Do Titanic ao Titan, de impérios a grandes empresas, a história expõe os riscos de quando poder, competência e autoridade alimentam a ilusão de invulnerabilidade
Por Rocelito Paulo Pinto (*)
Na qualidade de seres pensantes e gregários que somos — ou que, pelo menos, deveríamos ser —, construímos instituições destinadas a preservar a ordem, defender a sociedade, cultivar tradições e proteger aquilo que conquistamos como humanidade.
Criamos leis, estabelecemos limites, instituímos atribuições e conferimos autoridade a pessoas para que determinadas funções sejam exercidas em benefício da sociedade da qual fazemos parte, para que, assim, sobressaiam a justiça e a equidade que harmonizam as relações. A expectativa de tudo isso é promover a igualdade entre os iguais, perante a lei, e prevenir a supremacia da desigualdade pretendida pelos desiguais.
Tudo prospera até que, num inusitado momento, a autoridade, simulando servir à sociedade, começa a servir-se a si própria. É quando a autoridade deixa de se compreender como instrumento da sociedade e enxerga-se como a própria finalidade, não só da sociedade, mas também da autoridade que deveria exercer.
É nesse momento que se identifica a soberba.
A soberba é o prisma pelo qual a autoridade se conduz, ao acreditar que suas decisões são necessárias e suficientemente corretas; sua posição social a torna superior aos demais; a competência que lhe foi conferida a torna infalível; seu poder a torna invulnerável e inacessível.
Há algo particularmente perigoso neste contexto, do qual nem a autoridade desconfia: a soberba sempre antecede a queda, mas persiste até o último segundo a negar que está diante dela. E assim, o soberbo, quanto mais confiante na própria invulnerabilidade, mais incapaz de perceber os alarmes.
Porém, quando a realidade se apresenta nas suas cores verdadeiras, nada mais se distingue entre a soberba e a derrocada, nem mesmo a inexistência do fundo em um abismo!
É o que se permite deduzir quando se analisa momentos específicos da humanidade no esplendor desumano de sua soberba.
O Titanic representava, no início do século XX, o extraordinário avanço da engenharia naval. Grande, luxuoso, sofisticado e dotado de recursos de segurança excepcionais para sua época, tornou-se símbolo de uma confiança extraordinária no domínio humano sobre o oceano.
A imagem de que aquele navio era impossibilitado de afundar tornou-se parte de sua história; todavia… o Titanic afundou em sua primeira viagem! Apesar dos vários alertas recebidos sobre a presença de tais perigos, na madrugada de 15 de abril de 1912, na viagem inaugural, após colidir com um iceberg, o navio desapareceu no Atlântico, levando consigo mais de 1.500 vidas.

O aspecto mais temerário não estava no iceberg, mas naquilo que um bloco flutuante revelaria: nenhuma tecnologia elimina a vulnerabilidade humana; pode atenuá-la, mas não suprimi-la; pode preveni-la, mas não eliminá-la. Contudo, o inimaginável aconteceu: a tecnologia em sua máxima potência sucumbiria à primitividade de uma montanha em sua patética trajetória errática.
Em 1941, o encouraçado alemão Bismarck, o “Inafundável”, refletia a expressão máxima do poderio naval alemão. Era enorme, fortemente armado, dotado de motores potentes e estruturado como uma fortaleza para resistir aos torpedos inimigos, sendo considerado uma das máquinas de guerra mais poderosas então construídas.
O encouraçado zarpou em sua primeira missão oficial de combate a 19 de maio de 1941. Oito dias depois, em 27 de maio, o “Inafundável” repousava no fundo do Atlântico Norte.
A lição que se apresenta não está escrita no destino inesperado de um navio. Está na diferença entre aquilo que se projeta como poderoso e o que se percebe como invencível. O fato de ser poderoso não elimina limites nem vulnerabilidades, mas revela uma página de suscetibilidades quando a estratégia contrária não se curva ao peso do poder imposto.
As Sagradas Escrituras apresentam outro exemplo. O povo de “Sinar” deliberou construir uma torre cujo topo alcançasse os céus. A imagem é poderosa porque não projeta somente a expressão de uma arquitetura em sua genialidade, mas porque fala da exponencial expectativa humana de superar os limites perceptíveis tão somente pela força da convicção desmedida.

O resultado foi uma Torre de Babel consagrada na confusão das línguas e na dispersão dos homens daquela sociedade. A mensagem é simples: há alturas que não se alcançam pela força, pelo orgulho ou pela imposição.
Na mitologia grega, Dédalo constrói asas para fugir da prisão de Creta com seu filho Ícaro. Antes do voo, o pai o adverte: não deveria voar muito baixo, nem muito alto. Ícaro, fascinado pela própria capacidade de voar, desobedece. Aproxima-se demais do Sol, a cera derrete e ele cai.
