Por Antônio Carlos Garcia (*)
A instabilidade no mercado internacional de energia já acende um alerta na indústria sergipana. O conselheiro da Associação das Indústrias de Socorro e proprietário da Cerâmica Capri, Celso Hiroshi, afirma que sua indústria gasta cerca de R$ 1 milhão por mês com gás natural e alerta para a possibilidade de aumento significativo nos custos. Já o diretor-presidente da Vidroporto, Edson Luís Rossi, aponta riscos no fornecimento e no preço do insumo essencial para a produção. O diretor-presidente da Sergipe Gás S/A (Sergas), Alan Lemos, admite que um eventual prolongamento da crise global pode levar à revisão futura dos preços. O próximo reajuste de gás natural canalizado deve ocorrer em 1º de maio.
O cenário é influenciado por tensões geopolíticas e pela volatilidade global do petróleo e do gás. Diante disso, Alan Lemos afirma que os preços são definidos previamente em contratos com os consumidores, com revisões periódicas — geralmente trimestrais — e destaca que a companhia busca diversificar fornecedores para ampliar a oferta e reduzir custos.

A apreensão do setor produtivo não se restringe ao cenário atual, mas ao efeito em cadeia que uma crise energética prolongada pode provocar na economia. Celso Hiroshi ressalta que o impacto do gás natural no custo industrial é direto e significativo. Segundo ele, a despesa mensal de cerca de R$ 1 milhão com o insumo torna qualquer variação de preço um fator crítico para a operação. O empresário alerta que aumentos no gás podem pressionar os custos de produção, reduzir a competitividade da indústria e gerar efeitos em toda a cadeia produtiva.
Na avaliação de Edson Luís Rossi, o cenário ainda é marcado por incertezas. “Tudo ainda muito incerto, muitas dúvidas, mas certamente o impacto será muito negativo”, afirmou. Segundo ele, ainda não há clareza sobre três pontos centrais: fornecimento, custo e duração da crise.
O executivo explica que o impacto pode variar conforme a evolução do cenário internacional. “Se esta crise for resolvida em um prazo curto, de cerca de 15 dias, teremos um impacto pontual e absorvível. Caso contrário, haverá reflexos importantes na economia, como inflação e redução do consumo”, disse.
No caso da indústria de vidro, os efeitos podem ser ainda mais diretos. Rossi destaca que o gás natural é um insumo crítico para a operação. “Sua falta implica parada de produção. Custos mais altos implicam necessidade de reajuste de preços, o que pode reduzir vendas”, afirmou.
A Vidroporto, instalada em Sergipe, produz mais de 500 milhões de unidades por ano e atende todo o Brasil, com forte presença no Nordeste. Segundo o diretor-presidente, um cenário prolongado de crise pode levar à redução da demanda e, consequentemente, à diminuição da produção.

Do lado da distribuidora, Alan Lemos reforça que o mercado de gás tem dinâmica diferente de outros combustíveis. Enquanto gasolina e diesel sofrem oscilações quase imediatas, o gás natural opera com contratos de médio e longo prazo, o que reduz impactos imediatos. “A Sergas não define o preço do gás. Recebemos dos supridores e repassamos ao consumidor, com uma margem regulada”, explicou.
Além do cenário de preços, a Sergas mantém um plano de expansão da rede no estado. Segundo Alan Lemos, a companhia tem cerca de R$ 19 milhões em investimentos previstos para este ano e atende aproximadamente 50 mil consumidores, entre indústrias, comércios e unidades residenciais coletivas. A estratégia envolve a ampliação de gasodutos e a interiorização do fornecimento, buscando fortalecer a oferta e aumentar a competitividade do gás natural em Sergipe.
Segundo ele, a companhia trabalha para mitigar riscos ampliando a base de fornecedores e garantindo maior segurança no abastecimento. Ainda assim, reconhece que fatores externos podem pressionar o mercado. “Se o cenário internacional se prolongar, pode haver revisão futura de preços”, indicou.
Além das medidas de curto prazo, Alan Lemos destaca a importância de projetos estruturantes para o futuro do setor. Ele cita o projeto Sergipe Águas Profundas como estratégico para ampliar a oferta de gás natural e reduzir a dependência de fatores externos, além de atrair novos investimentos industriais para o estado.
Segundo o dirigente, a base de consumidores inclui desde grandes indústrias, como a Fafen, até pequenos comércios e condomínios residenciais, o que reforça o papel do gás natural como insumo essencial para diferentes setores da economia sergipana.
Controle total
O governador de Sergipe, Fábio Mitidieri, afirmou que o governo deve concluir ainda neste mês a aquisição total da Sergas, consolidando o controle estadual da companhia. “Este mês, ainda, a gente deve estar celebrando”, declarou ao comentar o avanço das negociações.
A medida é considerada estratégica para ampliar o controle sobre a política energética e fortalecer a atração de investimentos industriais, sobretudo diante da expectativa de aumento da oferta de gás no estado.
Diante desse cenário, a indústria acompanha com atenção os desdobramentos globais, consciente de que o gás natural segue como um dos pilares da atividade econômica em Sergipe — e que qualquer instabilidade pode gerar reflexos diretos na produção industrial, nos preços ao consumidor e no ritmo da economia.
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