domingo, 27/09/2026
vozes do silêncio
Muitas vezes, simplesmente não fomos ensinados a lidar com a dor do outro Imagem: IA

Onde é que a voz encontra o silêncio?

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Por Heuller Roosewelt Silva Melo (*)

 

Há silêncios que não são ausência de palavras — são excesso delas. Palavras que se atropelam dentro da gente, pensamentos que não encontram porta de saída, sentimentos que se acumulam como cartas jamais enviadas. Talvez eu tenha passado boa parte da vida tentando compreender o que existe entre a palavra e o silêncio. Já escrevi sobre a voz, sobre o vazio, inclusive sobre aquilo que nos aprisiona e sobre as pequenas frestas por onde a vida insiste em entrar. Escrevi sobre o que se quebra e sobre aquilo que, depois de quebrado, pode encontrar uma outra forma de existir. E talvez seja justamente por isso que setembro sempre me faça pensar menos no amarelo e mais naquilo que existe por trás dele. Porque, de fato, há perguntas que não procuram respostas. Procuram ouvidos. Há dores que não chegam gritando; elas se acomodam devagar. Mudam o jeito de olhar, de dormir, de conversar, de chegar e de partir. Às vezes, vestem um sorriso. Às vezes, fazem piada. Às vezes, tornam-se extremamente funcionais. E ninguém percebe que, por dentro, alguém está apenas tentando descobrir como continuar.

Talvez não saibamos adequadamente dar um nome clínico a todos esses abismos. Às vezes não se precise de um diagnóstico para descrever aquilo que, em determinados momentos, acontece dentro de si mesmo. Mas sei reconhecer o caos quando o encontro. Sei que já houve dias em que meu mundo interior parecia uma casa depois da tempestade: ainda de pé, mas com coisas fora do lugar, algumas janelas abertas ao vento e outras simplesmente quebradas. E talvez eu tenha aprendido ali uma coisa que só compreendemos quando o silêncio deixa de ser escolha e passa a ser esconderijo: nem sempre quem parece bem está bem. Porque aprendemos cedo demais que demonstrar tristeza incomoda. Nem sempre, demonstrar cansaço é por excesso de trabalho — ou falta dele. Nem sempre estar em sofrimento é por falta de fé — às vezes isso pouco importa. Tampouco demostrar fragilidade é frescura. Ou ainda que pedir atenção é querer aparecer. Então aprendemos a representar. Pintamos o rosto, entramos no picadeiro, atuamos e fazemos graça enquanto alguma coisa, lá dentro, vai se desfazendo em silêncio. A gargalhada arpeja. O público ri. O aplauso acontece. E ninguém percebe que, por trás do sorriso na maquiagem, há um rosto pedindo apenas que alguém permaneça ali para te dar atenção.

Talvez seja por isso que eu tenha aprendido a desconfiar de algumas respostas automáticas. Aquele “está tudo bem” que encerramos sem perguntar mais nada. Aquele “força” que oferecemos como quem entrega um curativo tirado de dentro da caixinha para um ralado no joelho. Aquele “isso passa” dito por quem não precisará atravessar aquela noite. Não fazemos isso necessariamente por maldade. Muitas vezes, simplesmente não fomos ensinados a lidar com a dor do outro. Queremos consertar porque não sabemos permanecer diante do que não tem conserto imediato. Queremos uma solução porque o sofrimento alheio nos lembra da nossa própria vulnerabilidade. Mas escutar não é consertar. Escutar é permanecer. É suportar alguns segundos de silêncio sem preenchê-los com conselhos. É perguntar “como você está?” e ter disposição para ouvir a resposta — inclusive quando ela não cabe naquilo que gostaríamos de ouvir. É não transformar a dor de alguém em disputa, sermão, comparação ou julgamento. Às vezes, a pessoa não precisa que você resolva sua vida. Precisa apenas descobrir que existe um lugar onde pode dizer a verdade sem ser diminuída por ela.

Banda System of a Down
Banda System of a Down Foto: Wikipedia

Talvez a própria música já tenha me ensinado alguma coisa sobre isso. Providencialmente, enquanto estava finalizando os ajustes desse texto, o Mundo me apresentou uma entrevista de uma de minhas bandas favoritas, System of a Down, sobre a construção de uma de suas músicas, e há algo nessa história que me parece uma pequena metáfora sobre o que significa ser verdadeiramente escutado. Shavo Odadjian havia levado para a banda uma ideia que chamava de “Version 7.0”. O material quase passou despercebido… mais tarde, Daron Malakian retomou àquilo, reorganizou seus pedaços, deslocou estruturas, encontrou outras possibilidades — e, daquele encontro, nasceu Toxicity. A música não nasceu pronta na mão de uma única pessoa. Nasceu quando alguém trouxe algo que tinha dentro de si e outro alguém escutou aquilo de uma maneira capaz de fazê-lo existir de outra forma. Talvez exista algo profundamente humano nisso: às vezes, não precisamos que alguém componha nossa vida por nós. Precisamos de alguém que consiga ouvir os fragmentos que estamos trazendo e nos ajude a perceber que ainda existe música onde nós só conseguimos ouvir ruído. E há ainda outra imagem naquela música que me atravessa: o “sacred silence” (o silêncio sagrado). Nessa entrevista, Serj Tankian explicou que esse silêncio remete a um espaço de espiritualidade e meditação, esse lugar paradoxal onde, através dos véus do silêncio, tudo se perde e tudo se encontra. Talvez seja justamente aí que a escuta verdadeira comece: não no silêncio que abandona, mas naquele que acolhe; não no vazio que nos engole, mas naquele intervalo em que podemos, finalmente, ouvir aquilo que dentro de nós ainda não conseguiu virar palavra.