A mensagem não é nada sutil: não foi o voo que derrubou Ícaro, foi a incapacidade de reconhecer os limites do próprio voo. A mesma capacidade que permitiria ao homem elevar-se tornar-se-ia o instrumento de sua queda, por não acreditar haver limites para sua ascensão.
O rei Creso, da Lídia, era extraordinariamente rico e poderoso. Diante da aproximação beligerante de Ciro, rei da Pérsia, Creso procurou o Oráculo de Delfos e recebeu dele uma resposta que poderia ser interpretada de diferentes maneiras: se atravessasse o rio Hális, destruiria um grande império.
Creso acreditou que o império a ser destruído seria o persa. Atravessou o rio, foi derrotado e conheceu, da maneira mais dolorosa possível, que o maior adversário de um grande império nem sempre é o inimigo que ousa romper fronteiras. Aqui encontramos uma forma intelectualmente sofisticada da soberba: Creso não ignorou a informação. Ele a recebeu, mas interpretou-a de acordo com aquilo que desejava acreditar.
A soberba também funciona assim: ela não torna necessariamente o homem surdo, mas o impede, às vezes, de escutar aquilo que contraria suas próprias conveniências.
Em 480 a.C., Xerxes I lançou uma gigantesca invasão contra a Grécia. Uma tempestade, ao que tudo indica, natural, destruiu uma ponte de barcos que havia sido construída para permitir a passagem de seu exército. Contrariado, segundo a tradição narrada por Heródoto, Xerxes teria ordenado que o mar fosse castigado.

A imagem é extraordinária. O homem soberbo não aceita que a realidade lhe diga “não”, ignora prepotente a própria fragilidade, tenta impor-se contra a natureza em um esforço inútil. Só uma verdade se configura nesse episódio: a de que a realidade não acata o personalismo da autoridade soberba.
Em razão disso, Napoleão Bonaparte é, talvez, um dos exemplos mais fascinantes. Não era um chefe incompetente, muito pelo contrário, sua invulgar inteligência militar, sua capacidade estratégica e sua extraordinária habilidade política fizeram dele um dos personagens históricos mais estudados.
E justamente por isso seu exemplo é tão importante, porque demonstra que a autoridade, ao tornar-se soberba, deixa de reconhecer os limites da própria competência.
Em 1812, Napoleão invadiu a Rússia. Distâncias imensas, dificuldades logísticas, escassez de suprimentos, desgaste das tropas, retirada estratégica dos russos e o rigor do inverno transformaram a campanha em uma catástrofe. Depois veio a Batalha de Waterloo e a soberba o destituiu da autoridade que exercia.
Napoleão não fracassou porque era incapaz. Fracassou, em grande medida, porque sua extraordinária competência alimentou a convicção de que sua estratégia superaria qualquer obstáculo, atestando que aquilo que nos torna grandes, pela soberba, pode se transformar no degrau que nos derruba.
Em 1588, Filipe II da Espanha enviou contra a Inglaterra uma gigantesca frota naval. A história a consagraria como a “Armada Invencível”. A ironia surge irresistível diante dessa lógica inusitada: a estratégia inglesa, as dificuldades logísticas, os problemas de comunicação, as tempestades e as próprias limitações do plano de invasão contribuíram para o fracasso, e a “Armada Invencível” foi derrotada.
A expressão “invencível” carrega consigo uma perigosa certeza e talvez essa seja uma das características mais perversas da soberba, porque ela transforma uma qualidade em identidade: não basta ser forte, é preciso ser “o mais forte”; não basta vencer, é preciso ser “invencível”.
Em 28 de janeiro de 1986, o ônibus espacial Challenger explodiu pouco depois do lançamento. Sete astronautas faleceram. O mais doloroso é que havia sinais anteriores de que algo não estava correto e, se não fosse a certeza soberba, essas vidas poderiam ter sido poupadas.
Os engenheiros já conheciam os problemas relacionados aos anéis de vedação dos foguetes. Havia também preocupações relacionadas às baixas temperaturas no dia do lançamento. Mesmo assim, a missão foi autorizada por quem possuía autoridade para adiá-la.
A investigação posterior demonstrou que o problema não se restringia a uma falha mecânica, mas decorria muito mais de uma falha de decisão, em razão de uma cultura organizacional que havia aprendido a conviver com riscos crescentes porque, em ocasiões anteriores, e similares, nada havia acontecido.
E aí nos deparamos com uma das menções mais perigosas quando pronunciadas no escopo de uma organização: “Já fizemos isso antes e nada aconteceu.” O fato de termos sobrevivido ao risco ontem não significa que estaremos protegidos dele amanhã.
