolado. Trata-se do próprio imperativo de transição do Estado liberal ao Estado social, como ensinava Paulo Bonavides: a saúde pública não é mercadoria de consumo privado, mas um direito prestacional indispensável que exige a força da coletividade e das instituições.

E talvez seja justamente por isso que certas palavras tenham se tornado tão perigosas quando tratadas como palavrões: ciência, universidade, pesquisa, vacinação, saneamento, SUS e política pública. Não são ornamentos ideológicos. São ferramentas de proteção social e de garantia da própria vida. Desvalorizar essas estruturas em nome de uma suposta eficiência automática do mercado pode parecer uma economia elegante no PowerPoint, até que a realidade apareça com febre, plaquetas baixas e leito hospitalar. O mosquito não lê planilha de austeridade. Não sabe o que é teto de gastos. Não acompanha debate parlamentar. E certamente não recebeu treinamento em Chicago. Ele simplesmente aproveita quando a estrutura de proteção coletiva fica menor do que o problema que precisa enfrentar.

Há uma ironia ainda maior quando falamos de soberania. Enquanto alguns políticos gostam de desfilar patriotismo em alta definição, com bandeira, hino e discurso sobre independência, soberania de verdade exige coisas bem menos fotogênicas: laboratório, universidade, pesquisador, fábrica, tecnologia, sistema de saúde, capacidade industrial e investimento público aplicado onde precisa estar. A vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan é um exemplo concreto dessa infraestrutura soberana de conhecimento. Como bem aponta Elias Jabbour ao discutir as bases do desenvolvimento e da soberania no século XXI, a verdadeira autonomia de uma nação se consolida na sua capacidade estatal de planejar, projetar e dominar as tecnologias estratégicas para o bem-estar do seu povo. Em 2026, o imunizante passou a integrar a estratégia nacional de vacinação, com expansão gradual e critérios definidos pelo Programa Nacional de Imunizações. Talvez seja menos emocionante do que posar diante de um tanque, mas é infinitamente mais útil quando o inimigo tem asas.

Enquanto isso, no tabuleiro internacional, as grandes potências continuam descobrindo maneiras cada vez mais sofisticadas de guerrear sem chamar aquilo de guerra. Tarifas, sanções, restrições tecnológicas, barreiras comerciais e pressão financeira conseguem atravessar fronteiras sem que um único soldado precise desembarcar. Pouco tempo atrás, agora em julho de 2026, o “Tio Sam” anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros, sob justificativas falaciosas apresentadas por Washington e que passaram a ser registradas como tais, mesmo se sabendo das interações antinacionalistas empreendidas. Mas há uma ironia tropical nessa história: enquanto discutimos quais potências possuem os maiores arsenais, esquecemos que o Brasil possui outra espécie de defesa – um sistema imunológico nacional amparado na ciência, na indústria nacional, no SUS e na capacidade soberana de produzir o que precisamos.

E é aqui que o nacionalismo de microfone encontra sua contradição. Não adianta gritar “Brasil acima de tudo…” enquanto se trata conhecimento científico como suspeita, universidade como privilégio, vacina como conspiração e Estado como inimigo permanente. Ao analisar como as democracias morrem por dentro, Steven Levitsky alerta que a corrosão das instituições democráticas e das proteções coletivas raramente precisa de tanques nas ruas; ela ocorre na normalização do desmonte interno. Também não adianta imaginar que soberania seja simplesmente trocar a dependência de uma potência pela de outra. Independência não é escolher o dono da coleira. É fabricar a própria chave. E talvez seja essa uma das diferenças entre o patriotismo de discurso e a soberania de fato: um gosta muito da bandeira – inflamando ilusoriamente uma suposta mudança de cor do manto nacional, ainda que historicamente saibamos que o próprio nome do nosso país remete à madeira rubra que tanto foi explorada na colonização; o outro se preocupa em saber quem produz a tecnologia e a ciência necessárias para mantê-la hasteada.

O Aedes, nesse sentido, é quase um péssimo diplomata internacional. Não negocia. Não assina tratados. Não reconhece sanções. Não respeita bloqueios comerciais. Não sabe quem governa Brasília, Washington, Pequim ou Moscou. Não possui preferência partidária e não acompanha pesquisas eleitorais. Sua única ideologia é a reprodução. Seu programa de governo cabe inteiro numa poça d’água. Se tivesse gabinete ministerial, provavelmente seria composto por uma tampa de garrafa, uma calha e um pneu velho. E talvez seu slogan eleitoral fosse bastante simples: “Vote em mim. Eu já sou de casa.”