Talvez eu pense que precisamos abandonar a ideia de que existe uma única porta para sair do labirinto. A fé pode ser abrigo. A espiritualidade pode ser caminho. Mas nenhuma crença deveria ser usada para reduzir a dor de quem acredita na vida de outra maneira – ou de quem, naquele momento, sequer consegue acreditar. Para mim, esse religare começa antes de qualquer templo: começa no reencontro do ser humano consigo mesmo. O primeiro templo talvez seja esse corpo que habitamos, essa consciência que carregamos, esse “eu” que tantas vezes abandonamos enquanto tentamos corresponder ao mundo. Mas reencontrar-se não significa fazer tudo sozinho. Há momentos em que precisamos de mãos. De amigos. De família. De profissionais. De escuta especializada. De cuidado. Há momentos em que um abraço é precioso, mas não substitui um profissional preparado para acolher aquilo que não conseguimos carregar. Há momentos em que a oração sustenta, mas não substitui o tratamento. Pedir ajuda não é fraqueza. Não é fracasso. Não é falta de fé. É, muitas vezes, um dos gestos mais corajosos de quem decidiu continuar.

Talvez seja isso que eu queira dizer neste setembro. Não apenas sobre suicídio, nem apenas sobre saúde mental, mas sobre presença. Sobre gente. Sobre nós. Sobre aquilo que escondemos para continuar funcionando. Sobre as palavras que engolimos porque não sabemos quem terá coragem de escutá-las. Sobre os silêncios que confundimos com tranquilidade. Sobre a necessidade de olhar novamente para quem está ao nosso lado e perguntar — desta vez sem pressa, sem protocolo e sem respostas prontas: “Como você está… de verdade?” E, se a resposta vier acompanhada de lágrimas, silêncio, medo ou confusão, talvez a nossa primeira tarefa não seja encontrar a frase perfeita. Talvez seja simplesmente permanecer.

Setembro amarelo
Setembro amarelo

É nesse ponto que o tema deste Setembro Amarelo — “Escutar é estar presente” — deixa de ser uma frase de campanha e passa a ser uma responsabilidade humana. Porque eu não quero que a nossa disposição para ajudar seja apenas um cronograma de comunicação, uma cor no calendário ou uma publicação bonita que desaparece quando setembro termina. A dor não respeita calendário. O vazio não conhece campanhas. A solidão não espera outubro passar. Se quisermos realmente mudar a narrativa, talvez precisemos mudar a maneira como nos relacionamos com o sofrimento. Precisamos perceber aquele colega que mudou. O amigo que se afastou. A pessoa que continua trabalhando, produzindo, cuidando de todo mundo e dizendo que está tudo bem. Não para transformar cada silêncio em suspeita, mas para não transformar o sofrimento em invisibilidade. Há uma diferença enorme entre querer salvar alguém e simplesmente não o deixar sozinho diante da própria dor.

Porque algumas pessoas não precisam que alguém lhes diga como viver. Precisam, primeiro, sentir que ainda existe alguém disposto a caminhar alguns passos ao lado delas.

E, se em algum momento for você quem estiver perdido nesse caminho, não transforme a solidão em destino. Fale como conseguir. Procure alguém. Permita-se ser ouvido. Procure ajuda. O CVV atende gratuitamente pelo 188, 24 horas por dia, e os serviços de saúde podem ser portas de entrada para o cuidado. Você não precisa possuir as palavras certas para pedir ajuda. Às vezes, basta começar com as três mais difíceis:

“Não estou bem.”

Talvez a vida não nos peça, todos os dias, que sejamos fortes.

Talvez, em alguns deles, ela nos peça apenas que permaneçamos.

E que permitamos que alguém permaneça conosco.

Porque, no fim, talvez a pergunta nunca tenha sido apenas onde a voz encontra o silêncio.

Talvez seja:

– Quem estará presente quando finalmente tivermos coragem de falar?

 

#ParaTodosVerem: Fotografia em plano médio de um homem e uma mulher sentados frente a frente em uma mesa de madeira num café acolhedor e chuvoso ao anoitecer. O homem, à esquerda, com blazer cinza e barba, segura uma xícara azul e olha para baixo de forma pensativa. A mulher, à direita, com coque e blusa de tricô verde, olha para ele com empatia, tendo à frente uma xícara, um caderno e uma caneta. Uma grande janela com gotas de chuva revela luzes urbanas desfocadas ao fundo, criando uma atmosfera intimista com outras pessoas e estantes de livros visíveis mas sem foco.

 

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Sobre Heuller Roosewelt Silva Melo

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Um historiador, fazedor de contas; e um engenheiro, contador de histórias; progressista; bancário; esposo; pai ativo e presente. Sou do tipo que constrói templos à virtude e cava masmorras ao vício.

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