Em 26 de abril de 1986, ocorreu o desastre de Chernobyl. Falhas de projeto, procedimentos inadequados, decisões operacionais, problemas de comunicação, pressão organizacional e desprezo por sinais de alerta compuseram uma cadeia de acontecimentos que terminou em uma das principais tragédias nucleares da humanidade.
Porém, antes da explosão, surgiu uma expressão que mereceria atenção porque comunga numa só ação confiança e descaso, soberba e desprezo: “Está sob controle.”
Quantas tragédias prosperam exatamente assim? Alguém vê o problema, alguém alerta, alguém responde: “Está sob controle.” Até que a realidade, não podendo mais ser ignorada, vem e pergunta: “Sob controle de quem?”
Em 2008, o Lehman Brothers entrou em falência. Era uma instituição gigantesca, cercada por sistemas de gerenciamento, políticas, controles e monitoramento de riscos que apresentavam indicadores referenciados entre os mais respeitados. Mas havia uma crença por trás de tudo aquilo: “a empresa era grande demais para quebrar!”. Quebrou…
E a análise econômica aponta um indicador preocupante, que vale para qualquer instituição: não existe tamanho suficiente para tornar uma autoridade ou uma instituição imune às consequências de seus próprios erros. Ou seja, nem toda soberba termina em tragédia humana.
O Concorde foi uma das principais conquistas da engenharia aeronáutica do século XX: voava acima da velocidade do som, ligava Londres a Nova York em três horas e meia, o que permitia decolar do aeroporto britânico após o pôr do sol e pousar no americano ainda de dia, na mesma data.
Era o símbolo de luxo, tecnologia e velocidade. Mas também enfrentava limitações econômicas, ambientais e operacionais. A tecnologia era extraordinária, porém, o modelo econômico adotado não conseguiu sustentá-la. E isso nos ensina outra coisa: ser tecnicamente possível não significa ser economicamente viável.
A Eastman Kodak Company dominou o mercado mundial da fotografia durante décadas. No entanto, a imagem que se eternizou em sua história é a de uma cruel ironia: em 1975, um de seus engenheiros, Steven Sasson, desenvolveu uma das primeiras câmeras digitais, produzindo uma tecnologia que revolucionaria o futuro da sociedade.
Mas o sucesso do passado dificultaria a aceitação do futuro. A Kodak não ignorava o potencial da nova tecnologia, mas ela não conseguiu compreender o que aquela tecnologia significava para o seu próprio modelo de negócio. Acabou se tornando vítima do próprio sucesso. A nova tecnologia se desenvolveu e dominou a sociedade. A Kodak, perdida em sua própria imagem, inventaria o futuro, mas entraria em crise e conheceria a falência.
Muitas vezes, não é a iminência do fracasso que nos impede de mudar, mas a crença no sucesso inabalável que alimenta a soberba.
A Blockbuster dominava o mercado de locação de filmes. Enquanto isso, a Netflix era uma empresa pequena de aluguel de DVDs pelo correio. O mundo mudou. A sociedade do consumo se reformulou rapidamente. A Netflix percebeu a velocidade dessa mudança, mas a Blockbuster, presa ao tamanho do próprio império, não conseguiu acompanhá-la. O resultado, todos conhecemos: uma desapareceu, a outra transformou-se em uma das mais expressivas plataformas de entretenimento do mundo.
A lição aqui observada é a de que a soberba olha para o tamanho e para a força, enquanto a inteligência olha para o horizonte e para a necessidade de alteração de rumo.
O Império Romano atingiu dimensões extraordinárias. Seu poder militar, político, econômico e cultural dominou vastos territórios, mas… cresceu tanto que se transformou numa espécie de polvo sem conexão com os tentáculos.
Em 395, o Império Romano foi definitivamente dividido entre Oriente e Ocidente. Em 476, Rômulo Augústulo foi deposto, tornando-se marco tradicional utilizado para assinalar a queda do Império Romano do Ocidente.
A Roma eterna não desapareceu em um único dia. Foi se transformando, foi envelhecendo, foi perdendo sua capacidade de sustentar aquilo que havia construído. E essa talvez seja uma das mais significativas lições de Roma: nenhuma civilização se torna eterna apenas porque acredita ser.
Em junho de 2023, o submersível Titan, da OceanGate, implodiu durante uma expedição aos destroços do Titanic. Cinco pessoas pereceram. O episódio trouxe novamente ao debate temas como engenharia, certificação, limites experimentais, advertências de especialistas e excesso de confiança.

Um século após a humanidade construir um navio que atravessaria incólume o oceano e conheceria o limite de sua própria segurança, a mesma humanidade desceria ao fundo do mesmo oceano para visitar seus destroços, se deparando novamente com a mesma lição: a de que o ser humano pode ampliar seus limites, mas não pode eliminá-los.
Mas, afinal, quando surge a soberba?