Mas não há nada de belo nesse inimigo. Dengue é doença séria; pode incapacitar, produzir complicações graves e matar. A ironia serve justamente para tornar visível aquilo que a rotina costuma esconder. Porque o verdadeiro absurdo não é o mosquito ser pequeno. É nós, seres humanos capazes de construir satélites, vacinas, inteligência artificial, porta-aviões e cidades inteiras, ainda perdermos vidas porque deixamos água acumulada dentro de um recipiente esquecido. A tecnologia pode chegar a Marte, mas a prevenção às vezes ainda precisa atravessar o quintal.

Por isso, quando o verão chegar, talvez seja hora de convocar uma força-tarefa diferente. Nada de porta-aviões. Nada de bombardeiros. Nada de bilhões de dólares em armamentos. Nossa primeira linha de defesa começa com uma tampa bem assentada.  Depois vêm o agente de endemias, a ação de saneamento, a vigilância epidemiológica, a ciência, a vacinação, o SUS, a pesquisa, a indústria nacional e uma população consciente de que liberdade não significa isolamento ou abandono. O mosquito procura brechas; uma sociedade democrática precisa aprender a fechá-las sem fechar os olhos para quem ficou do lado de fora.

Porque há guerras que não se vencem com armas. Algumas se vencem com ciência. Outras, com política pública. E algumas começam no instante aparentemente insignificante em que alguém percebe aquilo que todo mundo deixou de perceber. E algumas começam no instante aparentemente insignificante em que alguém percebe aquilo que todo mundo deixou de enxergar. Talvez a nossa linha de defesa comece justamente quando alguém decide olhar de novo para aquilo que já se deixou de enxergar – olhar para aquilo que ficou para trás.

É assim que funciona o nosso quartel-quintal. Sem generais, sem mísseis e sem medalhas. Apenas gente cuidando do lugar onde vive – porque, às vezes, a ameaça não chega pela fronteira. Ela já estava ali, quieta, escondida, esquecida, dentro de uma tampinha de garrafa no nosso quintal.

(Palavras que se perderam ao vento)

 

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Referências Bibliográficas:

BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Vacina da dengue do Instituto Butantan NÃO é experimental. Brasília, DF: Anvisa, 2 jul. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/vacina-da-dengue-do-instituto-butantan-nao-e-experimental. Acesso em: 29 set. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. O que é dengue? Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/dengue. Acesso em: 29 set. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Guia técnico-operacional da vacina dengue atenuada do Instituto Butantan. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. 35 p. ISBN 978-65-5993-995-4. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2026/guia-tecnico-operacional-da-vacina-dengue-atenuada-do-instituto-butantan.pdf. Acesso em: 29 set. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica nº 11/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS: estratégia de vacinação de trabalhadores da Atenção Primária à Saúde (APS) do Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o país com a vacina dengue (atenuada) do Instituto Butantan. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2026/nota-tecnica-no-11-2026-cgici-dpni-svsa-ms.pdf/view. Acesso em: 29 set. 2026.

BONAVIDES, Paulo. Do Estado Liberal ao Estado Social. 12. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2018.

JABBOUR, Elias; GABRIELE, Alberto. China: o socialismo do século XXI. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2021.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Tradução de Renato Aguiar. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

ROSSONI, Marcelo. Nossos mísseis são da classe Aedes! Vitória News, Opinião Pública, 21 set. 2026. Disponível em: https://vitorianews.com.br/opiniao-publica/nossos-misseis-sao-da-classe-aedes. Acesso em: 22 set. 2026.

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#ParaTodosVerem Ilustração cartoonesca dividida em dois lados contrastantes: à esquerda, sob céu claro e teto com painéis solares, uma agente inspeciona uma caixa d’água com uma lanterna enquanto outro agente vira um pneu para escoar a água parada acumulada. À direita, em tom sombrio, um muro com capacete militar grafitado “PENTÁGONO YANKEE”, mísseis, cápsulas de bala, máscara de gás e bandeira dos EUA faz o contraponto com a cena comunitária. Sobre o muro sobressaem os livros Do Estado Liberal ao Estado Social, Como as Democracias Morrem e China: o socialismo do século XXI. No canto inferior esquerdo, uma bancada exibe um microscópio e frasco de vacina, simbolizando a ciência pública e a prevenção.

 

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Sobre Heuller Roosewelt Silva Melo

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Um historiador, fazedor de contas; e um engenheiro, contador de histórias; progressista; bancário; esposo; pai ativo e presente. Sou do tipo que constrói templos à virtude e cava masmorras ao vício.

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