domingo, 15/09/2019
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VAI DE “BUZU” AÍ?

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Dia desses meu vintage 97 deu pane e precisou ir para a UTI – o bichinho necessita de uma repaginada à moda ‘Lata Velha’: – São Caldeirão, rogai por mim!, exclama o dormente veículo. Com a enfermidade do possante, fui aventurar-me nas curvas da estrada dos santos (São Pereira Lobo,  São DIA, Santo Inácio Barbosa, São Grageru, tende misericórdia!). você está pensando que o verbo ‘aventurar’ foi escrito sem um mínimo de cogitare? Sabe de nada, indecente!

Quem não lembra do Indiana Jones e suas mirabolantes aventuras em busca de tesouros perdidos e emoções várias que surgiam com as mais diversas situações criadas em nome da adrenalina? Aracaju tem visto, a cada dia, o surgimento de vários Indianas. Só que, ao contrário do ícone cinematográfico ianque, os nossos aventureiros não pertencem ao mundo glamouroso do cinema. Nossos heróis estão no dia a dia da cidade.

Quem são esses heróis? Se você não sabe, arrisque-se a percorrer a cidade em um ônibus coletivo. Você se tornará um desses heróis anônimos, vilipendiados pela forma insana, demente e irresponsável com que os veículos são conduzidos, mais parecem os carrinhos de uma montanha russa tresloucada do que ônibus coletivos decentes como deveriam (e devem!) ser.

As aventuras começam nos pontos de ônibus. Em alguns bairros (como: Lamarão, Bugio, São Conrado, Atalaia, até o Centro e 13 de Julho – imagine isso!), há dificuldade dos motoristas pararem os veículos para acolher os passageiros. Começa com a velocidade – mais parece caminhão com bois do que gente – imposta nas caixas coletivas. A impressão é que estão à cata desenfreada por metro quadrado de asfalto. É desumano, é irracional.

Quando param (a maioria atrasa e deixa as pessoas esperando um boníssimo tempo), assim que o pobre e desgarrado passageiro tira o segundo calcanhar do chão, os velozes motoristas arrastam o ônibus como se estivessem na pole position de um grande prêmio de Fórmula 1. A sensação é que se está iniciando um grande “racha de buzão”. Há quem goste da emoção fruída do balançar subumano do veículo, mas a maioria absoluta reclama, xinga (surge cada pérola sergipana!) e depois sai silenciada pela necessidade absorta de um transporte coletivo. Afinal de contas, trabalhar é preciso!

Depois das paradas e das subidas inglórias e nervosas, vem a magnífica situação dos apertos e da velocidade empreendida pelos pilotos, quer dizer, motoristas. O empuxo (continuidade de movimento) gerado pelas freadas geralmente bruscas cria uma espécie de “ola”. Os passageiros amontoados, neste instante, sabem o que uma sardinha sofre ao ser enlatada.

Você, caro(a) leitor(a), pode até julgar que há muitas hipérboles neste texto, que a realidade não é bem assim e coisa e tal. Todavia garanto que, no mínimo, vossa senhoria nunca teve o desprazer de sentir a sensação terrível do ônibus fazendo a volta ali na praça para entrar no terminal do Mercado Central. Ou não encarou uma viagem que exija entrada em curvas bem fechadas, quando o passageiro sente que vai flutuar, a exemplo da Hermes Fontes para entrar na Barão de Maruim.

E olhe que o assunto abordado aqui só delimita um dos problemas vividos pelos passageiros valentes e aguerridos. Poderíamos mencionar, ainda, a condição péssima dos ônibus, a superlotação constante, o valor da passagem e a escassez de troco, as escadas de embarque e desembarque ótimas para causar problemas de coluna (a altura só para gigantes), o não cumprimento de vagas para idosos e deficientes…   São Cristóvão protege os motoristas. E quem protege os passageiros?

Se os donos de ônibus fizessem um “passeio” para conhecer a realidade de quem utiliza o serviço de transporte coletivo em Aracaju, talvez houvesse a possibilidade – mesmo remota – de mudar algo em prol dos nossos Indiana Jorge, Indiana João, Indiana Célia, Indiana Paula, Indiana Carlos, aventureiros laboradores de cada dia.

A sugestão é boa, uma vez que a palavra ônibus deriva do latim omni bus, que significa “para todos”. Porém, com base no que é vivenciado hoje, poderíamos mudar o sentido: para todos que precisam e não têm outra alternativa de transporte.

Vai encarar?

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