Não precisamos procurar grandes impérios, navios, guerras, empresas ou catástrofes para encontrá-la. A soberba se apresenta quando alguém transforma conhecimento em onisciência; poder em onipotência; riqueza em invulnerabilidade; cargo em superioridade; beleza em distinção; inteligência em infalibilidade.
O mecanismo é quase sempre o mesmo. Primeiro: “Eu consigo.” Depois: “Eu sei.” Em seguida: “Eu controlo.” Então: “Isso não acontecerá comigo.” Até que a realidade responde: “Aconteceu.”
A soberba não consiste em acreditar que podemos alcançar as alturas; consiste em acreditar que, chegando lá, não haveremos de cair. A soberba não consiste no fato de nos tornarmos poderosos; consiste em acreditar que o nosso poder é infalível. E talvez seja por isso que a soberba seja tão perigosa para quem exerce autoridade.
A atribuição de autoridade não existe para servir à autoridade instituída: existe para servir à sociedade. Instituições não são construídas para proteger seus dirigentes: são construídas para proteger aqueles que lhes conferiram legitimidade.
Quando uma autoridade passa a considerar-se acima da crítica, acima das regras e acima dos limites, ela deixa de exercer poder em nome de uma instituição e começa a exercer poder em nome de si mesma. É aí que a instituição começa a adoecer. É aí que a autoridade começa a transformar-se em ídolo, e todo ídolo, ou mais cedo ou mais tarde, encontra alguém que percebe que ele é feito de matéria humana, ocasião em que a admiração dá lugar à decepção.
Ademais, autoridade não se confunde com liderança. Liderança não nasce do privilégio do berço, não se impõe com o cargo, não decorre da patente, não se produz pela riqueza. Liderança se constrói: com conhecimento, mas também com humildade; com autoridade, mas também com responsabilidade; com coragem, mas também com prudência; com convicção, mas também com a capacidade de ouvir quem dela discorda.
O líder não é aquele que acredita não poder cair; é aquele que sabe da possibilidade de cair e, por isso mesmo, olha para onde pisa e caminha por onde olha. Já o sábio é aquele que tem consciência de que a sociedade é uma construção humana permanente e, a si, confere o poder de conhecer novas tecnologias e formas de conhecimento, sem permitir que elas corrompam sua essência.
Mas a liderança sábia somente será verdadeiramente admirável quando compreender que igualdade significa respeito às diferenças de opiniões e sentimentos, sem que elas se transformem em adversidade; que fraternidade se conjuga com tolerância e dignidade, mas não se prostitui com a fraqueza de caráter; que liberdade se traduz na justa compreensão de que o direito de cada um encontra-se limitado pelo direito do outro.
Talvez seja essa a grande vacina contra a soberba: lembrar que somos grandes o suficiente para construir, mas humanos demais para sermos invulneráveis.
A história já nos ensinou, inúmeras vezes: o Titanic naufragou; o Bismarck afundou; a Armada “Invencível” foi vencida; Napoleão foi deposto; Challenger explodiu; Chernobyl colapsou; Lehman Brothers quebrou; Kodak desapareceu da fotografia; Blockbuster saiu de cena; Roma se reduziu a um reino de ruínas históricas.
E, no fundo do oceano, o Titanic repousa feito um monumento silencioso à maior de todas as ilusões humanas: a de que alguma coisa construída pela humanidade pode torná-la maior do que seus próprios limites.
Quando a soberba diz: “Eu sou grande demais para cair”, a sabedoria responde: “É hora de olhar para baixo”. Cumpre à autoridade instituída decidir sobre o que ouve, para poder escutar as razões que a mantêm nas alturas ou as que a impulsionam para o abismo.
É a ação da autoridade que demonstra ser ela escrava da soberba ou discípula da sabedoria. E, se ela servir à sociedade que lhe cabe liderar e defender, proteger e fazer evoluir, conhecerá o respeito e a admiração da humanidade. Mas, se ela se serve da sociedade para a sua própria defesa e proteção, conhecerá o peso da dor e a força da negação daqueles a quem escravizou com sua prepotência.
Porém, o mais catastrófico não é o fim soberbo a que se condena a autoridade invigilante, mas sim o destino de uma sociedade que agoniza impotente sob a pressão secular do oceano de leviandades; ou da que perece nas batalhas fomentadas na estratégia do orgulho dos que as comandam como rês a caminho do abatedouro; ou da que se extingue nas chamas de uma energia que não se controla pelo impulso da vontade.
A história da humanidade, de alguma forma, se desenvolve, mas do Titanic ao Titan, a soberba sempre se repete. Roma não espelha mais o império que já foi; todavia, ainda se observam “Napoleões” que, na sua soberba nuclear, se mantêm na confiança de que o Oráculo esteja equivocado em sua fotografia.
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